Opinião: “Nós, nus, vos saudamos”, por Luiza Pastor

Luiza Pastor | 07/05/2020 11:02
Crédito:Pixabay


A comunicação, como a conhecemos até há pouco, não é mais a mesma, nem nunca será. As mudanças que se anunciavam com a disseminação da internet escalaram rapidamente para um cenário no qual a informação real se dilui no caldo das notícias falsas. O bombardeio diuturno das redes sociais confunde o mais austero dos pensadores e exaure o mais paciente dos monges budistas. Talvez a tal da Covid-19 tenha sido, se não inventada em um laboratório, fruto de uma praga emitida de algum monastério do Tibete em um momento de fúria.

Já em 1967, Caetano Veloso levava plateias ao delírio perguntando “quem lê tanta notícia” em meio à alegria, alegria de seu cantar. Mal poderia ele imaginar quanta notícia seria despejada sobre nossas cabeças meio século depois – e sem alegria que nos console. Se tentarmos caminhar contra o vento, vai voar letrinha para todo lado, numa sinfonia confusa e desafinada. 

A capacidade que temos de privilegiar apenas as informações que vêm ao encontro do que queremos, defendemos, esperamos, é impressionante. Se a realidade não nos agrada, apertamos os limites da bolha e deixamos que, lá fora, o mundo continue girando à espera de, quem sabe, um dia, confirmar que éramos nós e não eles que tínhamos razão. A razão irracional da fé cega. 

O grande desafio que temos à frente, nós que trabalhamos nas diversas áreas da comunicação, é recuperar o respeito aos fatos, esses maltratados. Estamos todos cansados de saber que não existe a tal da isenção que tanto se apregoa como o graal de todo jornalista. Cada palavra, cada vírgula, cada reticência diz exatamente o que pensamos sobre o assunto que abordamos. Talvez as notícias escritas por robôs treinados para isso consigam evitar um pouco daquilo que vai no fígado dos escribas. Mesmo assim, é de desconfiar que, por trás de cada frase formulada pelo algoritmo da vez, estará sempre a impressão e a emoção daquela inteligência natural que o programou. Por mais que a ficção científica projete marionetes com vida e sentimentos para um futuro breve, ainda estamos mais para Frankenstein de Mary Shelley do que para os replicantes de Philip K. Dick. Ambos podem representar ameaças para o ser humano, esse pobre limitado conjunto de células mal acabadas. Mas, ao menos, com Frankenstein temos esperança. 

Então, levando em conta o fato dado de que a isenção é um mito e que temos que escolher uma trilha para chegarmos a nossos leitores, espectadores, ouvintes e amigos imaginários, como construir esse mundo novo da comunicação? Como escapar das armadilhas das deepfake que apresentam a nossos olhos aquilo que nunca existiu, com as palavras jamais emitidas? 

Mais do que nunca, e pode parecer ingênuo, até, nossa única alternativa será a busca da verdade escancarada, nua e crua. O pequeno exagero para reforçar a imagem que desejamos, assim como a omissão do que atrapalha nosso raciocínio, é meio caminho andado para a desmoralização. Tentar esconder nas entrelinhas a posição que assumimos intimamente não vai ajudar em nada quando somos escrutinados em frente, verso e recheio, a cada gesto nosso nas redes sociais. Brincarmos de isentões não convence ninguém e ainda municia o tio do pavê no WhatsApp contra nós. 

Não, não há mais lugar para a quimera da isenção. A toda informação sempre corresponderá, mais do que nunca, uma reação, numa adaptação livre da Terceira Lei de Newton. Então, melhor deixarmos claro a que viemos. Nosso público precisa saber de que lado estamos. Afinal, estamos nus com a mão no bolso e nosso foro íntimo nunca foi tão público. O futuro exige que mostremos nossa cara. 

Crédito:Arquivo pessoal

*Luiza Pastor, 63, é jornalista, escritora e associated partner do Copenhagen Institute for Futures Studies (CIFS). 

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