Blogs conquistam espaço ao dar voz às “esquecidas” pela grande mídia

Danúbia Paraizo

 
No começo de 2011, a palestra de um policial em uma universidade de Toronto, no Canadá, deu o que falar. À época, ele sugeriu que as mulheres não deveriam se vestir como prostitutas para se protegerem do estupro. O discurso foi o estopim para uma onda feminista levar mulheres do mundo todo às ruas pela liberdade de usarem o que bem entenderem. 

O Brasil não ficou fora do movimento, organizando sua primeira Marcha das Vadias em São Paulo (SP), no mesmo ano, e logo depois, viu a manifestação ser replicada em diversas outras cidades. O protesto chamou atenção da imprensa para assuntos até então pouco discutidos, como o machismo velado e a ideia equivocada de que a mulher não é vítima do assédio sexual, mas, sim, responsável por ele.

Três anos se passaram desde então, e mais uma vez o movimento feminista passa por uma nova uma onda, desta vez, gerada pela popularidade de blogs segmentados. Independentes, como o de Lola Aronovich, no Ceará, ou ligado a algum grande veículo, como o de Nana Queiroz, no Brasil Post, os sites feministas têm conquistado espaço por debaterem questões pouco lembradas pela imprensa tradicional, principalmente, pelas revistas e portais de conteúdo feminino.


Crédito:Divulgação
Nana Queiroz


Para a jornalista Maíra Kubík, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e professora do departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), essa tendência de blogs feministas teve um boom nos últimos anos, quando as jovens ativistas encontraram na internet um novo espaço para o debate e instrumento de expressão. “É próprio do feminismo esse compartilhamento de ideias. Apenas o instrumento que mudou, e as mulheres mais jovens foram as protagonistas dessa mudança. Nas décadas anteriores isso era feito por meio de grupos de apoio, mas a internet propiciou não só que esses relatos fossem distribuídos de forma mais ampla, mas reforçou as características de cada mulher”.
 
Mulher surreal

Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lola reconhece as recentes conquistas das mulheres, como a Lei Maria da Penha e o ingresso das mulheres em profissões antes vistas como “masculinas”, como na construção civil, mas lamenta a pouca abertura e o atraso das publicações femininas. “Elas não evoluem. São quase as mesmas dos anos 1950. Tem muita coisa sobre maquiagem, culinária, dicas de como conquistar o homem na cama. Elas até reconhecem que as mulheres não são mais as mesmas, mas acham que seus interesses continuam os mesmos”.

Autora do movimento “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, a jornalista Nana Queiroz divide da mesma opinião de Lola. Para a jornalista, a mulher retratada nas publicações femininas não existe. “Não me sinto representada. A impressão que eu tenho é que a mulher para que esses veículos falam não existe, primeiro porque é uma mulher que tem muito tempo útil para ficar pensando no guarda-roupa e em maquiagem, é uma mulher muito magra, que tem uma independência superficial movida pelo poder financeiro dela e não pela autonomia que ela tem perante os homens e sociedade”.

Diante dessa sensação de não ser representada na mídia, elas resolveram criar seu próprio espaço como forma de dar voz às leitoras, que assim como elas, foram “esquecidas”. “O que mais me espanta nas revistas femininas e o que mais me afasta delas são os padrões que impõem. Tratam a leitora com muita condescendência, como se ela fosse fútil, o que nem de longe é verdade, não à toa que a gente vê o crescimento do movimento feminista, dos blogs, das comunidades feministas na internet. Existe uma sede muito grande da mulher por mais conteúdo crítico, conteúdo que fale a ela de verdade”, destaca Nana.

Crédito:Divulgação
Maíra Kubík


Autora do blog Território de Maíra, que trata de temas ligados aos direitos da mulher no site da revista CartaCapital, a jornalista Maíra Kubík concorda com as colegas sobre a falta de representatividade da mulher na grande mídia, e que esse gap alimenta ainda mais os blogs feministas. “O feminismo não é um assunto que tenha espaço na grande mídia. Agora até tem um pouco mais, mas isso graças ao impacto desses blogs na última década. Por não ser frequente na imprensa, os blogs trazem pontos de vista que não teríamos acesso senão por eles. E as mulheres que não estão na militância mais organizada acabam tendo contato com o tema”, defende.

Haters gonna hate

Com um mar de mais de 20 mil seguidores apenas no Twitter e uma média de 200 mil acessos mensais, dá para se ter ideia da influência de Lola nas redes sociais. Mas apesar de a blogueira ter aberto uma janela de debates importantes, com discussões sobre o aborto, padrões irreais de beleza e direitos igualitários de oportunidades de trabalho, por exemplo, ela também tem experimentado um lado obscuro da internet com a perseguição de haters. Até mesmo ameaças de estupro e outros tipos de violência ela tem experimentado. Outras blogueiras feministas têm passado por experiências semelhantes, o que de certa forma traduz o contexto cultural machista ainda vigente em todo o mundo.

Segundo pesquisa do Pew Research Center, mulheres jovens são as que mais sofrem perseguição e assédio na internet, segundo informações da Folha.com. No levantamento, 25% das mulheres entre 18 e 24 anos reportaram terem sido assediadas. Entre os homens, o número cai para 13%.

Ao julgar o resultado da pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em março de 2014 sobre o estupro, o Brasil não é um ponto fora da curva. O levantamento revelou que a maioria da população brasileira acredita “que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. 

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