Opinião: "Transformação Analítica 2020", por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 11/12/2019 15:32
Crédito:Pixabay


Todo final de ano é a mesma coisa. Retrospectivas, projeções e previsões. Principalmente quando se fecha uma década. Mas quando o tema é predizer o futuro, os especialistas em tecnologia têm uma imaginação fértil e um otimismo quase descabido. O futuro idealizado raramente chega na data prevista. Isso quando as ideias não são abandonadas definitivamente. O normal é as expectativas profetizadas ficarem bem distantes da realidade. Boa parte das inovações prometidas para 2020 “flopou” completamente. A lista das antecipações é grande, e vai desde o homem pisar no planeta Marte até o tráfego de carros voadores nas grandes metrópoles.

Mas temos que concordar que a organização humana e a tecnologia evoluíram em uma velocidade fantástica nos últimos anos. Séculos atrás, as guerras, as conquistas e a política eram as substâncias principais da história humana, enquanto a tecnologia e a sociedade evoluíam lentamente, em segundo plano. O que ocorre nos dias de hoje é o inverso. Deixamos de ser analógicos e regionais para nos transformarmos em digitais globais. Como consequência, obtivemos uma explosão de dados e informações. Porém boa parte do pensamento e comportamento humano ainda é analógico. Especialistas acreditam que não analisamos nem 15% de todos os elementos que temos a disposição. Não conseguimos transformar em conhecimento os registros que temos a nosso dispor. Para aproveitarmos corretamente a revolução digital, temos que empregar a transformação analítica.

A transformação analítica é uma jornada. Não existe uma definição acadêmica ou empresarial clara e completa sobre suas aplicações. Mas para simplificar podemos dizer que são análises preditivas e prescritivas para solucionar desafios da sociedade moderna. Desde quando saímos da dependência dos manuscritos e nos beneficiamos da invenção de Gutenberg, o mundo não parou de se reinventar. O incremento da circulação da informação posicionou a opinião pública contra os ideais dos governantes. Hoje não dependemos mais da materialização do papel. Quase todo entendimento está disponível na ponta dos dedos. Porém tudo é tão rápido que não conseguimos aproveitar as oportunidades nem medir as consequências e os impactos das nossas pequenas decisões.

Como observou J. Bradford DeLong, professor de economia da Universidade da Califórnia (Berkeley), no intervalo de duas gerações humanas, transitamos dos jornais e magnatas da imprensa para o rádio e a TV, e depois para a internet e para a esfera pública atual capitaneada pelas redes sociais. O resultado desta transformação é que a classe política não mais consegue atender os interesses da sociedade, a ponto de colocar em risco o regime democrático em diversos países. Governantes de todas as linhas ideológicas são assediados por enxames de pseudo influenciadores, propagandistas e robôs semicoordenados pela dinâmica do próprio meio. Argumentos de qualidade e origem duvidosa estão moldando o modo de pensar e o comportamento das pessoas sem terem sido submetidos à devida avaliação e análise. Há mais dinheiro a ganhar pelo incentivo à revolta do que à informação de qualidade.

O filósofo e teólogo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han descreve que claramente nos encontramos em uma crise de poder, em uma transição crítica provocada pela revolução digital. Arrasta multidões por trás da mídia, aquém de uma vontade consciente, transformando o comportamento, a percepção e o pensamento dos indivíduos, embriagando-os e cegando-os através da abundância de informações. Ele dá vida ao velho ditado que diz que o melhor lugar para se esconder um livro é em uma biblioteca. Nossa sociedade vive o cansaço do excesso de informações. Quando há dados o suficiente, os números falam por si. Quando há dados em excesso, os números confundem.

A comunicação digital tomou não apenas forma espectral, mas também viral. Ela é contagiante na medida em que ocorre imediatamente em planos emocionais e afetivos. O contágio é uma comunicação pós-hermenêutica, que não dá verdadeiramente nada a ler ou pensar. Ela não pressupõe nenhuma leitura que se deixa acelerar apenas de maneira limitada. Uma informação ou conteúdo, mesmo com significância muito pequena, se espalha rapidamente na internet como uma epidemia ou pandemia. Nenhuma outra mídia foi capaz desse contágio viral. Mesmo nos sonhos daqueles mais inventivos, poder-se-ia pressagiar tamanho poder da web. Sim, as vezes mesmo aqueles que desejam romper as fronteiras da realidade não são capazes de enxergar os potenciais de uma inovação. 

A tecnologia atual oferece, sim, informações valiosas, tanto que poucos de nós podemos imaginar viver sem seus benefícios. Os desafios são grandiosos e estamos desenvolvendo ferramentas e metodologias adequadas para enfrentá-los. A transformação analítica é uma dessas novas armas. Podemos e devemos ir além. Vários os slogans ditos de diferentes formas: “o que o homem consegue imaginar, a tecnologia poderá realizar”, e assim não faltará novas projeções. Que venha 2020.

Crédito:Arquivo pessoal
Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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