Opinião: "Atividade essencial", por Rafiza Varão

Coronavírus reafirma necessidade do jornalismo como serviço público

Rafiza Varão | 27/03/2020 10:41
Crédito:Pixabay


Foi ontem que respondi à pergunta ingênua de uma criança sobre essas primeiras semanas de distanciamento social devido à pandemia do novo coronavírus. A dúvida era: por que os jornalistas continuam trabalhando? Agora, vejo o Presidente da República perguntando aos jornalistas que fazem a cobertura do Planalto, com ironia: “Imprensa brasileira, o que vocês estão fazendo aqui?”. No dia 22 de março de 2020, a presidência, entretanto, assinou decreto (nº2.288) que esclarece facilmente o motivo do jornalismo e dos jornalistas estarem por aí, mesmo diante das exigências de “fique em casa” que se tornaram comuns a partir da ascensão da Covid-19 no país.

Diz o decreto:

Art. 1º Este Decreto regulamenta a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, para definir as atividades e os serviços relacionados à imprensa como essenciais.

Mais à frente, reforça:

Art. 4º São considerados essenciais as atividades e os serviços relacionados à imprensa, por todos os meios de comunicação e divulgação disponíveis, incluídos a radiodifusão de sons e de imagens, a internet, os jornais e as revistas, dentre outros.

O texto do documento vem na esteira das definições que se tornaram urgentes desde a chegada da doença ao país e a crescente paralisação de atividades em território brasileiro: quais são os ofícios imprescindíveis à sociedade nesse momento e que precisam continuar mesmo diante das condições adversas? Não é difícil entender que o jornalismo é um deles, uma vez que não se vive plenamente na contemporaneidade sem acesso a informações captadas por profissionais de imprensa.

Nossa sociedade de dimensões extremas (tanto metaforicamente como literalmente) precisa delas, posto que estas nos oferecem mais do que a experiência cotidiana, uma pavimentação para compartilharmos a vida social e percebermos o que nos rodeia para além do que consegue ver nosso olho. Assim, bastaria nos questionarmos para compreender os motivos pelos quais os jornalistas ainda estão por aí: sem o jornalismo, quando seríamos avisados da pandemia? Como teríamos acesso aos números que se avolumam hora após hora, dia após dia? De que modo saberíamos de decretações, isolamentos, suspensões e funcionamentos?  

É em momentos como esse que o jornalismo mostra sua real vocação e transforma até mesmo veículos pouco comprometidos com o interesse público. E quase toda crise acerca da prática jornalística escorre pelos ralos de sua necessidade urgente. E, nós, que até ontem nos perguntávamos sobre os rumos da profissão, novamente percebemos: o jornalismo é, sim, atividade essencial. É um serviço público.    

Crédito:Arquivo pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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