“A morte da expertise e o jornalismo”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 07/08/2020 07:04

Infelizmente, não há nenhuma informação nova no fato de que os jornalistas têm sido cada vez mais atacados no Brasil. Já no começo do ano, em março, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) divulgou o relatório Violações à liberdade de expressão, que identificou a ocorrência de 11 mil agressões contra jornalistas por dia nas mídias sociais, numa média de sete por minuto, só no ano passado. As ofensas e os insultos crescentes, entretanto, não se resumem só aos profissionais de imprensa. Cientistas, acadêmicos e outros tipos de especialistas também tem experimentado a fúria de cidadãos indóceis (para dizer o mínimo) e políticos de destaque (ou em busca de), em investidas coordenadas ou não. Não por coincidência, essas categorias atuam numa mesma seara, a da produção de conhecimento – o que revela certa uniformidade entre os motivos que levam à tentativa de descredibilizá-las. Longe de ser resultado de ações isoladas, o desrespeito a jornalistas e pesquisadores é fruto de um evento cultural maior: a morte da expertise, nas palavras de Tom Nichols, professor da Naval War College, nos Estados Unidos. Como isso afeta o jornalismo?


Crédito:Divulgação

A expertise, definida como “1. Competência ou qualidade de especialista; 2. Perícia, avaliação ou comprovação realizada por um especialista em determinado assunto”, tem sua história consolidada com a ascensão da ciência como fonte fidedigna de conhecimento sobre a realidade, perpassando outras áreas que oferecessem um saber mais incisivo e seguro sobre o mundo, metódico. Afirmar sua morte não representa o fim dela mesma, nem de seus construtores (os experts). Expressa, sim, o rompimento de alguma confiança que essa expertise já possuiu e a rejeição ao diálogo, por parte dos cidadãos fora dessa esfera, e à submissão à concepção de autoridade que ela comporta. Mas não diz respeito apenas ao desprezo pelas formas tradicionais de conhecimento: reflete uma desaprovação crescente da autoridade proveniente da ciência e da razão. 


A ideia de insubmissão a autoridades não é de todo ruim e a falácia do argumentum ad verecundiam (argumento de autoridade), em que se tenta validar uma argumentação não por suas premissas e consequências, mas apenas pela credibilidade da pessoa que a emitiu, é evitada pela própria ciência. Contudo, a noção de morte da expertise não é sobre isso. É sobre equiparar o senso comum (milhões de sensos comuns) ao conhecimento científico ou especializado - e, em casos extremos, negar que algo de bom possa advir deles. No fim da linha, tachá-los como uma grande mentira. 


Apesar do jornalismo estar longe de ser uma ciência, muitos de seus pressupostos advém de suas formas de apreender os fatos: a busca por uma objetividade, a percepção de que a realidade pode ser apreendida pela observação acurada, o desenvolvimento de métodos de apuração. E exatamente por não ser uma ciência, o jornalismo pôde se expandir pelos meios de comunicação de massa e depois pelos meios digitais, oferecendo janelas para observar a vida social de maneiras mais simples e compartilháveis. Nem por isso a prática jornalística deixa de ser percebida como uma forma de conhecimento especializado (ainda que as anedotas da área digam que seja especializado em generalidades). 


Que fique claro que se sabe aqui que tanto ciência quanto jornalismo erram, erraram e errarão; que sua neutralidade é fictícia; que a verdade é coisa escorregadia. Também não se abdica da certeza de que o jornalismo, às vezes, contribui para sua própria ruína, obedecendo a ditames escusos. Mas no questionamento de sua reputação há muito do ressentimento que foi identificado por Hannah Arendt, que desabrochou de modo comezinho nos anos anteriores à subida do III Reich na Alemanha e depois lançou seus esporos sobre a Europa ocidental, quando “havia muitas vezes um ódio profundo e um ressentimento   por   todos   aqueles que socialmente, intelectualmente ou fisicamente eram mais providos: última evidência de sentimento humanamente inteligível”. 


Desse modo, o jornalismo vem morrendo junto a outras expertises, não porque deixa de existir ou porque deixa de ter seus produtores/consumidores, mas porque existe uma ação progressiva de repúdio a qualquer credibilidade que este possa ter (incentivada, inclusive, por alguns líderes políticos). O vocábulo fake news está aí para provar. O que se pode fazer para contornar esse cenário ainda é uma incógnita. 


Crédito: Arquivo pessoal



*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.



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