Opinião: “Ele Torce pelo Mengão”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 25/11/2019 16:50
Crédito:Edu Moraes
O técnico fez toda diferença para a vitória do time. Longe da influência dos cartolas que tinham interesse neste ou naquele jogador, procurou os melhores e o aproveitamento máximo das categorias de cada um. Contudo tinha uma predileção pelo centro avante, especialmente no jogo contra um time estrangeiro que tinha na defesa sua maior qualidade e lhe garantiu chegar na final contra o time do brasileiro. A chegada dos campeões foi meticulosamente planejada para todos pudessem se aproveitar do momento e reforçar sua fé inabalável no jogador brasileiro, sua raça, sua cor, sua capacidade de vencer obstáculos a caminho da liderança. Para variar houve briga de bastidor sobre qual seria o roteiro do time pela cidade. A briga não se deu apenas entre os políticos, mas também entre sindicalistas, e meios de comunicação que se achavam no direito de tirar uma lasquinha para aumentar o faturamento em publicidade. O fato é que por aqui ou por ali todos os interessados seriam atendidos pela direção da equipe campeã. Especialmente que o presidente da república declarou que era torcedor do Flamengo no Rio de Janeiro. No seu estado de origem tinha outro time...

O desfile começou no aeroporto do Galeão, com uma multidão que se espremia para, pelo menos, ter uma visão pessoal do seu ídolo. Não foi possível, os jogadores já saíram do aeroporto e, mais próximos do centro da cidade, trocaram por caminhão aberto. O trajeto combinado é que o desfile passasse pelas principais avenidas do Rio, onde estava concentrada a maior parte dos torcedores, com bandeiras e camisas, escolas de samba, batucada, enfim um grande concerto sem um maestro para querer por disciplina no som. O destino era dar uma passada no Palácio do Governo para tirar fotos e depois seguir para a sede do maior grupo empresarial de mídia do Brasil, como se fosse um agradecimento pela cobertura da conquista e do faturamento publicitário de quem pode pegar carona no campeonato. O trajeto foi percorrido com grande atraso, uma vez que a presença de torcedores no meio da rua fazia o cortejo parar. Alguns, mais afoitos, se atiravam na direção dos craques para conseguir um autógrafo, ou uma foto. Outros tentavam dar carteiradas, políticos, militares, presidente de ONGs, enfim um sem fim de autoridades que nunca tiveram uma oportunidade tão boa. Prédios enfeitados, chuva de papel, bandas nas ruas, enfim o time campeão foi responsável por um carnaval fora de época na Cidade Maravilhosa.
Crédito:Reprodução Twitter Flamengo / foto Marcelo Cortes e Paula Reis

No momento de euforia todos esquecem as amarguras da vida, o alto índice de desemprego, a roubalheira no governo, o desfilar dos corruptos fora da prisão e outras dificuldades do dia a dia. Afinal o que é tudo isso em um dia de paixão e êxtase provocado pelo futebol, com seu time do coração voltando campeão? Pegar carona política no sucesso do time não é coisa para amadores. O presidente Juscelino Kubistchek também não podia perder uma lasquinha com a conquista da Copa do Mundo de 1958. A taça teria que chegar até o presidente, uma vez que a sede do governo ainda era no Rio de Janeiro. E assim foi feito. O cortejo passou pela porta do palácio presidencial e pela porta da Revista O Cruzeiro. E seu sucessor não deixou por menos. João Goulart recebeu a taça de bicampeão mundial de futebol de 1962, no Chile, das mãos dos jogadores Bellini e Mauro. Ele era gremista em Porto Alegre e Mengão no Rio. O novo técnico da seleção Aymoré Moreira foi consagrado como o novo estrategista do futebol e o povo descobriu o incrível Mané Garrincha, o das pernas tortas. E o centroavante Vavá. Mas nem todas essas festas foram suficientes para que Jango fosse derrubado por um golpe de estado dois anos depois. O futebol também tem os seus limites.

*Heródoto Barbeiro, editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma. Acesse www.herodoto.com.br

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