“Um jornal que não se reinventa corre o risco de se desconectar do público”, afirma o professor Alexsandro Ribeiro

Gisele Sotto, em colaboração | 22/11/2019 14:21
A seção Bastidores do Labjor destaca o Jornal Marco Zero. Fundado há uma década, ele é produzido pelos estudantes do curso de jornalismo do Centro Universitário Uninter, em Curitiba. 

O Marco Zero circula na região central da capital paranaense, sempre abordando temas de interesse social e dando voz às comunidades carentes do centro. A novidade é que o jornal passou por uma reforma gráfica e tecnológica nos últimos tempos, e ganhou um aplicativo de realidade aumentada para dar mais amplitude aos assuntos e integrar o papel às demais plataformas. 

O Portal IMPRENSA conversou com Alexsandro Ribeiro, jornalista e professor responsável do Marco Zero, que fala sobre as inovações e compartilha sua experiência na produção deste jornal-laboratório. 

Portal IMPRENSA - Como é o processo de definição das pautas?

Alexsandro Ribeiro - A elaboração do Marco Zero se pauta pela liberdade de expressão, tendo como objetivo desenvolver no aluno o senso crítico e o espírito de cidadania. Desde que surgiu, em dezembro de 2009, o jornal Marco Zero vem apresentando à comunidade da área central de Curitiba e ao universo acadêmico do Uninter temas de relevância da sociedade, de maneira interpretativa, contemplando a pluralidade de pensamentos e o exercício da cidadania. Temas de cunho social, abrangendo os direitos humanos, direitos do consumidor, das minorias, alteridade, saúde e segurança pública, entre outros, contam com destaque nas edições. 

O jornal Marco Zero é um espaço duplo de aprendizados dos alunos. No primeiro, vinculado à sala de aula, ele se torna um laboratório que permite o diálogo das disciplinas de mídia impressa e uma reflexão sobre a relação teórico-prática do jornalismo. Neste caso, como disciplina, as turmas de jornalismo dos turnos da manhã e da noite atuam como uma grande redação. As pautas são debatidas em sala com a participação de todos, respeitando os limites da linha editorial do veículo e a periodicidade das editorias. Desta forma, além de colaborar nas pautas dos colegas, os alunos recebem o feedback da turma, o que dá maior coesão à equipe do jornal. 

Em sua maioria, as pautas são formuladas após uma longa análise do comportamento e do papel do jornal na cidade, para que os alunos consigam compreender a estrutura editorial dele, e desta forma propor temas. Há uma formação de mão dupla, em que o aluno começa a perceber a cidade pelo viés jornalístico, e ao mesmo tempo organiza um jornal a partir do seu olhar sobre a cidade. Definidas as pautas, os alunos seguem para a apuração e produção das matérias. Com o aplicativo de Realidade Aumentada e com a reforma tecnológica feita recentemente no jornal, o processo de produção não se restringe a texto e imagem, inclui também elementos multimídia como áudio, vídeo, infográficos animados, 3D e outros recursos. Desta forma, o planejamento das pautas deve considerar as interfaces do meio impresso com os elementos digitais. 

O outro espaço de produção do jornal Marco Zero é como projeto de extensão. Desta forma, agrupando alunos de vários períodos, o jornal segue com produção fora de sala. É neste momento que podemos, alunos e professores, pensar na estrutura do jornal e em como agregar recursos digitais e outros aprimoramentos, como forma de refletir o papel do jornal, e como amplificar seu desempenho na sociedade. 

A reforma digital do Marco Zero nasce justamente neste espaço. Aqui as pautas também são debatidas de forma aberta entre os alunos colaboradores e o professor responsável pelo jornal. Mesmo que a diagramação das matérias seja feita lá na disciplina laboratorial, é como projeto de extensão que o arquivo final é elaborado, com as especificações para a gráfica. Assim, a organização final do jornal, a disposição das matérias nas páginas, as edições dos recursos digitais e o fechamento do aplicativo e disponibilização na loja virtual de aplicativos são feitos neste momento. Ao final do processo, temos um jornal que integra alunos de vários períodos, e que se consolida como um espaço de aprendizado e de socialização.
Crédito:Divulgação / Jornal Marco Zero - Uninter

Portal IMPRENSA - Quais são as dificuldades que você identifica nos alunos para o desenvolvimento das matérias?

Alexsandro Ribeiro - Uma das principais dificuldades é, no momento da pauta, conseguir visualizar a matéria finalizada, e com isso desconstruir o processo de produção de modo a pensar sobre os passos que devem ser seguidos para se chegar naquele resultado. Isso vem com prática e, sobretudo, com a leitura crítica dos meios de comunicação. E ao falar sobre leitura, pontuo uma segunda dificuldade que é vencida aos poucos: a falta de leitura de materiais impressos. Somos, naturalmente, mais próximos às mídias que consumimos diariamente. 

Quem ouve rádio e assiste TV é familiarizado com a narrativa, com a arquitetura da informação e com as técnicas destes espaços. Mas como produzir para uma mídia com a qual você não tem contato diário? É aí que entra a cobrança constante e os exercícios de leitura de jornais, para que os alunos compreendam a lógica da notícia no impresso. 

Portal IMPRENSA - Quais são os conhecimentos que eles já trazem e que ajudam no processo?

Alexsandro Ribeiro - A conexão com a tecnologia tem sido uma boa ajuda, principalmente após a reforma do jornal com o aplicativo e com o QR Code. Assim, pensar na notícia vinculada a recursos digitais tem sido relativamente mais fácil para os alunos. O mesmo acontece no processo de edição destes materiais, como áudio e vídeo. Pela maior proximidade com tais recursos, boa parte dos alunos chega na produção do jornal com conhecimento de software de edição e técnicas de tratamento de vídeo, áudio e imagem. O consumo de outras mídias também é importante, pois, apesar das linguagens serem muitas vezes distintas, fornecem o subsídio para pensar as pautas e para observar a demanda social. 

Portal IMPRENSA - Como é o retorno dos alunos em relação à produção de matérias?

Alexsandro Ribeiro - Uma das coisas mais simbólicas para um jornalista é a primeira matéria impressa em um jornal. Ainda tenho o exemplar do primeiro jornal laboratorial que produzi quando era aluno, e do primeiro jornal impresso em que escrevi depois de formado. Então começa por um reconhecimento importante neste processo de aprendizado, de ver o resultado prático do conhecimento, de folhear o esforço da entrevista, da procura pelas fontes, das várias retomadas ao texto para editar e adequar a matéria. 

E isso motiva não apenas a continuar no projeto, mas sobretudo a ir além no curso, aprimorar os conhecimentos, buscar mais informações com os professores, na literatura acadêmica e na técnica. Tudo parece tão distante quando entram no laboratório, quer seja pela pouca familiaridade com os jornais impressos, quer seja pela curva de aprendizado do processo, que não é tão acentuado assim. 

Em outras mídias, parece que é mais rápido e que a resposta vem em seguida, mas no impresso, pelo seu tempo de evolução, pela reflexão que demanda, e pelas inúmeras camadas de informação que apresenta, como texto, imagens e diagramação, o resultado leva um pouco mais de tempo. Mas quando chega a primeira impressão, as outras vêm com uma alegria e com uma renovação, que é o que alimenta a nossa vontade de expandir o projeto, de propor melhorias e reformas. 


Portal IMPRENSA - Pode falar um pouco sobre os impactos das reformas gráfica e tecnológica no jornal? E que maneira isso alterou o fazer jornalístico?
 

Alexsandro Ribeiro - Um jornal que não se reinventa corre o risco de se desconectar do público. Nenhum olhar é o mesmo ao longo do tempo. As notícias mudam, as tecnologias mudam, a leitura muda. Mas o jornalismo continua o mesmo. Como um espaço de experimentação e de produção laboratorial, o jornal Marco Zero não pode se aquietar ou se omitir às evoluções e às influências do tempo. É com este espírito que propomos, debatemos, idealizamos e implantamos a reforma gráfica e tecnológica no Marco Zero. 

O primeiro ponto foi optar pelo recurso da cor como forma de reforçar a unidade de matérias e a identidade visual das páginas. Cada reportagem assume uma cor como destaque, que conduz o leitor na interpretação de que todos os elementos textuais e visuais com aquela cor integram um mesmo tema. Assim, como reforço e repetição, as cores e as fontes são usadas na criação de uma nova identidade visual do jornal, permitindo ao mesmo tempo a vinculação de cada item da página. Da mesma forma, foram criadas linhas que conduzem os leitores do texto para os recursos tecnológicos ou imagens. A título de exemplo, em um momento da matéria, quando o repórter faz referência a um documento, por exemplo, uma linha colorida faz a ponte entre aquela palavra de referência ao documento e um QR Code que leva o leitor para a versão digital do documento. 

E aqui abrimos espaço para perceber o segundo ponto da reforma, que foi pensar em como criar pontos de referências entre elementos do texto que pudessem ser ampliados, como uma espécie de hiperlinks em papel impresso. O uso de QR Code foi uma solução. Com isso, criou-se uma ponte entre o jornal impresso e os recursos digitais em que o leitor, munido de um smartphone com um aplicativo de leitor de QR Code instalado, poderia ir além do conteúdo impresso nas páginas do Jornal Marco Zero. 

Contudo, ao refletir sobre a durabilidade do jornal e a mídia impressa como necessária para o leitor, pensamos que seria importante usar uma tecnologia que não usasse o papel apenas como um ponto de acesso a um conteúdo que está em outro lugar, como é o caso do QR Code. Foi aí que chegamos até a Realidade Aumentada, que cria um necessário vínculo entre a tecnologia e o papel. Ou seja, para que os recursos sejam ativados, é importante que a câmera do celular não perca contato visual do jornal.  

Este processo promoveu ao menos dois grandes impactos. Um deles foi promover uma reflexão da atualização tecnológica do jornal, e pensar em estratégias a longo prazo para a mídia. Um segundo ponto foi promover uma cultura de produção que não fique restrita ao texto. Com o aplicativo e as demais reformas, abrem-se inúmeras oportunidades de fazer com que a reportagem ganhe vida, que ela traga todas as vantagens de narrativas digitais para a plataforma do impresso, e com isso traduza a realidade de forma mais viva e ampla para os leitores. 
Crédito:Reprodução / Jornal Marco Zero - Uninter

• Jornal indica  

Uma das matérias publicadas nas últimas edições com grande repercussão é a reportagem sobre o aluguel social em Curitiba. Ou melhor, é sobre a falta de regulamentação da lei e o drama das pessoas que sofrem com desastres naturais ou com a falta de abrigo, e que descobrem que a legislação curitibana não dá conta de oferecer amparo. A matéria, que assume a capa da edição 58 do Jornal Marco Zero, com a manchete “Aluguel Social: um direito sem efeito”, denunciou o descaso do executivo municipal com uma parcela da população em um momento de grande fragilidade social. Assinada pelos alunos Gabriel Mafra, Aliana Machado e Larissa Oliveira, a reportagem foi construída com depoimentos, dados sobre a legislação, com o contraditório e informação decorrente de canais da transparência, e documentos recebidos via Lei de Acesso à Informação. Além de circular nos espaços sociais em que a demanda pela terra e pelo acesso à moradia são pautas recorrentes, a reportagem ainda foi premiada com o segundo lugar na concorrida categoria de reportagem para impresso do Prêmio Sangue Novo de Jornalismo. 

O jornal-laboratório
Jornal Marco Zero
Instituição: Centro Universitário Uninter, de Curitiba (PR)
Professor responsável: Alexsandro Ribeiro
Data de inauguração: dezembro de 2009.
Quantidade de estudantes envolvidos: sete - Patrícia Lourenço, Ivone Souza, Luis Gustavo, Poliana Stefany, Nicole Bek, Sabrina Fernandes e Amanda Zanluca.

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