Curta-metragem coloca em pauta os relacionamentos abusivos entre homens

Histórias de TCC

Redação Portal Imprensa | 25/06/2020 07:02

Para falar sobre relacionamentos abusivos, sob a perspectiva de um homem, Matheus Piatti e Giovani Santos adotaram como linguagem a videoarte, que permitiu debater este tema tabu, explorando novas formas de usar o meio audiovisual.


Piatti, que se formou em Rádio, TV e Internet, em 2017, pela Faculdade Paulus de Comunicação – Fapcom (SP), em 2017, compartilha sua História de TCC ao Portal IMPRENSA.

Sobre o trabalho


Barravento é um projeto de curta-metragem experimental que utiliza a videoarte para falar sobre um relacionamento abusivo entre dois homens. Retratando assuntos como violência física e sexual, nosso objetivo foi trabalhar com as consequências de um estresse pós-traumático, explorando o psicológico de uma pessoa que passou por tais eventos. Para isso, usamos técnicas e uma narrativa experimental.


Crédito: Esteban Esquivel e Sebastião Abreu, do elenco do curta-metragem

Principais desafios ao longo da produção 


Acredito que encontramos o maior obstáculo durante o processo de pesquisa para a nossa narrativa. Quando decidimos que queríamos falar sobre relacionamentos abusivos sob a perspectiva do homem como sobrevivente, e não como perpetrador, precisávamos de um embasamento teórico que guiasse o desenvolvimento do nosso projeto. O problema foi que encontramos pouquíssimas informações e dados sobre o tema, seja na área acadêmica, na mídia ou em algum espaço social. O que encontramos foram dados e pesquisas internacionais sobre o tema, mas pouco conteúdo nacional sobre o que queríamos abordar. Isso, é claro, nos motivou ainda mais a fazer esse trabalho para dar nem que fosse o mínimo de visibilidade para o tema e expor esse "segredo" e tabu que é totalmente ignorado. Quantos homens temos por aí contando suas histórias e compartilhando que passaram por situações de abuso, por exemplo? A estatística mais atualizada é a de 1 em cada 6 homens que já passaram por situações de assédio e abuso sexual [segundo https://1in6.org/, em Sexual Abuse & Assault of Boys & Men] . Concluímos que se tratam de eventos bem recorrentes, mas que não são mantidos na pauta por diversos motivos, dentre eles, o machismo socialmente enraizado e uma cultura que não permite a vulnerabilidade masculina. 


Os aprendizados


Essa pergunta me lembrou de um comentário divertido que um dos avaliadores da banca nos disse no dia da defesa, que nós pegamos tudo que aprendemos durante os quatro anos de graduação (sobre o que fazer e como) e na hora do TCC fizemos totalmente o oposto do que foi ensinado. Trabalhar com um formato de vídeo experimental nos permitiu ir além do que já é feito e conhecido por aí, não tivemos que seguir normas e estruturas convencionais. A videoarte acabou nos dando uma licença poética para explorarmos toda a nossa criatividade. Não seguimos padrões de roteiro e narrativa, nem de gravações e enquadramentos, e muito menos de edição. Falando assim até parece que foi uma bagunça, mas na verdade tivemos que estudar e revisar as técnicas “padrão” para que, a partir do domínio delas, pudéssemos entender como funcionavam e geravam sentido para o espectador. A partir daí, decidimos como contaríamos aquela história do nosso jeito, entregando toda a dramaticidade e emoções que planejamos. De forma resumida, tivemos que aprender tudo de novo e também novas formas de usar o meio audiovisual.


Significado dessa experiência 


Fazer esse trabalho foi uma das experiências mais gratificantes que já tive, do que já produzi é o que eu tenho mais orgulho. Não vou dizer que foi fácil, pois o tema abordado possuía alguma relação com a minha própria história. Então, ao longo de um ano, além de lidar com todas as pressões e cobranças do último ano de graduação e do próprio TCC, tive que lidar, enfrentar e expor diversas emoções e sentimentos que guardava dentro de mim, porque não queria olhar para elas. De certa forma, esse trabalho foi extremamente terapêutico e serviu como um ponto final para muitas coisas. Junto com a graduação, Barravento finalizou uma etapa da minha vida e me permitiu ir para a próxima.


Crédito: Divulgação

Contribuições que o trabalho trouxe


Acredito que todo o conhecimento técnico e prático no audiovisual que adquiri com esse trabalho me deu um horizonte de possibilidades do que produzir futuramente e de como fazer isso. Expandiu minhas ideias de como uma peça audiovisual pode ser, de como é possível propor um jeito diferente de resolver e interpretar problemas e de oferecer coisas novas, seja trabalhando numa emissora, numa produtora ou com projetos pessoais.


Conselhos para quem está fazendo o TCC 


Eu diria para não lidar com o TCC como um bicho de sete cabeças. É claro que há pressão e diversas cobranças, mas é possível desenvolver um trabalho prazeroso e gratificante. Se possível, procure trabalhar com algo que seja do seu interesse e com pessoas que você se identifica, isso tornará a caminhada mais leve. Não se desespere, afinal, é só mais um trabalho. Seja criativo para lidar com as adversidades e tenha bastante planejamento.


Leia também


"Por meio do TCC, produzi conteúdos que saem da minha zona de conforto”, diz a jornalista Laura Sabioni

Filme documentário narra a jornada de quatro estudantes em busca do ex-jogador Maradona