Opinião: “O que os desertos de notícia têm a ver com coronavírus, fake news e eleições municipais”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 12/03/2020 15:07
O Atlas da Notícia - projeto do o Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), mantenedor do Observatório da Imprensa, em parceria com Volt Data Lab – aponta que de dez municípios brasileiros em pelo menos seis não há veículos jornalísticos de conteúdo local. São os chamados “desertos de notícia”.
Crédito:Reprodução / Atlas da Notícia

Ainda segundo o levantamento, são 37 milhões de pessoas (ou 18% da população brasileira) sem uma fonte de informação que aborde a realidade e as especificidades da cidade onde vivem.  “Um município sem jornalismo local, que não possui uma cobertura noticiosa própria, é carente de informações independentes para que sua população possa votar, cobrar os governantes e saber mais sobre serviços, problemas e acontecimentos específicos daquela localidade”, aponta o Atlas da Notícia.

Em momentos de agudas crises como o atual – incluindo aí a pandemia de coronavírus (Covid 19) – a ausência de veículos que tragam as informações da comunidade onde moramos torna mais caótica ainda a conjuntura.

Como saber quais as medidas de orientação e prevenção estão sendo desenvolvidas em nossa cidade para, por exemplo, enfrentar a epidemia do tal vírus? Aonde ir em caso de sintomas?

Como saber se a nossa região está prestes de ser acometida por temporais, os quais têm caído com frequência e intensidade no Sudeste brasileiro neste verão?

Onde buscar alternativas de trabalho e renda, em tempos de desemprego crítico, de precarização das relações trabalhistas?

De que maneira descobrir se uma informação alarmista local é fake news ou se procede?

Como acompanhar as articulações, a mobilização entre lideranças, políticos e partidos municipais para as eleições deste ano, e então em outubro estar preparado ou preparado para fazer as melhores escolhas?

Fontes de informação, sabemos, temos aos montes. Mas que respondam a perguntas tão pontuais – e fundamentais – como essas, são raras. Meios de comunicação de conteúdo jornalístico local existem – e onde faltam, deveriam existir – porque justamente são essenciais para a compreensão da realidade ao redor, com todas suas particularidades.

Está bem, o diagnóstico está posto, e aponta um grave problema, esse dos desertos de notícia.

E agora? Como buscar resolver?

Comunicação é um direito humano, mundialmente. Comunicação é um serviço público, estabelece a Constituição do Brasil. Portanto, urgem políticas públicas de fomento à produção jornalística local. Da mesma forma que temos mecanismos legais de incentivo a práticas culturais, esportivas, economia criativa, startups, precisamos de programas voltados ao desenvolvimento de jornais, rádios, canais, sites comunitários.

Para conferir o levantamento completo do Atlas da Noticia, acesse www.atlas.jor.br.

Crédito:Arquivo pessoal

*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.

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