“O combate a fake news passa pela promoção de letramento midiático”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 05/08/2020 15:44

Participei recentemente de uma mesa redonda, virtual, sobre letramento midiático, em contexto de disseminação de fake news, ao lado das profissionais e pesquisadoras Adriana Teixeira e Alexandra Bujokas de Siqueira. Por ora, quero compartilhar a seguinte reflexão: qual o papel do jornalismo no letramento midiático?


Para entender, primeiro, o que é letramento, baseio-me muito nos ensinamentos da professora Maria de Lourdes Rossi Remenche, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), nas aulas de Multiletramentos que tive com ela aula no mestrado. De forma sucinta, e objetiva, letramento não é apenas decodificar signos, símbolos. É compreender discursos, inferir nuances – apropriar-se do conteúdo, de modo a ter condições de gerar conhecimento.


Portanto, letramento midiático vai muito além de ler, ouvir ou assistir a alguma informação. É ter as condições para analisar, interpretar o fato relatado. Relacionar como tal fato impacta – ou não impacta – a vida prática, cotidiana. Identificar como aquela informação, devidamente apropriada, de alguma forma acrescenta, enriquece, engrandece.


Crédito: Reprodução
Revista Careta/Acervo da Casa Rui Barbosa, com notícias da época da gripe espanhola




Não dá para colocar na conta do jornalismo, nem do jornalista, essa atribuição: ser o responsável principal pela promoção de letramento midiático. Essa competência é adquirida pelo leitor, pelo ouvinte, pelo espectador, pela internauta. E essa aquisição não se compra, não se acha na esquina, nem surge de efeitos sobrenaturais.


Letramento – letramento midiático, inclusive – decorre de uma série de elementos basilares. Formação escolar é um deles. Uma sociedade com um sistema de ensino baseado na educação integral, na pedagogia da autonomia, forma cidadãos e cidadãs com letramentos múltiplos. Uma sociedade que valoriza, fomenta, abre espaço para expressões artísticas, culturais, esportivas forma cidadãos e cidadãs com letramentos múltiplos.


No entanto, o jornalismo e jornalista podem – e devem – dar sua contribuição. Uma sociedade com um sistema de comunicação de massa democrático, plural, liberto de monopólios e oligopólios, pelo qual se combate o discurso hegemônico, o pensamento único elitista, e amplifica vozes, essa sociedade consegue contar com leitores, telespectadores, ouvintes, internautas hábeis em letramento midiático.


Assim, ou seja, quanto mais uma sociedade se dedica a ser democrática na educação, na arte, na cultura, na comunicação, mais essa sociedade está protegida contra boatos, notícias falsas, discursos de ódio. As fake news se proliferam, se enraízam, porque historicamente o terreno foi adubado para o caos.


Um sistema de ensino mais mecanicista, e menos crítico; capital cultural como privilégio de classe; uma comunicação de massa que reverbera estigmas, estereótipos, e faz coro a guerras ideológicas; tudo isso, ao longo do tempo engendrado, fertiliza o solo para o esparramar de fake news. 


Como o jornalismo e o jornalista podem – e devem – dar sua contribuição? Primeiro, tendo consciência, assumindo a existência dessas mazelas. Em seguida, atuando de modo a buscar a verdade factual, a assumir o ponto de vista dos direitos humanos, da defesa e luta por igualdade de oportunidades. Quando é esse o olhar, dar vez e voz a contradiscursos se torna elementar. E então temos matéria-prima para a vacina contra a ignorância.


Assista o bate-papo, pelo canal do Sesc Santos:


                                                     






*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.




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