Jornalistas mulheres desafiam preconceitos em coberturas de guerras e regiões de conflito
 
Diz o senso comum que a mulher é o “sexo frágil”, que o trabalho duro não é compatível com elas e que situações de risco não são amigáveis para jornalistas mulheres. O senso comum, porém, está errado mais uma vez. Cresce o número de jornalistas que, longe das editorias mais “tranquilas”, se arriscam em campos de batalha para contar os muitos lados da guerra.

É o caso de Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S.Paulo, que já viajou ao Iraque e ao Afeganistão em ocasiões diferentes. Mais recentemente, esteve em Serra Leoa para escrever sobre a epidemia de ebola. Segundo a jornalista, o principal obstáculo para mulheres estrangeiras nestes países não tem sempre relação com gênero, mas com cultura.


Crédito:Reprodução
Patrícia Campos Mello


“No Afeganistão, muitas vezes eu tinha reuniões , entrevistas com líderes tribais, etc., e eles não se dirigiam a mim, só falavam com o tradutor homem. Eles nem me olhavam. Eu era uma não-pessoa, basicamente. Eles tratam a mulher como uma não-pessoa”, comenta Patrícia.

Experiência semelhante foi a de Adriana Carranca, do Estado de S. Paulo, também no Oriente Médio. Em sua passagem pelo Afeganistão, ela teve a chance de entrevistar o líder talibã Mullah Rocketi. “O nome dele é Mullah Abdul, mas o apelido é ‘Rocketi’, que quer dizer ‘míssil’. Dizem que ele disparou um míssil do próprio ombro e derrubou um helicóptero soviético”, esclarece.

“Foi difícil no começo convencê-lo a falar comigo. Na primeira entrevista, ele mal respondia às perguntas, só olhava para o tradutor. Falar olhando para uma mulher é um desrespeito na cultura local. Seria um desrespeito comigo falar olhando para mim. Então, é mais uma questão cultural – que eu acho que a gente tem que compreender”, acrescenta Adriana.
Crédito:Divulgação
Adriana Carranca


Com passagens pela Globo, SBT, Record e, atualmente, Bandeirantes, a jornalista Ana Paula Padrão também tirou vantagem do fato de ser mulher em suas reportagens na região muçulmana. “Sei que várias colegas passaram por isso mas, felizmente, não só não houve preconceito, como o fato de ser mulher até me beneficiou em algumas situações. No Afeganistão sob o regime talibã, por exemplo, só pude ter contato com mulheres que se reuniam em cooperativas clandestinas e entrar em escolas clandestinas para meninas por ser mulher. Um jornalista homem jamais teria a mesma chance.”

Um olhar diferente
Segundo a lei islâmica, as mulheres de países muçulmanos não podem ser vistas por estranhos – isto é, homens de fora da família. Por conta disso, um repórter homem que viaja a esses locais deve ficar hospedado em um hotel. Já Adriana teve a chance de dormir na mesma casa de uma família muçulmana em sua passagem por Gaza, como uma convidada de honra. Isso, ela diz, permitiu que pudesse trazer ao público um olhar diferente sobre a guerra.

“Eram o pai, a mãe e três meninas. Essa convivência com as meninas, no dia a dia, com a mãe, a conversa, isso é o que me dá a real dimensão do que é viver na guerra. Eu tenho menos atração pela guerra em si, o combate, o poderio militar, os soldados, as tropas; e mais pela vida dos civis em guerra. [Como mulher] você tem mais acesso a essa vida cotidiana, e não ao front de batalha. Você tem mais acesso aos civis do que os homens jornalistas normalmente têm”, conta.

Patrícia também viveu situação semelhante em Serra Leoa. “Em um dos checkpoints para você entrar na zona de epidemia, um policial lá não queria deixar a gente passar de jeito nenhum. Aí em certa altura ele olhou pra mim e falou assim: ‘ah, mas eu estou vendo que você é uma mãe, é uma mulher, eu vou deixar você entrar’”, lembra, bem-humorada. “Então tem um estranhamento, do tipo ‘o que uma mulher está fazendo naquele lugar?’, mas ao mesmo tempo tem um certo respeito.”

Ana Paula acredita que, em situações de conflito, a mulher ainda é vista como alguém fora do lugar. “Acredito que, de maneira geral, em situações de perigo, o tratamento dado à mulher tende a ser extremo para ambos os lados. Ou ela é tratada de maneira especial e mais protegida que em situações de normalidade ou é usada como arma de guerra. Estupros, por exemplo, tendem a aumentar. É um instrumento de submissão do inimigo. A última fronteira da objetificação da mulher”, argumenta.

“Coisa de homem”
Com seu extenso currículo em zonas de conflito, Ana Paula afirma que o preconceito de gênero nas redações já está superado. “Redações, nos últimos 50 anos, sempre estiveram cheias de mulheres e o gênero nunca foi um impeditivo para coberturas perigosas. A disponibilidade de uma mulher para ir para locais perigosos é que, em geral, tende a ser menor que a dos homens por causa dos filhos. Eu, que não os tenho, nunca me senti preterida em coberturas de guerra. Acho o esporte bem mais preconceituoso. Mulheres demoraram muito mais para cobrir futebol do que para cobrir conflitos armados”, diz.
Crédito:Divulgação
Ana Paula Padrão


Patrícia, porém, discorda. “É mais difícil você, sendo mulher, tentar emplacar uma pauta: ‘olha eu quero ir cobrir o Estado Islâmico no Iraque’. As pessoas olham pra você e falam: ‘você é maluca’. Se for um homem, a reação já não é a mesma. Desperta menos espanto”, afirma a jornalista. Essa “resistência”, porém, parece estar sendo quebrada, na opinião de Adriana.

“Acho que  isso [preconceito nas redações] está mudando, justamente porque várias mulheres foram a campo e começaram a ganhar prêmios, trazer grandes reportagens… Acho que os editores começaram a perceber que a gente também pode fazer grandes coberturas nessas áreas, e talvez, às vezes, com mais sensibilidade”, diz.

Apesar de tudo, as profissionais concordam que uma boa reportagem sobre guerra ou sobre uma região de conflito, pode ser produzida por ambos os sexos, independente de estereótipos ou preconceitos de gênero. “Jornalista é um contador de histórias. Isso independe de gênero. Em regiões de conflito é mais difícil contar histórias porque os riscos são maiores para ambos os sexos. Por isso é importante fazer uma pré-produção muito boa e detalhada. Para ambos os sexos”, finaliza Ana Paula.

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*Com supervisão de Thaís Naldoni
 
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