Opinião: "O Deus da Desordem", por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 15/01/2020 16:23
Crédito:Pixabay


Entramos na Era do Caos! Como falado pelo pensador do século passado Eric Hoffer: “Em uma era de transformações drásticas apenas os aprendizes herdarão o futuro. Aqueles que tudo sabem estarão preparados para um mundo que não existe mais.” A verdade é que os anos 20 mudarão de forma radical a forma que viveremos. Recentes estudos sobre os principais fatos ocorridos nos últimos 30 anos analisam nossa situação atual e, de certa forma, nos permite desenhar cenários para os próximos anos. Dentre vários, dois fatos históricos foram significativos. A queda do muro de Berlim, o maior símbolo da guerra fria, e o aparecimento e desenvolvimento da internet. 

Depois que o Muro de Berlim caiu, as duas Alemanhas foram unificadas. A União Soviética foi dissolvida e vários países diferentes foram criados. O cenário internacional teve como principal característica o avanço do processo de globalização em diversos níveis da vida cotidiana. O neoliberalismo representou uma nova fase do sistema capitalista, possibilitando relações entre novos mercados consumidores. Também realizou comparações da eficiência produtiva, além de questionar os custos trabalhistas e do papel do Estado como regulador das relações sociais de trabalho. A abertura de mercado favoreceu a circulação de informações e a reorganização de blocos econômicos. A globalização aproximou os povos e consequentemente aumentou a importância das relações internacionais. 

Quando surgiu a internet, não tínhamos a noção do quanto ela mudaria o comportamento das pessoas. Não somente em relação ao acesso à informação, mas ao poder que esse novo meio deu aos indivíduos de se comunicarem entre si e com o mundo. As empresas descobriram novas formas de fazer negócio. Paralelamente, as atividades desempenhadas pelos cidadãos ao exercerem seus direitos em assuntos públicos, seja através de grandes manifestações ou do voto, alteraram profundamente a atividade política em todos os cantos do mundo. Em quase todos os países tivemos ciclos e alternância ideológica no poder, característica fundamental da democracia. 

Assim como a tecnologia desenvolveu ferramentas com grande capacidade de comparar preços, trazendo benefícios aos compradores e diminuindo as margens de lucro das empresas promovendo a competição, fatos parecidos ocorreram no universo da política. As promessas partidárias, sejam elas de qualquer linha de pensamento, ficaram parecidas. Os desejos de bem-estar e necessidades de cuidados da população também foram globalizados. A internet e as redes sociais deram poder de voz a todos. As ruas viraram ambiente de reivindicações e confrontos. 

Durante os revezamentos no poder, sempre existiram governos implementando ações expansionistas no número de contratação de pessoas, aumentando a máquina pública, e fazendo crescer as despesas discricionárias. Somamos a isso a maior longevidade da população e a evolução dos custos da previdência. Resultado: os governantes ficaram com o orçamento disponível cada vez menor para cumprir seus projetos de campanhas. Promessas não realizadas, maior insatisfação. A alternância de poder ocorreu em prazos cada vez menores, criando maiores instabilidades sociais. O caminho encontrado por vários candidatos oportunistas foi a personificação das campanhas, abraçando questões que não dependem de muitos recursos, como uma agenda protecionista da moral e dos costumes, as quais têm grande capacidade de polarizar e dividir a sociedade. 

A evolução da polarização estimulou a intolerância. Pessoas impacientes rejeitam a reflexão, diminuindo a capacidade de raciocínio, ficando cada vez mais conveniente reforçar suas próprias convicções. Terreno fértil para a proliferação das Fake News. O jornalismo, sem o subsídio publicitário, torna-se secundário, dando espaço para o entretenimento. O folhetim vira o carro chefe, explorando as paixões humanas. Assuntos sensacionalistas como a divulgação de conteúdos violentos ou temas apelativos como o prazer e o sexo, dominam a agenda. Programas humorísticos proliferam. O resultado é que tudo é questionado, a desconfiança aumenta e os consensos são rejeitados.

Como se não bastasse, a sociedade mundial enfrentará, nos próximos anos, um provável cenário de competição pela supremacia do poder global. Uma disputa entre a liberdade capitalista corrupta, versus uma vigilância autoritária supressiva. Alguns acreditando na imortalidade humana, enquanto outros apostando na solução do suicídio. Governos destruindo seus oligopólios enquanto outros financiam projetos de monopólios tecnológicos. A supremacia quântica enfrentando a crueldade animal, entre diversos outros conflitos. 

O fato é que não devemos acreditar em soluções simples para problemas complexos. A grande maioria de nós troca facilmente a liberdade por estabilidade. As democracias podem morrer não nas mãos de generais, mas de líderes eleitos que subvertem o próprio processo que os levou ao poder. Porém, é no caos que encontramos novas saídas, que abrimos portas que não vemos, e que temos a oportunidade de descobrir o que realmente tem valor. Feliz 2020! 

Crédito:Arquivo pessoal

Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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