“Passei a enxergar não só as bengalas nas ruas, mas a pensar nas histórias por trás delas”, diz Alex Brandão

Gisele Sotto, em colaboração | 24/04/2020 15:59
“Um dos meus maiores medos é ficar cego. Por meio dos olhos me comunico”, revela Alex Brandão na introdução de seu livro-reportagem ‘Olhos que se fecharam – A vida dos cegos adultos’. Ainda na introdução, ele fala sobre o que o levou a escolher este tema. “Por conta do meu temor em deixar de ver e pela curiosidade a respeito do tema, resolvi realizar uma pesquisa acadêmica sobre a cegueira, especificamente sobre as pessoas que ficaram cegas depois de adultas”. 

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, o jornalista formado pela FAM – Faculdade das Américas, no final de 2019, compartilha os bastidores de desenvolvimento deste projeto de TCC.
Crédito:Reprodução


Sobre o trabalho 
O meu TCC foi um livro-reportagem e teve como tema os cegos adultos em suas diferentes faixas-etárias. Eu quis abordar como é a rotina e adaptação de alguém que fica cego na vida adulta e como ele passa a viver a partir dessa situação, pois é completamente diferente de nascer cego. Além de pesquisar como essas pessoas encaram a socialização, autoestima e como são as oportunidades no mercado de trabalho, e a readaptação escolar. Imagino que seja muito doloroso perder a visão aos 20 e poucos anos, como foi o caso de alguns dos entrevistados no meu livro-reportagem, pois esse período é justamente onde cultivamos tantos sonhos. Somos uma sociedade totalmente ligada a imagens, cores, enfim é um tema delicado e que me tocou bastante. 

Principais desafios ao longo da produção 
Eu gostei muito do processo de fazer o TCC, me sentia motivado e poucas vezes reclamei, no entanto, administrar a rotina era o mais cansativo, sem dúvida. Trabalhar o dia todo, agendar entrevistas presenciais e ir para a faculdade, acabou sendo um processo que em alguns dias me deixou exausto. 

Os aprendizados
Foram muitos! Tive muito cuidado para que meu TCC não fosse algo sensacionalista e nem tivesse "super histórias de motivação", até porque humanos também fraquejam, e os personagens admitiram que muitas vezes se desanimaram. Entrevistei pessoas que perderam a visão a partir dos 20, 30 e 50 anos e todos me deixaram algum aprendizado. No entanto, me senti muito tocado pelos que perderam a visão na minha faixa-etária, por pertencer a esse grupo. Um deles me contou que a maior alegria foi quando saiu pela primeira vez na rua de bengala e fez um trajeto de poucos metros sozinho. Quando a gente dá valor pra isso no nosso dia-a-dia? Talvez agora, em tempos de pandemia que estamos privados de liberdade, a gente dê mais valor. Antes eu nunca tinha parado para conversar com um cego, não fazia ideia que as bengalas tinham diferenciação de cores, e nem imaginava que cegos iam para baladas. Embora eles sejam cegos, nós é que precisamos enxergá-los. Aprendi com eles que coisas simples têm o seu valor e precisamos ser gratos. 
Crédito:Arquivo pessoal

Significado dessa experiência 
Representou um senso de responsabilidade não só por mim, mas pelos outros que me ajudaram na construção desse TCC. Ter a paciência de ouvir, o cuidado de conversar com as pessoas, e considerar a forma que eu iria retratá-las nas páginas de um livro.

Contribuições que o trabalho trouxe 
Maturidade e empatia. Passei a enxergar não só as bengalas nas ruas, mas a pensar nas histórias que podem existir por trás delas. Tornei-me um jornalista mais sensível também, que sabe abordar, ouvir e identificar o que é viável ou não como notícia. Há uma linha que devemos equilibrar para não beirar o sensacionalismo. 

Conselhos para quem está fazendo o TCC 
Escolha um tema pelo qual se interessa, e se entregue. Quando as fontes estiverem falando, você tem que sentir prazer e interesse no que estão lhe contando, isso é o pulsar de um repórter que está apurando. É preciso se comprometer em fazer não apenas um TCC para se formar, mas sim para deixar um legado bacana, até para o seu currículo e portfólio.

Para ler o livro-reportagem “Olhos que se fecharam – A vida dos cegos adultos”, acesse este link

Leia também