Opinião: "Relato de um extinto", por Rafiza Varão

Rafiza Varão | 28/01/2020 11:55
Crédito:Pixabay




Avillan*, 28 de janeiro de 2054

A quem interessar possa,

Abri os olhos. São 30 anos hoje desde que fiquei sabendo, pela *******t (auto censurado, não sei o quanto essa menção poderia prejudicar quem receber esta missiva, tente preencher cada um dos asteriscos), que o fim de minha espécie havia sido decretado. Lembro, ainda com espanto, de ler que estávamos em extinção. Me perguntei: como, se estou aqui e, junto a mim, tantos outros? Continuo aqui. Os outros, já não sei por onde andam. Fomos nos perdendo nessas três últimas décadas. Às vezes, de olhos fechados ou abertos, penso neles, quando ainda chamávamos o que fazíamos de notícias e jornais ainda existiam. Acordar sempre me lembra. Agora, quando me levanto, após pesadelos ou sonhos, não busco mais informação. Nem mesmo entendo como ela me pode ser útil. Vou lhe contar como e o que sucedeu a esta terra. 

Após a revelação de que nosso fim estava próximo, coisas estranhas começaram a acontecer. Perdão, não consigo pensar em algo que não seja muito clichê. Instalou-se uma crise nunca antes vista: controle, visitas fardadas, visitas à paisana, demissões, prisões e sumiços. Não foi muito rápido nem muito visível, havia uma capa de normalidade sobre os acontecimentos. Mas, em sete anos, os locais onde trabalhávamos já não existiam mais. Passamos a fazer bicos. Embora deprimidos, ainda nos viámos, ainda existia *******t, conversávamos a todo momento e criamos redes independentes para a circulação de informação. Era assim o mundo que conhecíamos antes. Não tínhamos ideia do que era viver sem saber. Mas veio o golpe conclusivo: nosso último habitat foi dizimado, a *******t foi suspensa em Avillan, 15 anos depois do anúncio de nosso fim. Não sei se você entenderá o que era a *******t, se há algo assim onde você vive, mas era onde havíamos nos refugiado. A questão é que só nos sobraram as sombras e os restos. O que fazíamos foi substituído por mensagens oficiais, em murais e monitores em praça pública, imediatamente destruídos ou retirados desses locais após cumprirem seu propósito: apresentar uma Avillan idílica, sem sofrimento, sem sujeira, sem crimes. As pessoas sorriam como robôs nas ruas, sorriam como robôs nos murais e monitores.

Eu queria dizer que estou aqui, sujo e em sofrimento; eu não estou sorrindo nunca. Algo ruim está acontecendo, mas não tenho como dizer a você o quê, simplesmente porque não sei. Há muitos anos, me escondo. Devo ser o último sobrevivente. Escrevo por puro desespero. Sei que não sei, como um Sócrates decaído, mais me expressar com exatidão, apenas vagamente. Torço para que quando esta carta, nesta garrafa, chegar até aí do outro lado, a vida seja diferente do que ela se tornou onde estou. Que aí ainda haja jornalismo e jornalistas. Éramos necessários.   

R.R.
O último extinto

*Homenagem à Que rei sou eu? (1989), novela de Cassiano Gabus Mendes.

Crédito:Reprodução/Facebook

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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