Também no jornalismo, mulheres tomam parte em áreas tipicamente masculinas

Gabriela Ferigato

 
Há mais de trinta anos, a jornalista Maria Inês Nassif, do jornal GGN e colunista da Carta Maior, decidiu largar tudo e ir para Brasília (DF) com um claro objetivo em mente: trabalhar na editoria de política. Como resultado, a profissional foi testemunha e viu um espaço exclusivamente masculino ser tomado por mulheres.

O fenômeno também chegou a outras áreas, como economia, esportes e, mais recentemente, games – editorias consideradas, então, predominantemente masculinas. Exatamente por isso, algumas mulheres enfrentaram desafios no meio do caminho.

No auge de seus vinte anos, o jornal que Maria Inês trabalhava resolveu fazer uma pesquisa sobre reforma política. A jornalista partiu então para o anexo dos deputados no final de uma tarde, quando o movimento era bastante ermo. Ao entrar no gabinete de um deles, o político rasgou elogios para a repórter e, ao sair, tentou agarrá-la. 


Crédito:Alf Ribeiro
Maria Inês Nassif


“Contei para minhas colegas e no dia seguinte elas espalharam para todo mundo. Esse político nunca mais conseguiu entrar no plenário. É um comportamento, algo cultural que rompemos no grito”, destaca Maria Inês. Segundo ela, a entrada da mulher na profissão coincidiu com o processo de redemocratização do Brasil.

“Foi algo muito rápido. Os jornais se modernizaram, uma nova geração entrou e as mulheres passaram a assumir cargos de chefia. Foi um momento feliz para o país. Em seguida, depois da Constituinte de 1988, a discussão de cidadania favoreceu o debate sobre a situação nas redações, em relação a igualdade. Assisti a um processo de grande avanço. Quando comecei não era assim, hoje as mulheres reinam na editoria de política”, conta.
Crédito:Divulgação
Flávia Oliveira


Apesar de seu ingresso em economia já ter sido marcado por uma hegemonia feminina na área, Flávia Oliveira, comentarista do Estúdio I da GloboNews e titular da coluna “Negócios & Cia” de O Globo, já enfrentou situações semelhantes a citada acima.

De acordo com a jornalista, logo no início de sua carreira se deparou com uma fonte que tentou beijá-la. “É uma coisa que não acontece com repórteres homens, por exemplo. O entrevistado havia bebido e confundiu as coisas. Depois ele se desculpou, mas foi um constrangimento. Isso eu vivi mais de uma vez. Acho que tem um outro componente, o fato de eu ser negra, ou seja, uma figura pouco esperada no jornalismo econômico. Além de mulher, sou negra”. 

Por ser um universo masculino, passando por autoridades, executivos, judiciário, mercado financeiro etc, Flávia afirma que existe uma série de rótulos e as mulheres acabam se vestindo de uma maneira formal, mais aproximada desse mundo. “Essa formalidade faz diferença. Os olhares e as abordagens mudam de acordo com a apresentação. Eu me feminizei gradualmente, mas na origem me protegia mais”, opina. 

Empecilhos
Apesar do nítido avanço na presença de mulheres no campo do esporte, a repórter Mayra Siqueira, da Rádio CBN, diz que ainda existe um machismo velado, mas é algo que, aos poucos, vem mudando. “É desconfiar de uma informação que você tem, como se não tivéssemos capacidade de ter conseguido. Ou por meio de palavras tortas, olhares, risinho irônico de entrevistados. Mas temos que nos impor e, a partir do momento que passam a conhecer o seu trabalho, existe respeito”, afirma.
Crédito:Divulgação
Mayra Siqueira


Do outro lado da bancada, Mayra ressalta que foram mínimos os casos em que recebeu respostas machistas de ouvintes ou leitores. Ela conta que após fazer uma cobertura sobre a reestreia do jogador Valdivia em um jogo do Palmeiras contra o Guarani vários torcedores do time adversário do atleta mandaram mensagens para a jornalista reclamando que deixaram sua torcida de lado. “Diziam ‘quem é você para escrever isso?’, ‘mulher não sabe nada’”.

Camila Mattoso, repórter da ESPN, conta que no começo de sua atuação em esporte muita gente pedia a escalação de algum time para provar que entendia de futebol. “Eu dava risada com isso, mas era uma das formas de preconceito. A gente acaba sabendo que a principal parte do preconceito, obviamente, acontece quando não estamos presentes. Tem quem fale que por ser mulher consigo informação mais fácil e coisas desse tipo”. 
Crédito:Divulgação
Camila Mattoso


Desde muito cedo Flávia Gasi convive com o universo dos games. Sua mãe, fã assumida de Stars Wars, apresentou o que pode ser considerada a “bíblia” dos nerds. Além disso, não deixava, junto com seu irmão mais novo, o vídeo game de lado. 

“Minha mãe fala que uma de minhas tarefas é ‘nerdizar’ o mundo”, brinca. Com mais de dez anos de experiência, a jornalista diz que ainda escuta que certas coisas não são assunto de mulher. Como, por exemplo, uma resenha sobre um jogo de FIFA - por não passar “credibilidade”.

“Quando isso acontece, prefiro sair do projeto. Vivemos em um país que ainda tem preconceito. Ainda há mais homens na indústria de games. É muito importante ter diversidade no mercado, isso é o que faz ele crescer. A mulher não devia se assustar com isso, mas ir e fazer o que gosta”, completa a jornalista que foi a primeira mulher contratada pelo portal IGN.
Crédito:Rafael Roncato
Flávia Gasi


Para quebrar algumas barreiras, Flávia Oliveira destaca que o papel da mulher ainda é muito sexualizado no mercado de trabalho. “Se gostam do seu trabalho, dizem que você é linda e inteligente, quando não, é feia e mal amada. É uma questão mais ampla da sociedade, essa que vê a mulher primeiramente em seu físico e secundariamente como capaz”, finaliza.


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