Opinião: "Para que não se esqueça", por Rafiza Varão

Embora não figure entre os imperativos jornalísticos, dever de memória atravessa relações entre jornalismo e registro de acontecimentos

Rafiza Varão | 30/10/2019 11:34
Contam que há muito, muito tempo, a memória era toda ela assentada em nossos suportes biológicos, em nossas estruturas mentais. Por isso, os anciões eram tão importantes em muitas culturas. Tendo vivido mais que todos, experenciado mais que todos, se tornavam guardiões do conhecimento, a fonte à qual recorrer nas dúvidas e incertezas sobre o passado. Em certas ocasiões, podiam também projetar o futuro, cientes das consequências que certas ações poderiam ter, justamente por reconhecerem um pouco melhor os acidentes do rio do tempo. Sua autoridade começou a decair quando a escrita foi forjada como ferramenta de registro, a princípio de transações, posteriormente da própria vida. A memória, enfim, estava fora do limitado corpo humano. Assim, os documentos passaram a ser materiais em que o passado se mostrava como água num manancial: por vezes, transparente; em outras, turva. Mas sempre carregando traços do que já se foi e do que poderia ser. A partir desse movimento, a história pôde firmar suas bases. Com os anos, em especial após a primeira metade do século XIX, o jornalismo se somou a esses instrumentos. Alojado na ideia de atualidade, contudo, nem sempre foi ou é capaz de perceber suas relações com a construção da memória coletiva, da vida social e de que forma essa atuação implica num dever para além de trazer à tona o relembrar, mas um compromisso de não esquecer – e, não esquecendo, fazer justiça ao que passou e ao que ainda está aí. 

Essa responsabilidade, sobre a qual pouco se fala, pode ser definida como dever de memória, obrigação que guarda laços estreitos com a percepção ética da profissão. Tal visão percebe a atividade jornalística não apenas como uma produtora de lugares de memória, baús que se reviram em busca de artefatos de uma época e experiência, mas em muitas situações como uma práxis que oferece possibilidades de reparação a um outro, individualizado ou não. Do mesmo modo, diz respeito à inserção do jornalismo como um agente do interesse público, que passa é mais que um elemento de noticiabilidade. Dessa maneira, o dever de memória trata-se também do dever de não esquecer, como afirma o professor Leandro Lage, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mas o que não esquecer? 
Crédito:Pixabay


É patente que uma vez registrado, seja pelo discurso jornalístico, seja pelo discurso histórico, um acontecimento é preenchido automaticamente por uma essência documental. Mas o banal será facilmente esquecido. Nas linhas e entrelinhas que caracterizam tanto a área do jornalismo quanto a da história, entretanto, alguns acontecimentos esperam. Esperam por seu fim, esperam pelo reconhecimento, esperam para serem encerrados. Esperam por menos descaso. Esperam pelo término do sofrimento que eles carregam. Esperam pela justiça, já falada aqui. 

Portanto, o dever de memória se endereça aos grandes acontecimentos do trauma social, à vontade de não permitir que eles escorreguem para o abismo sem encontrar desagravo. Refere-se às dores e lutos coletivos. O jornalismo precisa lembrar que há muitos esperando: Mariana, Brumadinho, Meninos do Ninho do Urubu, Boate Kiss, Chacina da Candelária, Marielle Franco, Ditadura Militar, Dia do Fogo... Casos com iniciais maiúsculas, que não acabaram, que continuam dia após dia. 

Baseando-se nesse dever, quem sabe, a conhecida frase “para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça” possa achar espaço no caminho do tempo do jornalismo como mais que uma revisitação, como uma ação consciente com implicações reais. Não é o caso de tirar um instantâneo do passado, mas de urdir futuros possíveis, reconhecendo o lugar transformador e político da memória.

Crédito:Reprodução / Facebook

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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