Opinião: "Entre Anjos e Demônios", por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 06/03/2020 15:43
Apesar do título, não quero falar sobre o clássico filme Frankenstein. Muito menos de Mary Shelley ou do fictício Dr. Victor, apesar de que fazer reviver os mortos é algo desejoso. Continuo focado em analisar a evolução da “Transformação Analítica” e os seus impactos no mundo dos negócios e da comunicação. Assim sendo, é inevitável a abordagem ao tema do desenvolvimento e uso da inteligência artificial (IA). Acredito que a transformação analítica (TA) é a última grande área de real importância para nós humanos. A concorrência com os robôs, algoritmos e processadores artificiais ficará cada vez mais assimétrica e desleal. Para as máquinas, ficará a responsabilidade pelo tratamento dos grandes volumes de dados com alta velocidade; para nós, o pensamento analítico, crítico e criativo. 

A definição acadêmica de pensamento analítico é a forma de raciocinar com o objetivo de explicar as coisas através da decomposição em partes mais simples, que são mais facilmente solucionadas, e uma vez entendidas tornam possível a compreensão do todo. O comportamento do todo é, assim, explicado pelo comportamento das partes. O pensamento crítico é um julgamento propositado e reflexivo sobre o que acreditar e o que fazer em resposta a uma observação, experiência, expressão verbal ou escrita e argumentos. Por outro lado, o pensamento criativo é um processo cognitivo, a criação de ideias que transformam nosso relacionamento com o mundo. Atributos que caracterizaram nossa evolução como homo sapiens.
Crédito:Pixabay

Não há dúvidas de que a inteligência artificial é uma das tecnologias mais poderosas já criadas pela humanidade. Ela nasceu com o objetivo de imitar a inteligência e o processo de aprendizagem humano. Suas aplicações estão alterando – para a melhor e para pior – a vida de todos nós, por isso sua evolução está sendo muito questionada. O fato é que hoje já não conseguimos viver sem ela. Técnicos dividem a IA em dois grandes grupos: o primeiro, geral ou forte, com capacidade de entender ou aprender qualquer habilidade, como um ser humano. Este grupo, por enquanto, só existe na ficção científica, e alguns especialistas dizem que nunca será realidade. Outros, mais otimistas, dizem até ser possível, mas demorará muitos e muitos anos. O segundo grupo é denominado de fraco ou estreito, capaz de aprender habilidades para usos específicos, sendo extremamente especializado.

Sempre imaginamos a tecnologia e a internet como um poder fundamental para compartilhar informações, diminuir lacunas de conhecimento e conectar pessoas. Paralelamente, imaginar que os robôs serão emocionalmente inteligentes, com auto consciência, humor, empatia e apreciação pela beleza, realmente parece distante. Mas os conflitos já estão presentes. Se por um lado temos o ganho em produtividade e substituição de atividades humanamente estressantes, pelo outro, produzirá uma crise de emprego e o aprofundamento da desigualdade. Muitos trabalhadores deixarão de ser explorados para serem descartados. A desqualificação será a bola da vez e o desafio a ser enfrentado. Quando se trata de substituição de empregos, os vieses da IA não se encaixam na métrica unidirecional tradicional de mão de obra pouco qualificada vs. muito qualificada. Potencialmente, todos serão perdedores. Corremos o risco de passarmos de momentaneamente desempregados para permanentemente excluídos.

Apesar de todas as questões envolvendo os impactos da IA, não podemos ou devemos pensar em abolir ou inibir sua evolução. Em poucos momentos na história, o desenvolvimento tecnológico deixou de ser usado por questões de segurança ou ética. Nesses casos, temos exemplos do uso nuclear em armamentos, armas químicas ou manipulação genética. Porém, no caso da IA, sabemos que ela pode trazer benefícios em diferentes áreas – uma delas é a medicina. Ela pode auxiliar os médicos na detecção de doenças ao sugerir diagnósticos ou tratamentos. A IA tem a capacidade de encontrar padrões em milhões e milhões de mamografias, podendo identificar um tumor em um exame de imagem. Mas a decisão, no final, deve ficar nas mãos do profissional. Chamamos esse processo de transformação analítica. O uso da tecnologia associada à capacidade humana de discernimento.   

Podemos enfrentar o risco de vivermos em uma sociedade dividida em castas tecnológicas, onde a elite beneficiada pela IA viverá em um mundo enclausurado de riquezas quase inimagináveis, contrapondo-se às massas de trabalhadores inúteis na base da pirâmide. Mesmo com tantos progressos e pontos positivos, vários estudiosos, pesquisadores e cientistas alertam quanto à ameaça que a IA pode se tornar para a nossa sociedade. Sem peso de lei, os principais documentos que trazem diretrizes para o uso de inteligência artificial, hoje, atuam como simples recomendações. Para a transformação analítica que defendemos, muitos pontos deverão ser revistos e alterados. O uso indiscriminado das informações hoje coletadas pelos dispositivos nos levará ao céu ou ao inferno. Acredito na nossa capacidade analítica, crítica e criativa. Temos capacidade de analisar os riscos, julgar corretamente e encontraremos saídas criativas para o futuro que se apresenta.

Crédito:Arquivo pessoal

Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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