Projeto debate a complexidade do atual cenário político brasileiro, por meio de seus protagonistas

Gisele Sotto, em colaboração | 21/11/2019 12:30
Lia Capecce e Afonso Marangoni desenvolveram como TCC o Tabuleiro do Poder, um programa de entrevistas sobre política sem viés partidário. “Nosso objetivo foi ouvir os protagonistas do cenário político atual da forma mais imparcial possível para que nosso público pudesse formar sua própria opinião sobre o que está acontecendo hoje no meio político”, explica Lia. Os vídeos foram publicados no Youtube e divulgados no Facebook e Instagram.

Eles vão se formar em Jornalismo em dezembro deste ano pela Faculdade Cásper Líbero e, em entrevista ao Portal IMPRENSA, compartilham sua História de TCC. 

Sobre o trabalho 
Afonso Marangoni: O trabalho partiu do anseio em abordar e debater a complexidade do atual cenário político brasileiro. A ideia foi criar um canal para ouvir as pessoas que protagonizam o debate político. As plataformas de divulgação do projeto, o Youtube e as redes sociais, estenderam o alcance das discussões ao um maior número de pessoas, cumprindo uma das funções elementares do jornalismo, que é dar publicidade e contribuir com o debate público. Para este objetivo buscamos pessoas com diferentes visões de mundo e matizes ideológicos que, muitas vezes, se opuseram sobre um mesmo tema, mostrando a complexidade dos acontecimentos e suas diversas interpretações.

Para realizarmos entrevistas plurais e sem viés partidário ouvimos, em ordem, os seguintes nomes: Janaína Paschoal, José Eduardo Cardozo, Ricardo Kotscho, Major Olímpio, Reinaldo Azevedo, Eduardo Suplicy, Modesto Carvalhosa, Ivan Valente, Kim Kataguiri, Augusto Nunes, Marina Silva, Randolfe Rodrigues, Gleisi Hoffmann, Tábata Amaral, Orlando Silva, Cristovam Buarque, José Maria Trindade e Luiz Felipe Pondé.
 
Principais desafios ao longo da produção
Lia Capecce: A parte mais difícil foi marcar as entrevistas. Com alguns assessores nós ficamos em contato por meses até a entrevista dar certo, porque a agenda dos entrevistados era apertadíssima. A viagem que fizemos à Brasília em agosto [de 2019] para algumas gravações também foi um grande desafio. Ficamos uma semana por lá na maior correria, imprimindo as perguntas no shopping, almoçando em 15 minutos, correndo de uma ponta a outra da Praça dos Três Poderes. Numa tarde, tínhamos quatro entrevistas marcadas: uma na Câmara, duas no Senado e uma no STF [Supremo Tribunal Federal]. Foi uma loucura, correndo com os equipamentos nas costas, montando e desmontando tudo em pouquíssimo tempo. Mas no final, a experiência foi incrível.

Afonso Marangoni: Após escolhidas e confirmadas as entrevistas, o maior desafio foi fazer a apuração detalhada do entrevistado e de suas posições e manifestações sobre os temas em questão. A pesquisa prévia possibilitou a realização de perguntas que saíssem do lugar comum e permitiu questionar os entrevistados sobre colocações anteriores deles, com o intuito de entender se a avaliação sobre aquele assunto se manteve. Outro grande desafio foi fazer a edição, selecionando os trechos que foram ao ar e os que foram cortados. Em média, as entrevistas tiveram o dobro do tempo do vídeo que foi publicado.
Crédito:Arquivo pessoal


Os aprendizados
Lia Capecce: Aprendi muito no contato com os assessores de imprensa - qual o melhor horário para mandar mensagem, qual a melhor abordagem e, principalmente, que ser educado e simpático faz toda a diferença. Aprendi bastante também sobre como fazer uma apuração bem feita e como preparar as perguntas para os entrevistados, buscando o máximo de isenção. Além do aprendizado sobre as redes sociais. Cada entrevista resultou em três publicações no Facebook e no Instagram: dois teasers de divulgação e o vídeo em si. Aprendi na prática, por exemplo, que legendar os vídeos de divulgação faz muita diferença no engajamento do público. E passei a entender as métricas do Facebook, do Instagram e do Youtube, o que vai ser muito útil nos próximos anos. 

Afonso Marangoni: Entre os aprendizados, o mais impactante foi ver na prática como existe uma disputa de narrativas dos acontecimentos políticos do país e que cada grupo interpreta e angula os fatos de formas distintas, a partir dos valores e visões de mundo de cada um. O TCC possibilitou estar de frente com protagonistas de diversas vertentes ideológicas o que permitiu perceber que, para além de maniqueísmos, cada formador de opinião tem uma visão particular do cenário político, o que contribui para complexificar e enriquecer o debate público.
 
Significado dessa experiência
Lia Capecce: Em abril, resolvi sair do estágio para me dedicar integralmente a esse projeto, e não me arrependo. As experiências que vivi neste ano foram, sem dúvida, a melhor parte de toda a graduação, desde o contato com os assessores de imprensa e a produção das entrevistas, até a decupagem e aprovação do material. Contamos com a parceria de uma produtora, o Rockambole, na gravação e edição dos vídeos, o que foi imprescindível para o sucesso do canal, pois assim pudemos nos dedicar totalmente à parte jornalística. O TCC me deu certeza sobre a área que quero seguir no jornalismo - que é totalmente diferente do sonho de trabalhar em uma grande redação, que eu tinha quando entrei na Cásper. Quero trabalhar com assessoria de imprensa e marketing político. Em paralelo ao projeto, fiz alguns cursos nessa área e agora espero conseguir uma oportunidade. O Tabuleiro do Poder foi essencial para que eu me encontrasse no que quero trabalhar depois de formada.

Afonso Marangoni: O que ficou foi a certeza de que os fatos são muito mais complexos do que parecem, que há várias interpretações e entendimentos sobre um mesmo assunto e que as versões da história estão sempre em disputa por grupos políticos e pessoas. Como jornalista, o grande aprendizado foi em como conduzir uma entrevista com nomes de diferentes linhas ideológicas e visões de mundo. Improvisar, sair do roteiro prévio, aproveitando os “ganchos” de perguntas também foi uma habilidade exercitada ao longo do processo.
 
Contribuições que o trabalho trouxe
Lia Capecce: Ainda é bastante recente, nossa banca será no começo de dezembro, mas já consigo ver duas grandes contribuições: os contatos que fiz ao longo do ano com assessores e políticos e, principalmente, a autoconfiança que conquistei com o meu trabalho. Ver tudo que pudemos construir ao longo do ano nesse projeto é muito gratificante, e o sentimento de missão cumprida é incrível. 

Afonso Marangoni: Ampliou significativamente a lista de contatos de políticos, assessores, jornalistas, juristas, filósofos e cientistas políticos. Criei uma expertise na produção, realização e edição de entrevistas. Aumentou também meu entendimento sobre a política em seus mais diversos aspectos, sobretudo nos fatos que se seguiram após as manifestações de 2013.
 
Conselhos para quem está fazendo o TCC
Lia Capecce: Escolha um tema que você realmente ame e se interesse muito. O formato também conta bastante. Eu não me via escrevendo uma monografia, nem um livro-reportagem. Então acredito que se tivesse escolhido um desses formatos teria sido muito mais desgastante. Outro conselho é: pense grande! Muitos dos nomes que conseguimos entrevistar ao longo do ano pareciam impossíveis lá no começo do projeto. Essa é a hora de arriscar. Pense também em como o TCC pode te ajudar a trilhar seu caminho depois da faculdade - escolha um tema e um formato que conversem com o que você quer para o seu futuro. O TCC pode abrir muitas portas e te fazer conhecer muita gente bacana.

Afonso Marangoni: O TCC será uma das experiências mais ricas da vida acadêmica na medida em que o tema a ser desenvolvido possa interessar e despertar em você a curiosidade em se aprofundar no assunto. Portanto, um conselho é buscar angular o projeto no que você realmente gosta. Também é importante estar aberto a mudanças no meio do caminho, como readequar a linguagem, o formato e o objeto de estudo. No caso do Tabuleiro do Poder, partimos inicialmente da ideia de fazer um documentário sobre as eleições de 2018 até que, ouvindo o orientador, chegamos ao projeto final: um canal no Youtube sobre o cenário político atual. Por fim, tratar o TCC de forma profissional é uma maneira de projetar o trabalho para além do ambiente acadêmico, e abrir oportunidades no mercado de trabalho.


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