Opinião: "Cobertura de saúde e novo coronavírus", por Rafiza Varão

Como o jornalismo pode evitar armadilhas ao informar sobre o COVID-19?

Rafiza Varão | 03/03/2020 12:29
Crédito:Pixabay


Diz o velho clichê: notícia boa é notícia ruim. A máxima esconde um paradigma comercial acatado volta e meia por veículos jornalísticos: conteúdos negativos, catastróficos ou de grande apelo emocional vendem mais ou atraem mais público. O dito vem sendo desconstruído há um algum tempo e iniciativas de sucesso têm demonstrado que talvez notícia boa seja mesmo notícia boa (como no Só Notícia Boa). Contudo, ainda que a divulgação de muitos acontecimentos não obedeça cegamente ao critério do antigo ditado, quando se trata da cobertura de saúde, as recentes ondas de vírus como o SARS, o MERS, o H1N1 e o novo coronavírus (COVID-19) nos levam a confirmar certa tendência no uso do medo e do pessimismo como motores do jornalismo. Em tempos de mídias sociais, o quadro aparenta se agravar, com a disseminação de boatos e fake news em ritmo crescente. Como o jornalismo deve seguir na cobertura do COVID-19, evitar propagação de pânico e se mostrar como espaço seguro para a busca de informações? 

O primeiro passo, que parece já ter sido compreendido por algumas empresas jornalísticas após algumas semanas do início do surto, é evitar o próprio discurso do medo. Em pesquisa, a professora Karin Wahl-Jorgensen, da Universidade de Cardiff, indica que nos principais jornais de língua inglesa no mundo foram publicados 9.387 textos sobre o novo coronavírus. “Desses, 1.066 artigos mencionam ‘medo’ ou palavras relacionadas, incluindo ‘receio’”, diz a pesquisadora. Ora, essa é uma retórica que atravessa boa parte dos materiais que tratam sobre pandemias e epidemias de maior alcance, não sendo exclusiva da situação na qual nos encontramos hoje - e que já foi fartamente documentada por outras pesquisas, como no caso do H1N1, por exemplo. 

Mas os pavores são muitos e reverberam nos produtos jornalísticos e em seus consumidores: quantos contaminados? Quantas mortes? Chegará até nós? Conseguiremos combater? A essa altura, entretanto, o jornalismo já deveria ter mais cautela ao respondê-las ou ao considerar o real impacto dos dados atualizados agora ininterruptamente. Não custa tanto buscar aprender com os eventos anteriores. O que se pode fazer aqui, embora a contagem de afetados seja importante, é priorizar um esforço de conscientização de ações preventivas, mais do que uma atualização descontextualizada, em que os números se aglomeram no Google Notícias. Como prevenir e como lidar com uma possível contaminação devem ser foco de pautas mais centradas em soluções, pois o que se cobre pode se prolongar muito no tempo. Não se trata de um fato do dia. 

O segundo caminho é mais simples e mais curto (uma vez que menos influenciado pelas nossas próprias emoções): se guiar pelo rigor da precisão, abandonar o “supostamente”, apurar exaustivamente. O que se sabe até agora; quais são as fontes às quais recorrer; que hospitais estão aptos a receber pacientes com sintomas; o que diz o Ministério da Saúde; que sintomas devem preocupar; comparativos com outras doenças etc. Quando um mapa maior se abre, o jornalismo ganha em correção e é preciso estar atento e forte, sem minimizar riscos nem negligenciar dados.     

Esses dois trajetos, triviais em sua concepção, transformam o jornalismo em parceiro da saúde e o afastam da cobertura de epidemias como se estas fossem algo muito misterioso, impossível de ser compreendido na esfera racional e cuja repercussão sobre os indivíduos seja como uma sombra mágica, da qual é impossível se escapar.

Crédito:Arquivo pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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