Opinião: "Guerra narrativa: Greta Thunberg e jornalismo", por Rafiza Varão

Rafiza Varão | 27/09/2019 12:42
Greta Thunberg, a ativista sueca ainda menina, é filha do século XXI, quase tão jovem quanto ela. É filha de um século que não guarda utopias, ri de pretensões muito idealistas e cunha desilusões traduzidas continuamente entre as novas gerações pelo self-hatred, termo que designa baixa autoestima e antipatia a si mesmo – e que aflui em postagens de auto-depreciação online. Mas Greta parece diferente de seus mais próximos contemporâneos, confiante em si e nos ideais que a movimentam. Pelo menos até agora. Até a recente onda de, permitam-me, others-hatred. Desde sua chegada aos Estados Unidos (coincidência?), em 28  de agosto, Greta vem sendo enredada não apenas em fake news, mas na guerra narrativa incansável do lado de cá do Atlântico. Até mesmo em terras tupiniquins. E, quem diria, até mesmo pelo jornalismo brasileiro. 

Aquilo a que chamamos guerra ou, num tom mais leve, disputa narrativa diz respeito ao uso político deliberado da distorção da realidade para o alcance de consensos forçosos, alinhados à ideologia daqueles que a propagam. É nesse lugar pantanoso em que gostariam de atrelar a embarcação de Greta. 

Primeiro, a ativista foi atacada por ter Síndrome de Asperger, dentro do espectro autista, e viu essa particularidade ser usada para anular suas competências. Mais que isso, a síndrome de Greta tem sido fonte de insultos. Nessa semana, o analista político Michael Knowles a chamou de mentalmente doente na FOX News. No dia 25 de setembro, o jornalista Rodrigo Constantino, em fala na Jovem Pam, disse que Greta era retardada, além dizer que ela o desrespeita em sua inteligência, num nível muito pessoal (embora não haja indícios que ela o conheça). 

Há também as fake news. Greta seria neta ou patrocinada pelo magnata húngaro-americano Georges Soros, que hoje encarna a figura da vilania em diversas teorias conspiratórias. Uma foto da adolescente ao lado de Al Gore, ex vice-presidente dos Estados Unidos e um dos líderes do movimento contra as mudanças climáticas, foi adulterada de forma a comprovar a proximidade entre Greta e Soros. Na adulteração, o corpo permanece sendo o de Gore, mas o rosto foi substituído pelo do avô de mentira de Greta. Recentemente, ela foi colocada como produto incomprável, pelo jornalista Luís Ernesto  Lacombe, da Band, cujo julgamento se deu exatamente a partir dessa associação. 
Crédito:Reprodução
Greta e Al Gore
Crédito:Reprodução
Montagem com George Soros


No Brasil, Greta vem circulando em tuítes e grupos de Whatsapp ostentando seus privilégios, almoçando na Dinamarca, diante do olhar de crianças em situação de miséria, enquanto viaja de trem. A imagem, que chegou a ser compartilhada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro em sua página no Twitter, é grosseiramente editada, substituindo árvores em um lugar remoto pela ideia de que Greta não se importa de fato com a humanidade.  
Crédito:Reprodução
Tuíte de Eduardo Bolsonaro

Crédito:Reprodução
Foto original

Neste caso, a mal-acabada e risível montagem deu pouca margem para a dita mídia tradicional poder tomá-la como realidade. Contudo, para além das fake news, é necessário nos perguntarmos o que tem levado jornalistas, profissionais de informação, a achincalharem Greta Thunberg, como se a eles fosse permitido não só a hidrofobia escancarada contra ela, mas sua difamação? 

Se Greta fosse usada, se fosse peça de um grande esquema de manipulação, nada disso validaria a agressão e o cyberbullying que vem sofrendo, em geral de homens adultos, com poder. Não está em jogo se ela deve ser um produto bem aceito pelo mercado e comprada. Pelo contrário. Greta tem só 16 anos. Sua existência, agora parte dos noticiários, deveria ser protegida, como deve ser a de quem ainda está em formação. Greta é alguém cujos direitos os jornalistas devem resguardar, por quem devem lutar. Vê-los no lugar daqueles que, irresponsavelmente, ateiam álcool ao incêndio virtual, nos leva não apenas à compreensão de uma incapacidade individual dos profissionais, mas de uma falência da ideia própria de jornalismo, que não está no mundo para entrar, de gaiato, na disputa narrativa. Seu lugar é outro. Leiam o artigo 6º de nosso código de ética. Todo. 

Crédito:Reprodução Facebook
*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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