Livro-reportagem discute o acesso à cultura por meio de histórias de artistas de rua em ocupações

História de TCC

Redação Portal Imprensa | 09/07/2020 10:30

O livro-reportagem "Invasão Cultural" conta a história de três ocupações artísticas em São Paulo e aborda o movimento de acesso à cultura, bem como a trajetória de artistas de rua em ocupações.


Em entrevista ao Portal IMPRENSA, a jornalista Beatriz França, que se formou pelo Centro Universitário das Américas – FAM, em 2019, compartilha sua História de TCC.   


Sobre o trabalho 


“Invasão Cultural” é um livro-reportagem sobre artistas de rua em ocupações culturais em São Paulo, e escolhi três ocupações de diferentes bairros: Ouvidor 63, que fica na Sé, Casa AmarEla, localizada na Consolação e Ocupação Cultural Mateus Santos em Ermelino Matarazzo, extremo leste de São Paulo e onde moro desde que nasci.


A ideia principal foi mostrar como os artistas dessas ocupações sobrevivem da arte em São Paulo e analisar o impacto desses trabalhos na comunidade, mas, no final, descobri que eles tentam fazer o que seria obrigação do governo e dão acesso à cultura para quem não tem a oportunidade de ir a uma biblioteca, ver uma peça de teatro, um sarau...

Crédito: Reprodução


Principais desafios ao longo da produção 


Meu maior desafio foi tirar os estereótipos que eu tinha sobre os prédios abandonados e de como eles são vistos pela maioria das pessoas. Confesso que no início pensava “eu vou entrar nesse prédio? Meu Deus, só se eu estiver na companhia de alguém”. Foi, inclusive, por causa desse meu pensamento que decidi fazer sobre os artistas das ocupações, e não apenas sobre artistas de rua. 


Depois da minha primeira visita ao Ouvidor63, perdi esse preconceito. Queria ficar mais tempo lá, conhecer cada espaço e cada pessoa que fazia daquele prédio moradia e espaço de trabalho. É importante ressaltar que nem todas as ocupações culturais que retrato no meu trabalho são ocupações de moradia. A ocupação de Ermelino Matarazzo, por exemplo, é uma residência artística e nenhum dos artistas mora lá.


Os aprendizados


São tantos. Aprendi muito com as vivências, as diferenças, e me coloquei no lugar de cada pessoa que entrevistei. Durante esse processo, conheci pessoas que tinham sonhos e encontraram nele uma luta (e uma luta de muito respeito). As três ocupações têm o mesmo intuito: dar vida a um espaço inativo e promover o acesso à cultura para as pessoas que moram próximo.


Aprendi que, mesmo em meio às dificuldades, existem pessoas que ainda acreditam no ser humano e que a cultura pode ser pra todos. Infelizmente, essa não é a realidade do Brasil e nem está entre os objetivos dos nossos governantes. Só que existem esses movimentos que prezam muito por isso, em fazer da cultura algo pra todos e ao mesmo tempo questionar e “bater de frente”.


Eu vi uma mulher que não acreditava na sua arte, agora vive dela e passou a ser reconhecida, leva seus conhecimentos para outros lugares. Conheci um francês que passou de país em país, no Brasil foi de estado em estado, e parou em São Paulo para fazer seus malabares. Ele mora aqui e vive da arte num prédio no centro. 


Conheci também uma adolescente, de 17 anos, que concilia os estudos com seu trabalho na Ocupação de Ermelino e não sai de lá por nada, porque ali ela encontrou pessoas que abraçam a mesma causa, além de fazer o que ama. Entre tantas outras histórias que reuni nesse livro.


Significado dessa experiência 


Eu sempre tive apreço pelo jornalismo cultural, mas ao mesmo tempo queria mostrar esse lado “obscuro”. Sempre quis questionar e entender o motivo de pessoas não terem local pra morar ou chegarem ao ponto de ocupar um espaço. E foi assim, com vontade de “fazer justiça” e com a “militância” (muitos que me conhecem falam que eu tenho), que decidi seguir por esse caminho. Por que as pessoas não têm acesso à cultura? Onde vivem os cantores do metrô? O que são aqueles prédios pixados do centro? Por que em Ermelino Matarazzo não tem NENHUM Centro Cultural ou Teatro? O que levou essas pessoas a ocuparem o casarão na Consolação?


Hoje, quando olho pra esse trabalho, e depois de ter conhecido alguns dos artistas destes prédios, entendo perfeitamente qual é a intenção deles. A luta ainda não está ganha... Alguns ainda recebem carta de reintegração de posse e eu pergunto: o que o governo vai fazer com esse prédio caso tirem esses artistas de lá? Vão mantê-lo fechado mais uma vez? Com a ocupação, o prédio ganha vida e dá vida ao seu entorno. Comércios, moradores, comunidade, todos acabam ganhando.


Acredito que a Beatriz, que entrou na faculdade em 2016 e tinha tantos sonhos, está orgulhosa desse trabalho. É doido demais pensar que aprendi tudo isso em um ano de pesquisas feitas quase sozinha (um agradecimento pra minha orientadora, Juliana Doretto, que sem ela seria impossível). E acho que o “Invasão Cultural” me ensinou que se eu acredito em algo firmemente, devo apostar nisso. Me ensinou a apostar nos meus ideais, meus sonhos e acreditar que eu realmente posso fazer algo. É muito prazeroso ver o que um TCC pode nos proporcionar como pessoa, não apenas como jornalista.


Contribuições que o trabalho trouxe


Algumas pessoas me procuraram para falar sobre meu TCC em escolas, entre eles um ex-professor que se tornou meu amigo, mas veio a pandemia e isso parou por enquanto. Muitos estudantes de jornalismo acabaram me encontrando nas redes sociais e alguns eu até ajudo com várias coisas de faculdade, inclusive com o temido TCC.


Também conheci muita gente incrível e especialistas que fizeram parte desse trabalho, e foram essenciais para dar andamento ao livro. Olho o trabalho e penso que “foi bom demais, apesar da loucura”.


Conselhos para quem está fazendo o TCC 


Acho que os principais conselhos são:


- Acredite no seu potencial: se você escolheu um tema e chegou até aqui é porque você, mas SÓ VOCÊ, tem capacidade de fazê-lo da melhor forma. Não se subestime, vai sair um trabalho incrível.


- Acredite no seu orientador: ele sabe o que está falando, confie firmemente nele. A Juliana Doretto, minha orientadora, foi a peça-chave para o meu TCC ter se tornado realidade. Ela mantinha minha calma de uma maneira incrível, mesmo quando os prazos pareciam ter acabado.


- Imprevistos acontecem: mas não use isso como muleta. A fonte desmarcou? Bora procurar outra, tenta ver outro dia, outro horário. Não apareceu? Vida que segue... Levante e comece a acionar os seus contatos. Não tenha medo de pedir ajuda, de dar a cara a tapa. Só vai ser possível fazer isso dessa forma.


- E, por último, divirta-se fazendo o seu TCC. Aproveite cada minuto, essa experiência não vai voltar e você terá tudo guardado na memória (ou em vídeos).


Crédito: Pietra Polo












Para ler “Invasão Cultural”, acesse este site




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