Opinião: "Não mais espectador?", por Rafiza Varão

Enquanto Covid-19 avançar pelo Brasil, jornalismo não pode ignorar calamidade em que país se encontra

Rafiza Varão | 29/04/2020 14:17
Crédito:Pixabay


No jornal da noite, ouve-se o depoimento: “parece que você só entende que é verdade quando acontece próximo de você”. Uma imagem captada de forma amadora mostra câmaras frigoríficas do lado de fora de um hospital no Rio de Janeiro, materializando pesadelos. Nas mídias sociais, comentários insistentes tentam acender um alerta, ainda que em tom questionável: “a ignorância dura até você ter um caso na família”. Em dois meses, desde a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus no país, o brasileiro oscila entre acreditar, duvidar e até mesmo negar a emergência sanitária ocasionada pela pandemia que inaugura, de fato, o século XXI. Nos últimos 120 anos, pelo menos, nos habituamos a ver a dor dos outros pelos meios de comunicação, longe; a nossa, nos acostumamos a deixá-la praticamente confinada aos terrenos da vida privada, pois nos últimos 120 anos também nos ensinaram que é meio feio sofrer em público, que bonito é a felicidade que a publicidade traduziu tão bem nos comerciais de margarina - e que o Instagram materializou em posts. O noticiário poderia ser ameno como os stories de influenciadores felizes, pensam alguns. Mas isso não seria jornalismo. 

Hoje, o jornalismo nos lembra todos os dias que a dor não ronda mais os espaços distantes (contíguos apenas para seus atores), em tragédias que assistimos muitas vezes sentados no sofá. Ela se avizinha e, não à toa, nos deixa confusos, atravessando os limites que conhecíamos com situações mais localizadas. Não é o que desejávamos. “Ser um espectador de calamidades ocorridas em outro país é uma experiência moderna essencial, a dádiva acumulada durante mais de um século e meio graças a esses turistas profissionais e especializados conhecidos pelo nome de jornalistas. Agora, guerras são também imagens e sons na sala de estar. As informações sobre o que se passa longe de casa, chamadas de ‘notícias’, sublinham conflito e violência - ‘Se tem sangue, vira manchete’, reza o antigo lema dos jornais populares e dos plantões jornalísticos de chamadas rápidas na tevê - aos quais se reage com compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada desgraça se apresenta”, disse Susan Sontag em Diante da dor dos outros. O que desnorteia agora, contudo, é que o noticiário adentrou as casas e não pode mais ser assistido como algo que não avança também sobre suas audiências. De repente, a dor dos outros pode ser a nossa. Ou a dor dos outros pode ser a dor de MUITOS outros. Um acúmulo de dores. 

Nesse processo, estamos diante da construção coletiva de um trauma social, cujos estágios se aproximam daqueles que experimentam os indivíduos submetidos a eventos perturbadores e fora da normalidade em suas vidas. Não mais confinados em lugares de segurança, enquanto vemos as lamentações de outrem, por meio de telas, de textos, de fotos, não é de estranhar que muitos queiram fugir e culpar o jornalismo de “só mostrar as mortes”. “E o número de curados?” se tornou mote de quem transita pelas notícias na internet e ainda duvida (ou quer desacreditar). Apesar de ser essa uma informação importante, inclusive acalentadora, jornalismo não é perfumaria. Não se pode exigir que este ignore a calamidade em que nos encontramos. Fosse assim, seria qualquer outra coisa que não jornalismo. Marketing? Propaganda? 

No mar de informações, no qual nos sentimos tantas vezes à deriva, o jornalismo pode ser/tem sido uma bússola importante para os tempos que chegaram tão rapidamente em nosso território. Muitos veículos vêm desempenhando coberturas de excelência nesse momento. A informação correta e de interesse público é um direito que devemos defender, sobretudo em meio à pandemia. Quando não se aguentar, sempre há a opção de desligar a TV, diminuir o volume do rádio, fechar as janelas no computador, numa decisão pessoal, particular. Não mais espectador. Não mais espectador? Será que é prudente não saber? Que se deixe o jornalismo seguir em frente, mesmo quando o que se tem a oferecer são as piores notícias. O mundo em 2020 também é feito delas.

Crédito:Arquivo pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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