"A novidade é a essência de nosso trabalho", diz a jornalista Elvira Lobato

Jéssica Oliveira* | 05/03/2012 12:10

Com 40 anos de Jornalismo, e sempre na função de repórter, Elvira Lobato recebe seu primeiro "Troféu Mulher IMPRENSA", como vencedora da categoria "Repórter de Site de Notícias". Aposentada há poucos meses, pela Folha de S.Paulo, onde ficou por 25 anos, Elvira se notabilizou por matérias em veículos impressos. No entanto, após a fusão das redações impressa e online da Folha, muito de seu trabalho passou a ficar conhecido pelo público de web.

Sagrando sua vitoriosa carreira, a jornalista venceu o "Prêmio Esso de Jornalismo" em 2008, com reportagem qie tratava sobre o crescimento do patrimômio da Igreja Universal, e o "Grande Prêmio Folha de Jornalismo" em 1999 e em 2004. Elvira é uma apaixonada pela profissão e declara ter orgulho de ser jornalista.

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Ainda na faculdade, Elvira Lobato bolava suas pautas e ia para rua fazer as matérias, sem esperar. "Ninguém estava me pautando, eu pautava a mim mesma", diz. Decidida a ser jornalista, saiu do interior de Minas Gerais e foi para o Rio de Janeiro tentar a profissão. Quatro décadas depois, a autora do livro "Instinto de repórter", guarda com carinho as lembranças de uma carreira de grandes reportagens e histórias contadas com sensibilidade e apuração cuidadosa.

A seguir, veja a conversa com Elvira Lobato sobre a sua carreira e profissão.
 
IMPRENSA - Com 40 anos de experiência, grandes matérias e diversos prêmios, quais os elementos fundamentais para uma boa reportagem?
Tem que trazer algo que seja novo. Algo que ninguém conhecia até então, ou se for um assunto conhecido, uma abordagem de um outro ângulo, mas sempre trazendo à luz algo novo. A novidade é a essência do nosso trabalho. A atratividade é importante também. Houve uma época na minha vida em que eu achava que a matéria podia ser árida, desde que fosse completa e precisa. Hoje, o jornalista tem que cuidar de diversos aspectos como texto, foto, arte, tudo é importante. Tem que ser atraente para o eleitor. E, claro, tem que ser preciso. Esse é um dos maiores desafios do jornalista, porque tem assuntos que são precisos à primeira vista, mas depois outros ângulos colocam isso em xeque. A apuração tem que ser feita de todos os ângulos e focos, até esclarecer todas as dúvidas. E tem que ser relevante, buscar o interesse do leitor e um enfoque que ninguém tenha tentado também é fundamental. Me lembro que em 2004, se não me engano, fiz uma matéria na Folha, sobre o trabalho escravo. A imprensa sempre fazia matéria sobre o tema, aí fui tentar entender o que era o trabalho escravo no Brasil e pesquisei tudo que consegui. Fiquei uma semana em Brasília, estudando processos, até chegar a conclusão de que é um fenômeno, uma ferida do agronegócio de grande ponta, das grandes empresas, não dos pequenos empresários. Apesar do tema estar presente na pauta, essa abordagem foi inédita e rendeu o Prêmio Folha de Jornalismo.

Crédito:Arquivo pessoal
Elvira Lobato repórter durante 40 anos.

IMPRENSA - Como a senhora vê a nova geração de jornalistas?
O jornalismo é algo atemporal. Quando comecei na profissão, nós tínhamos a mesma angústia dos jovens de hoje. Vim do interior de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, e todo mundo dizia que o jornalismo estava acabando, que o mercado estava acabando, e não foi nada disso. O desafio é o mesmo. Não existe isso que uma geração acabou e outra vai começar. O jornalismo se renova todo dia. Sempre vejo os jovens muito empolgados, naquela ansiedade e vejo o que aconteceu comigo, há 40 anos. Essa angústia - e eu acabei de ler um livro muito bom, “Os Imperfeccionistas”, que fala sobre isso também - da nossa profissão é muito universal. No trabalho do repórter, o que acontece aqui, acontece em todos os lugares. O jornalista é um eterno jovem. Não tem uma geração que seja melhor que a outra, que seja diferente. O jovem vai sempre começar com a mesma expectativa e ansiedade.
 
IMPRENSA - Qual os desafios enfrentados no começo da sua carreira?
O grande desafio que havia, quando cheguei ao Rio de Janeiro nos anos 70, era entrar no mercado de trabalho. Hoje, isso melhorou muito. As empresas tem programas de recrutamento e tal. Quando eu cheguei, você tinha que ter o famoso QI, o “quem indica”. E achava que seria minha maior dificuldade. Mas já no segundo ano da faculdade eu bolava uma pauta na minha cabeça, ia pra rua fazer e tentava vender a pauta. Uma hora você consegue. ‘Ah, porque o mercado está fechado!’. Alôô! Eu também ouvi isso 40 anos atrás. Sempre haverá lugar para o jornalista que vai atrás. Os jornais estão ávidos por esse tipo de profissional.

IMPRENSA - E desde o começo, a senhora foi repórter...
Eu só fui uma coisa na minha vida profissional. Em 40 anos só fui repórter. Eu só conheço, de atuação, como ser repórter. Tem certas coisas que nem é perguntar se você quer ser, é coisa de perfil, e o meu perfil sempre foi de repórter. E só me interessava ser repórter. Outra coisa incrível de ser repórter é cair em si de que não sabe nada, porque quando acha que sabe tudo, você se ferra. O jornalismo te obriga a ser humilde. Não importa se você é antigo, porque um erro destrói sua carreira. Todo dia é um novo dia, tem que chegar sempre com o olho aberto, curioso, empolgado e ter a consciência de que sabemos muito pouco. Porque se você não faz isso vai chegar alguém assim e ver algo que você não viu.
 
IMPRENSA - Nesses anos houve alguma reportagem que quis muito fazer e não fez?
Muitas pautas me frustraram e tem muitas matérias que queria fazer e não pude. Lembro de uma que fiquei vários dias na favela do Acari, no Rio, dominada pelo tráfico. Queria pegar uma turma de aluno que tivesse concluído o primário 10 anos antes e saber o que aconteceu com a vida de cada um. A primeira dificuldade foi conseguir que o município me desse a ficha de uma turma - e demorou bastante. Quando o prefeito me deu, eu fui pra favela. Consegui autorização com a associação dos moradores, e fiquei lá andando vários dias, tentando achar as pessoas da turma, mas não concluí porque ninguém queria falar. Havia um medo muito grande quando você perguntava de algum familiar. Talvez hoje seja possível, com as UPPs [Unidade Policial Pacificadora], mas naquela época não foi.
 
IMPRENSA - Sofreu preconceito por ser mulher?
Nunca. Quando comecei, todo mundo falava isso. Como eu não estava nem aí, eu não prestava atenção. Era bobagem. Se alguém tentou me discriminar por ser mulher, não percebi. Nunca perdi uma oportunidade de trabalho, nem me intimidei por causa disso. O jovem tem uma vantagem de estar no começo, de oportunidade, e tem que aproveitar. Vai que vai.

IMPRENSA - Fora das redações, quais os projetos futuros?
Olha, me aposentei em dezembro e precisei de um mês para entender o que acontecia comigo [risos]. Fiquei um mês no Jequitinhonha e conheci mulheres que bordam, coisa linda. Gostaria de contar a história delas, a cultura, arte... Também fui para o Marajó, no Pará, e fiquei encantada com o que vi. E tenho projeto de dar aula. Gostaria muito. Mas não quis fazer nada de início, só pegar o carro e sair por aí [risos]. Acho que estou voltando ao início, de ver as coisas e imaginar como contar essas histórias [risos].  

*Com supervisão de Vanessa Gonçalves.