Opinião: “Números com rosto, nome e, principalmente, uma história”, por Fernanda Iarossi

Iniciativas louváveis que buscam dar cara às vítimas ou aos envolvidos com a pandemia do novo coronavírus

Fernanda Iarossi | 04/06/2020 08:36
Crédito:Pixabay



11 de setembro de 2001.

Algo que chamou muito minha atenção foi a extensão de homenagens, as inúmeras iniciativas que lembravam as vítimas dos atentados. Construção de memoriais, passeatas, discursos, eventos...

De cara, aquele pensamento raso: “só podiam ser norte-americanos, que passaram por guerras e estão acostumados a homenagear heróis”.

29 de maio de 2020.

Tento diariamente ler os números que mostram os “efeitos colaterais” da pandemia do novo coronavírus e não se acostumar com eles (nota: na data mencionada logo acima, o Brasil atingiu a marca de 27.878 mortes pela Covid 19 e passou a ser o 5º país com mais vítimas pela doença em todo o mundo, passando a Espanha no total de mortes de acordo levantamento da Universidade Johns Hopkins – informação em destaque no UOL Notícias às 20h21min de uma sexta-feira, mais de dois meses desde quando o estado de quarentena foi decretado em São Paulo).

Neste esforço para não ignorar tal realidade e lembrar sempre da gravidade que estamos vivenciando, me veio esta recordação pós 11 de setembro nos EUA: será mesmo que é coisa de norte-americano relembrar os mortos diante de tragédias ou lutas?

De cara, me veio, depois de assistir a depoimentos de artistas no Fantástico da Rede Globo, o projeto INUMERÁVEIS, iniciativa de um grupo de amigos voluntários que busca tirar da invisibilidade as vÍtimas fatais da Covid-19, contando suas histórias.

Logo, ao acompanhar um bate-papo no programa Papo de Segunda na GNT, também lembrei do perfil @RELIQUIA.RUM no Instagram, criado pela antropóloga Débora Diniz em parceria com o artista plástico Ramon Navarro, para reverenciar a memória das pessoas que morreram no contexto da pandemia.

Na sequência, “graças aos algoritmos” do Facebook, conheci o boletim DE OLHO NO CORONA da Redes da Maré, que conta a realidade da pandemia na favela a partir de dados comunitários (mapeando a incidência do coronavírus em território periférico onde vivem quase 140 mil pessoas na capital do Rio de Janeiro).

Agora fora do quintal brazuca também resgato o belo registro do fotógrafo Peter Turnley com o projeto THE HUMAN FACE OF COVID-19 - NEW YORK (O Rosto Humano da Covid-19 - Nova York) com o cotidiano das vítimas e dos heróis na luta contra o novo coronavírus.

Iniciativas que ajudam a reforçar a memória de um tempo que a humanidade está (re)aprendendo a lidar com limitações e imposições por causa de um vírus. Ajudam a alterar o pensamento raso lá do início do artigo: “só podiam ser norte-americanos, que passaram por guerras e estão acostumados a homenagear heróis”. Não, os brasileiros (o mundo!) estão tentando homenagear seus heróis e as vítimas de mais uma pandemia que assola todos.

Crédito:Arquivo pessoal

*Fernanda Iarossi é jornalista, Mestre em Comunicação Midiática pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Neto. Professora nos cursos de Comunicação da UAM – Universidade Anhembi Morumbi e Fapcom – Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e em São Paulo. Coordenada o Grupo de Pesquisa Discursos Midiáticos na Fapcom.

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