“A capacidade de poder falar com propriedade sobre assuntos centrais ao jornalismo é um ganho assombroso”, diz Carlos Senna

Gisele Sotto, em colaboração | 07/11/2019 12:02
Crédito:Arquivo pessoal

A preocupação de Carlos de Azevedo Senna sobre a adoção do termo “fake news”, e sua associação à construção da pós-verdade, o levaram a desenvolver uma monografia sobre pós-verdade, jornalismo e a cobertura da Folha de S.Paulo na eleição presidencial de 2018. 


Carlos irá se formar em Jornalismo neste ano pela Faculdade Cásper Líbero e, em entrevista ao Portal IMPRENSA, compartilha sua História de TCC. 

Sobre o trabalho 

Em 2016, eu comecei a ficar muito preocupado com a maneira que políticos de todo o mundo estavam adotando o termo “fake news” para desqualificar as críticas feitas a eles no noticiário. E também com a forma como os repórteres rapidamente adotaram “fake news” como uma nova forma de descrever mentiras, sendo que essa expressão tinha sido ressignificada especialmente para atacá-los. Só em 2018, eu entendi como essa discussão faz parte da construção da pós-verdade.

Eu queria encontrar uma forma de mostrar como a pós-verdade descreve o discurso político, que explora um momento de crise da mídia para tornar normais as alegações mentirosas, os ataques a jornalistas e o descrédito de especialistas. E decidi que o melhor lugar para encontrar evidências disso era nas reportagens da Folha de S.Paulo durante o período das eleições de 2018.

Meu objetivo era dar destaque a como esses temas são abordados pela imprensa e como os próprios jornalistas invalidam ou legitimam essas narrativas. Não para criticar o jornal, quero que fique claro, mas para mostrar como as estratégias políticas de uso da informação tentam fazer com que o jornalismo trabalhe para os seus interesses e, ao mesmo tempo, desacreditá-lo.

Principais desafios ao longo da produção 

Meu principal desafio foi encontrar jornalistas da Folha dispostos a falar sobre o assunto. Como o dono da Havan e o próprio presidente Bolsonaro entraram na Justiça Eleitoral com processos contra o jornal, os profissionais preferiram não falar publicamente sobre fake news ou qualquer coisa relacionada. Isso tornou a pesquisa sobre os métodos da Folha e a sua visão sobre o assunto muito difícil.

Os aprendizados

Algumas coisas que eu aprendi foram básicas, mas não quer dizer que foram fáceis. Só por meio da leitura de muitos estudos e entrevistando especialistas, consegui enxergar as nuances e facetas do que é resumido no jargão “fake news”. E como a maioria da população não está a par desses detalhes. Muito pelo contrário, associa o termo com o seu uso político de notícia falsa, manipulada, um significado atrelado de todas as formas a uma crítica da atuação dos jornalistas. O tipo de informação falsificada que circulou em massa durante as eleições nem pode ser propriamente chamada de fake news porque não imita o formato do jornalismo.

Fora das questões abordadas pela minha pesquisa, aprendi a pesquisar e a priorizar as minhas fontes de informação de forma consciente. Foi um aprendizado do olhar, sobre como avaliar a informação que estava chegando para mim, mesmo por meios e pessoas confiáveis.

Significado dessa experiência 

Sou um aluno mais velho, vou completar 40 anos antes da minha formatura. Então, para mim, o TCC foi um esforço e uma realização. Eu me obriguei a fazer o meu melhor, para terminar esta fase da minha vida com um ponto de exclamação. Se consegui ou não, não sei, mas o esforço é a verdadeira conquista.

E ganhei muito em conhecimento. O contato com a teoria da comunicação, com os verdadeiros pensadores da área e com pessoas preocupadas com o rumo da profissão, do mercado e com a missão do jornalismo só fizeram com que eu me apaixonasse ainda mais pela função e pela nossa capacidade de tocar as pessoas, de provocá-las, de fazê-las pensar.

Contribuições que o trabalho trouxe

A principal contribuição foi a especialização. A capacidade de poder falar com propriedade sobre assuntos centrais ao jornalismo é um ganho assombroso. Eu acredito que as crises pelas quais a indústria da comunicação passa só serão vencidas com inovação. E não com a falsa inovação, baseada em truques de métrica e modismos tecnológicos, mas sim com apostas em ética, apuração e serviço público, que atendam às necessidades e anseios do público leitor.

Meu TCC me colocou em contato com muitas pessoas que estão pensando soluções, encaram os problemas de forma honesta e buscam no cenário atual uma forma de trazer de volta os investimentos, os leitores e a confiança.

Conselhos para quem está fazendo o TCC agora

As pessoas focam, na minha opinião de maneira errada, em fazer algo que seja prazeroso. E o TCC tem que ser algo legal de fazer, sem dúvida. Mas o foco, para mim, tem que ser no futuro. A escolha do tema do TCC deve ser algo prático, que vai orientar o desenvolvimento profissional do aluno. Eu me orientei muito pelo que queria que fosse minha especialização daqui a dez anos. Deve ser algo que espelhe uma preocupação prática e contemporânea, mas deve ter também um elemento de aspiração, daquilo que é o objetivo do aluno. Para os mais jovens, isso é bastante difícil, eu sei. Mas é interessante colocar o TCC como uma etapa de um plano maior, em vez de um ponto final na carreira acadêmica. Afinal, o profissional que entende um pouco melhor a sua área, é um profissional mais valioso.

Leia também