Opinião: "Bendito seja o 24", por Leandro Massoni

Leandro Massoni | 07/02/2020 15:53
Quem nunca ouviu que esse número é sinônimo de "bicha" aqui no Brasil, é porque não conhece fama que leva esses dois dígitos.

Nesse número, podemos dizer que se encontra um universo paralelo, que ronda o pensamento nosso de cada dia desde os tempos mais longínquos. 

Até hoje, é comum na maioria das rodas de conversas, onde a masculinidade excessiva predomina, ouvir gozações de todos os tipos, das mais leves até as mais escrotas (e bota escroto nisso) sobre qualquer assunto que envolva comportamento sexual.

E claro, sempre tem aquele que tira o maior sarro do amigo ou conhecido chamando-o de bicha ou veado por algum motivo aparente ou até do nada mesmo. 

Um exemplo: quando seu amigo lembra que na escola, seu número era o 24 na ordem de chamada e todos faziam o maior escândalo rendendo piadas diversas.

Mas o pior é que esse tipo de comportamento, sequer digno de um "tio do pavê" ou algo do gênero, tem ajudado a impulsionar cada vez mais essa tal repulsa às minorias.

E alguns aspectos contemporâneos como esse, que nunca saem pela tangente do desuso, tendem a dominar aqueles papos sobre futebol. 
Crédito:Pixabay

Nos últimos dias, durante a apresentação do jogador Cantillo, um dos diretores do Corinthians afirmou que o atleta não vestiria a camisa 24, número o qual o colombiano já estava habituado desde os tempos de Junior Barranquila. O motivo: um número de gay, de bicha, de bambi. 

Atitude desnecessária e sem o menor sentido. Lastimável.

Bom é que o clube de Parque São Jorge reconsiderou a decisão e permitiu Cantillo usar o número de sua preferência.

Enquanto alguns cartolas pecam nas palavras, outros as usam a favor de uma nobre causa. 

Para homenagear o ex-jogador de basquete norte-americano Kobe Bryant, morto após sofrer uma trágica queda em um helicóptero, o Esporte Clube Bahia, autor de ações que visam conscientizar a sociedade acerca dos problemas que afligem o país (como o derramamento de óleo nas faixas litorâneas da região nordeste), marcou mais três pontos no quesito respeito.

O clube resolveu não apenas autorizar o uso do 24 - número usado por Kobe nos tempos de Los Angeles Lakers - em suas camisas como também reiterou seu compromisso com o combate à homofobia no país.

Belo gesto de maturidade, um gol que vale por duas placas. 

Se atitudes como essa do Bahia fossem mais comuns no nosso meio, ou até mesmo copiadas pelos demais clubes, uma parcela significativa de preconceito seria dizimada. Seria um bem e tanto se isso pudesse realmente acontecer. 

Porém, estamos empatando com a miséria, mas não a miséria que atinge o físico ou a camada da sociedade menos favorecida. É da miséria mental que me refiro. 

Quanto à isso, não custa lembrar aos desavisados: todos os indivíduos tem suas particularidades. Cada um vive de um jeito e merece ser respeitado tanto como pessoa e profissional. Um aspecto não interfere diretamente no outro. Simples assim.

E claro, no futebol como também em outros esportes, todo e qualquer número, gênero e grau sempre é bem-vindo para torcer e ser aplaudido pela arquibancada da vida.

Até mesmo o imaculado e bendito do 24. 

Crédito:Arquivo pessoal

Sobre o autor: Leandro Massoni é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Radioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Jornalista em Campo. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão, e lançou em 2019 o livro "Nacional: nos trilhos do futebol brasileiro".

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