Opinião: “O que vem depois?”, por Edson Aran

Edson Aran | 22/04/2020 10:53
Crédito:Pixabay


Esse é um artigo ‘futurista” sobre os efeitos da pandemia de coronavírus e é bem possível que essas previsões fiquem absolutamente ultrapassadas em alguns meses. São pensamentos em meio à praga.

1. A percepção que temos é que os médicos não sabem nada, o que é preocupante, ou sabem muito e não querem contar, o que é aterrorizante. Como a imprensa profissional virou apenas mais uma voz na cacofonia irresponsável que é a internet, nós vamos todos continuar com essa dúvida. É aí que mora o perigo. Gente como Trump e Bolsonaro pode partidarizar a “cloroquina” nos seus blogs de aluguel, mas a mídia tradicional não deveria entrar nessa. Imparcialidade é bobagem, mas é preciso ir além do “nicho” para se contrapor às fake news. 

2. Notícias ruins vendem, mas também cansam. Informação é essencial nesse momento, mas falta diversão e bom humor aos veículos, que estão todos ligados no modo-catástrofe. O meio impresso poderia ter se transformado numa boa alternativa de leitura, mas ele é atualmente apenas um subproduto do online. Tenho a impressão de que alguma leveza será importante no futuro próximo com a recessão econômica batendo à porta. Iniciativas como o caderno “Na Quarentena”, do Estadão, serão bem-vindas.

3. Sem uma vacina eficiente, salas de cinema, teatro e casas de shows vão ter que ser reinventadas. O Modelo Marvel de blockbusters em 3D com estreias simultâneas no mundo todo sobrevive com salas de 20 lugares com dois metros de distância entre eles? E os teatros? Os shows de música? Independente das eventuais vacinas, novas pandemias surgirão e já vi muita gente dizendo que os “fechamentos” serão rotineiros. Os grandes festivais e espetáculos não se sustentam num mundo assim. Depois do fim da mídia física, os vírus acabarão com as apresentações ao vivo? O Vale do Silício vai fazer mais alguns bilhões, mas o dinheiro, como sempre, vai sair do bolso de quem vende conteúdo.

4. Muitos youtubers americanos garantem que a indústria de quadrinhos, que já andava debilitada, acaba de vez com a pandemia. As lojas estão fechadas e os lançamentos foram suspensos. A principal distribuidora americana, a Diamond, já anunciou que não tem capital para suportar o fechamento. A DC Comics, que pertence a Warner Media, criou uma linha de crédito e doações para manter as lojas, mas a Marvel, da Disney, não se manifestou. Os filmes da Marvel dão muito mais dinheiro que os quadrinhos, é claro, mas são as revistas que fornecem personagens e tramas para as produções, então elas devem continuar de algum jeito. É possível que os quadrinhos americanos passem a funcionar como os europeus, que são baseados em livros anuais e autocontidos em vez de publicações mensais seriadas. A concentração no mercado de livrarias deve se acentuar e os pequenos negócios podem acabar de vez ou funcionar apenas online, sem lojas físicas. 

5. No futuro, o mundo vai virar mesmo uma aldeia, mas agora a globalização deve recuar muitas casas. O nacionalismo vai crescer, mais governos populistas e autoritários vão ser eleitos, haverá mais controle nas fronteiras e isso também deve afetar as empresas transnacionais. O dinheiro viaja sozinho, mas se a xenofobia cresce, cresce também a rejeição a produtos estrangeiros. É possível que o multiculturalismo em moda nas produções cinematográficas avance ainda mais como resposta à xenofobia, mas ele também provocará enormes rejeições. 

6. O mundo liderado pela China, que entusiasma vários analistas, é preocupante. O capitalismo de estado chinês é baseado numa ditadura burocrática que não tem qualquer respeito pela liberdade de expressão ou pelos direitos humanos. Exportar esse modelo num momento em que o ocidente está cada vez mais enamorado do autoritarismo é abrir a porteira para ditaduras. Mas isso não deve acontecer. Liderança não é baseada apenas na força, mas no soft power, isto é, nos valores que empolgam as pessoas a seguirem o líder. O soft power americano, embora cínico, vem da revolução americana, do apreço pela democracia e pela liberdade de expressão. É difícil acreditar que alguém no século 21 se empolgará com o totalitarismo e com o “Livro Vermelho de Mao Tsé Tung”. Antes do coronavírus virar um problema, as manifestações pró-democracia em Hong Kong é que davam dor de cabeça a Pequim. Com a pandemia, a rejeição à ditadura chinesa vai aumentar no mundo todo. 

7. Está claro que saúde pública e o combate consistente à miséria são condições básicas para o mundo avançar. Todos concordam com o diagnóstico, mas não com a receita para resolver o problema. Só se chega a uma agenda comum dialogando e a mídia profissional, embora não tenha mais tanto poder, precisa ter a convicção para intermediar esse debate. Ou então vamos sair da pandemia exatamente como entramos: batendo boca até acontecer a próxima catástrofe. 

Crédito:Arquivo pessoal

*Jornalista, escritor e roteirista com grande experiência no mercado de revistas, Edson Aran atuou não apenas como editor, mas também em planejamento estratégico, orientação em áreas de marketing/distribuição e controle de budget. É criador do República dos Bananas (www.republicadosbananas.com.br) e do Marcha da História, e autor de livros de ficção e não-ficção.

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