"Só se dá bem quem se dedica e persiste", diz Tatiana Vasconcelos

Denise Bonfim* | 28/02/2012 18:15

No segundo ano da faculdade, quando ingressava no seu primeiro emprego em uma emissora de rádio evangélica, Tatiana Vasconcellos não imaginava que anos mais tarde se tornaria âncora de uma das maiores rádios do país e seria premiada e reconhecida nacionalmente. Também não passava por sua cabeça realizar o desejo dos tempos de “foca” de trabalhar em um programa de esportes.


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Em entrevista à IMPRENSA, Tatiana relembrou momentos da carreira e falou a respeito da visão dos jovens e recém-formados sobre a profissão.


IMPRENSA - Você trabalha em rádio desde sua formação?

Tatiana Vasconcelos - Eu já trabalhava em rádio desde o segundo ano de faculdade. Trabalhei em uma emissora evangélica, em um jornal que estava precisando de rádio-escuta. É engraçado, o que eu queria era totalmente diferente. Sempre quis trabalhar com esporte, porque fui jogadora de vôlei. Mas comecei lá e depois fui para uma TV evangélica também. Lá montamos um telejornal, onde eu cobri a máfia dos fiscais na câmara municipal. Estou nesta área desde os 19, 20 anos, mais ou menos.


IMPRENSA - Quais foram as coberturas mais marcantes da sua carreira?

O que eu acho ter sido muito cansativo, mas ao mesmo tempo muito importante e interessante e que me possibilitou aprender muita coisa, foi o caso Anaconda, que cobri pela CBN. Também teve o Apagão de 2008. No apagão, caiu tudo, eu estava no ar e fiquei das 8 da noite ate às 2 da manhã falando, sem som, sem outras notícias. O apagão era a noticia mas esse dia foi emblemático! Primeiro, se vê a força do rádio, porque o país apagou. Você não tinha internet, não podia ligar a TV, mas só precisava de um rádio de pilha para saber o que estava acontecendo. Outra coisa é a força da audiência. Como o ouvinte deixou de ser passivo e passou a participar dela. O ouvinte hoje é bem mais participativo do que há algum tempo atrás, por influencia da internet, o que obriga o rádio a ser muito mais rápido.


Crédito:Divulgação
Tatiana Vasconcelos acredita que só os persistentes se dão bem no jornalismo.


IMPRENSA – Então os ouvintes participam cada vez mais?

Com certeza. Por exemplo, eu sinto que os órgãos de fiscalização de trânsito precisam se adaptar a essa nova velocidade. O ouvinte que está parado no trânsito tira foto de um acidente na rodovia e mostra para nós, por exemplo. No apagão eu não conseguia ler, tantos eram os torpedos e e-mails de quem ainda tinha bateria no notebook. Era gente de vários cantos do país que avisava “da minha janela consigo ver a Avenida Paulista e está tudo escuro” ou então “estou em outro estado e aqui também não tem luz”. E assim ia, São Paulo, Rio, BH, todas as regiões do país. Como eu disse foi muito cansativo, mas foi muito emblemático, a função do rádio, a função do âncora, a participação dos ouvintes.


IMPRENSA -  Você se recorda de em algum momento, no dia a dia da redação, de ter se sentido prejudicada por ser mulher?

Que eu me lembre, nunca. Eu teria que pensar muito sobre isso... Mas se fosse alguma coisa grave eu lembraria.


IMPRENSA - O que você destaca como pontos positivos e negativos na profissão?

O jornalismo é tão amplo... Depende bastante do que você faz. Mas, jornalista é jornalista, tem que ser curioso, rápido, ter faro apurado, ser cuidadoso, saber onde está a noticia. Os jovens têm uma visão muito glamurosa da profissão, e não é, ou melhor, nem sempre é. Jornalistas trabalham muito, incansavelmente, tanto no rádio quanto na TV. Jornalista não é artista. Não que seja o ponto negativo da profissão, mas a impressão negativa que ela deixa, de que é tudo muito glamuroso, que jornalista é como artista... E não é! Eu pelo menos, nunca fui artista! (risos).


IMPRENSA - Além do noticiário, você também comanda o programa “Tem mulher na área”, que é uma espécie de mesa redonda feminina. E lá, o preconceito aparece?

Aparece de monte. Quando o jornalista se coloca na função de opinador ele corre o sério (e saudável) risco de aparecer quem discorde. Imagina, um quadro de futebol, feito por meninas, dando opinião! O futebol já é por si só um ambiente machista. Macho e machista. Agora nós já temos um ano de quadro, é um pouco mais tranquilo. Mas no começo, recebíamos muitos e-mails de ouvintes, sobretudo homens, e qualquer opinião que eles discordavam, diziam “vai lavar louça”, “vai pro fogão”. Eu fazia questão de ler um por um, e costumava responder que na cozinha nos éramos bem piores.


IMPRENSA – O que você diria se pudesse dar um conselho para os jovens que estão ingressando no jornalismo?

Dar conselho é complicado. Cada um trilha um caminho e se tivesse fórmula fácil só existiriam jornalistas bem-sucedidos. Eu sempre tive muito claro o que queria. Nunca tracei um plano para carreira, mas sempre ia fazendo as escolhas que me cabiam. As coisas foram dando certo porque eu tinha bem claro o que queria num curto prazo. Acho que primeiro é isso, ter claro o que quer. Depois, ir atrás. Não sei de que jeito, de que forma. Pode ser que eu esteja enganada, mas eu tenho a impressão de que os mais jovens esperam uma carreira mais fácil e eles não podem desistir no primeiro desafio porque são inúmeros. Só se dá bem quem se dedica e persiste.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.