Opinião: "A Teoria do Caos para um futuro como deveria ser", por Flavio Ferrari

Flavio Ferrari | 12/12/2019 12:58
A insatisfação nos motiva. Nossa percepção de que a realidade não corresponde às nossas expectativas idealizadas pode gerar frustração, ansiedade e tristeza, mas dá um sentido maior para nossa existência: o de transformar.

Queremos um futuro melhor.

O futuro é uma região desconhecida e inexplorada. É lá que depositamos nossos temores e desejos mais intensos. 

A percepção do presente, construída a partir da combinação da cognição e da emoção, traz o benefício e o conforto do conhecimento, com algum entendimento. 

É neste presente que idealizamos uma situação hipotética desejável onde, nas palavras de Jordan Peterson, encontraremos “satisfação suficiente, punição mínima, ameaça tolerável e esperança abundante”, onde o que é desnecessário ou incômodo estará ausente ou minimizado.

Essa idealização, em grande parte, determina nossa relação emocional com os acontecimentos e, como consequência, nossa percepção da realidade. É a emoção que atribui valor e significado aos fatos.

Vivemos uma época de grandes e velozes transformações e insatisfações generalizadas.

A velocidade das transformações nos rouba o conforto do entendimento do presente. O mundo não é como deveria ser e a ansiedade gerada pelas incertezas intensifica nosso desconforto.

Não somos capazes de prever e controlar os eventos e experiências. Nossos rituais parecem obsoletos e improdutivos. E, para piorar, a polarização fragmenta a identidade de grupo e compromete o sentimento de participação do coletivo. Sentimos que estamos sós.

Obviamente, não estamos. É da combinação das ações individuais e coletivas, pessoais e organizacionais, que nascem os possíveis cenários futuros a serem compartilhados.

No modelo mental simplificado de um contexto estático, compreendemos o presente (onde estamos), identificamos o que desejamos alcançar (para onde queremos ir) e traçamos nosso plano de ação. Esse modelo não se aplica a um cenário dinâmico.
Crédito:Imagem de sipa / Pixabay

Fica mais evidente, no momento atual, que nossas antigas projeções de futuro também eram estáticas e sólidas, e que o presente movediço já não nos permite acreditar em futuros seguros e estáveis. O futuro é o caos.

Mas o caos só é caos porque desconhecemos suas leis e sua ordem intrínseca.

Na matemática, a Teoria do Caos trata dos sistemas complexos e dinâmicos particularmente sensíveis às condições iniciais. A pressuposição é a de que pequenas variações no início de um evento podem ter seu impacto multiplicado pelos fenômenos associados e trazer grandes e imprevisíveis consequências para o futuro.

A imprevisibilidade é o que define o Caos.

Ações no presente, variações, forças associadas, cenários futuros e imprevisibilidade são nosso material para construção de possíveis cenários futuros.

Explorar esses cenários, avaliando seu grau de incerteza e elencando o que poderia nos surpreender, é o novo modelo mental que precisamos adotar no presente.

A incerteza, explorada e mapeada, é a nossa nova zona de conforto. O que é dinâmico substitui a falácia estática. Os cenários possíveis compõem o cardápio de opções. Nosso plano de ações incorporará o engajamento de outros agentes de transformação, capazes de multiplicar nossos esforços.

Conciliamos temores e desejos, aceitando e respeitando a Teoria do Caos, que irá trabalhar a nosso favor.

Passamos a trilhar o caminho da inovação seriada e sustentável.

É o Tao.

Crédito:Gladstone Campos

Flavio Ferrari, Head do CIFS BR – Copenhagen Institute for Futures Studies.

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