Mulheres cartunistas revelam os desafios do mercado de quadrinhos brasileiro

Lucas Carvalho

 
Em um mercado tão competitivo quanto o da imprensa brasileira, conseguir um lugar de destaque – seja qual for sua ambição – é sempre um desafio. Nos quadrinhos não é diferente, visto o quão difícil é para que novos talentos chamem a atenção do público. Especialmente se esses talentos são do sexo feminino.

Mulheres cartunistas, por mais que não sejam difíceis de encontrar, ainda não conquistaram a relevância no mercado que seus colegas homens já possuem. Mas isso em breve pode mudar. Em dezembro de 2013, a Folha de S.Paulo estreou um espaço exclusivo para charges e quadrinhos feitos por mulheres, intitulado “Quadrinhas”. Além disso, multiplica-se o número de artistas que desafiam os preconceitos e os obstáculos naturais do mercado para divulgar seu trabalho de forma independente.

Pryscila Vieira, criadora das tirinhas da personagem Amely, uma boneca inflável que é uma “mulher de verdade”, é uma dessas artistas. Segundo ela, para entrar na área a questão gênero nunca influenciou – seu talento, por outro lado, é o que sempre moveu sua carreira adiante. “O blues procura você, não é você que procura o blues”, compara. “Mandei meu primeiro cartum para o salão de Piracicaba e fiquei em primeiro lugar. Nos dois anos seguintes a mesma coisa. Algo me chamava para o mundo do humor. Então caí nessa vida de glamour, em que acordo com a orquestra sinfônica do Paraná tocando para mim todos os dias.”


Crédito:Divulgação
Pryscila Vieira


Bem-humorada, Pryscila afirma que nunca sofreu preconceito na área, mas admite que existe um olhar diferente do público, dos veículos e dos colegas ao encarar cartunistas mulheres. “Quem tem cintura, tem jogo de cintura. Se eu fosse alvo de preconceito, cortaria o mal pela raiz. Sempre me senti bem recebida na profissão e fui incentivada pelos colegas a trabalhar com o humor. Talvez eles mesmos percebessem a carência da presença feminina nessa área.”

“Como ainda somos minoria, acho que é algo que chama um pouco de atenção. Mas o mérito está adiante de qualquer definição de gênero. O que importa é o trabalho. Algumas vezes os veículos procuram por esse humor desbravador, engajado, que trate das questões do universo feminino. E o público, não raramente, também espera por isso. Temos oferta e demanda. As mulheres sentem-se representadas nos quadrinhos e os homens sanam curiosidades sobre assuntos nunca antes expostos de forma bem humorada”, acrescenta a cartunista.

Cynthia Bonacossa – ou Cynthia B, como assina seus quadrinhos – também nunca foi vítima de preconceito. Pelo contrário: ser mulher lhe garantiu vantagens na disputa por um espaço no mercado, quando ela ainda era uma universitária autora da própria revista. “Teve gente que publicou na minha revista porque ela era diferente, na época, por ser feita por uma mulher”, diz.
Crédito:Divulgação
Cynthia Bonacossa


“Acho que eu não sofri mais do que outras pessoas. Às vezes eu pensava ‘será que foi por causa disso que eu tive certas dificuldades?’. Mas aí eu vejo que outros cartunistas amigos meus, homens, também ficam pensando ‘por que não me chamam?’, etc. Então eu acho que isso, às vezes, é noia. Ou não. Sei lá”, acrescenta Cynthia.

Apesar de o mercado não oferecer obstáculos para cartunistas mulheres – pelo menos, não mais do que os já enfrentados por homens – o público, por outro lado, nem sempre é tão receptivo com o diferente. Se não são vítimas de preconceito, muitas vezes essas artistas precisam lidar com o “rótulo” estereotípico inerente ao sexo feminino. É o que diz Alexandra Moraes, autora das tirinhas digitais “O Pintinho”.

“Não posso responder pelo público, mas talvez sejamos vistas como ‘mulheres’, assim, com aspas, como se fosse um defeito, em vez de cartunistas simplesmente. Fazer o quê? O único jeito sensato de responder é pelo trabalho. E se continuarem vendo a gente como ‘mulheres’? Bom, talvez sejamos mulheres mesmo”, comenta a artista. Segundo Alexandra, talvez possa haver um ruído na comunicação com diferentes gêneros, mas a arte é feita dessa diversidade de visões sobre a realidade.
Crédito:Reprodução/Alexandra Moraes
"O pintinho"


“Existe um certo horror crescente a esse estereótipo da mulher que está trabalhando e dando de mamar e cuidando da casa e passando um batom com o pé, e eu acho que fica menos engraçado mesmo na medida em que se torna mais e mais comum. Talvez incomode”, acrescenta Alexandra. “As mulheres são minoria, mas já têm alguns espaços fixos, e existe também uma movimentada produção em zines e sites. Só que ainda produzimos menos, e de minha parte acredito que ter que desempenhar várias tarefas, cobranças (inclusive de nós mesmas) prejudica, sim, a quantidade dessa produção.”

Cynthia também acha que esse rótulo, “cartunistas mulheres”, é prejudicial à diversidade do mercado de quadrinhos. Ela critica seções especiais em jornais, ou mesmo revistas especializadas, produzidas apenas para e por mulheres. “Eu acho melhor cada um ser julgado e visto como artista, e não como ‘mulher’ ou ‘homem’”, comenta. Ainda assim, ela admite que o ponto de vista dessas desenhistas sempre é ligeiramente diferente dos homens.

“Ser mulher é diferente de ser um homem. Ao mesmo tempo em que não esperam que você alcance tantas coisas como o homem, isso também acaba fazendo com que as mulheres não lutem tanto e se sintam menos aptas. Você tem que superar um monte de bobagem da sua cabeça, que a sociedade te impõe, que os homens não têm. Eles são mais ‘pressão’, e menos ‘diminuição’. Isso reflete quando você vai escrever, e nas histórias que você quer contar, o que te emociona e o que afeta sua imaginação”, diz.

Pryscila acredita que, mesmo contra todos os obstáculos, a arte de um(a) desenhista, homem ou mulher, sempre se sobressai à questão gênero. Por outro lado, ela ressalta a forma como a imagem da mulher sempre foi motivo de piada numa área historicamente machista. O que, ela acredita, pode ser outro empecilho na popularização de artistas do sexo feminino.

“A mulher sempre é objeto, um estereótipo sem voz: é a gostosa, a burra, a bonitinha sendo enganada para ir para a cama com um espertalhão. Então, condicionadas a pensar que todo humor gráfico segue este padrão, muitas mulheres acabaram por sequer procurar por este tipo de arte. Sentem-se agredidas, caçoadas e não gastariam seu suado dinheiro comprando um livro em que são reduzidas ao objeto de piada”, comenta a artista.

“É chegada a hora de desenhar do nosso jeito, de caçoar das tantas possibilidades de piadas que o universo masculino nos proporciona. Só que onde estão estas desbravadoras?”, questiona Pryscila. “Hoje temos muito mais presença feminina dedicada a essa arte. Mas ainda sinto a carência da mulher de ter sua voz no humor, como é o que faz a Amely, minha personagem. Ela representa a mulher de verdade que pensa, que fala, que é independente, mas que apesar de tantas qualidades intelectuais e de caráter, ainda é vista como um inanimado objeto sexual. Ainda vivemos isso no humor e na sociedade”, finaliza.
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