Opinião: "Procurando a realidade em tempos irreais", por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 10/09/2019 14:01
Verdadeiramente vivemos em tempos interessantes. Recente reportagem da revista Scientific American explora o tema de como vivemos no mesmo universo, e ainda assim encontramos realidades diferentes. Diariamente somos bombardeados com questões polêmicas. A Amazônia está em chamas, afetando o futuro do planeta. A censura foi o maior elemento de marketing da Bienal do Livro do Rio nos últimos anos. A inteligência artificial será a salvação da humanidade, mas ao mesmo tempo irá acabar com a liberdade dos humanos. A China será a próxima grande líder mundial, desbancando a hegemonia norte-americana do capitalismo e da liberdade. A tecnologia 5G transformará o mundo dos negócios, destruindo milhares de empregos. O Brexit é o produto de um erro da democracia na era das redes sociais, entre tantos outros assuntos mundanos, que constroem nossa sensação de pertencimento, e nos impulsionam a um posicionamento crítico.
Crédito:Pixabay

Porém, a ciência básica da comunicação ilumina as raízes profundas desse fenômeno da construção de um mundo politicamente correto. Evidências crescentes da neurociência indicam que nossas percepções não são representações diretas do mundo externo. O cérebro humano, com suas características únicas e individuais, faz suposições sobre a realidade com base nos sinais sensoriais que recebe. Ainda assim, não há dúvida de que fatores específicos desta era moderna estão exacerbando nosso descontrole coletivo. Os desenvolvimentos tecnológicos favorecem a distorção da verdade e a normalização das mentiras. Está cada dia mais difícil saber no que acreditar. As mídias sociais amplificam as informações tóxicas em uma escala sem precedentes. A incerteza no mundo nos torna ainda mais suscetíveis a essas informações.  

Os cientistas dizem que a realidade é construída pela nossa mente. Não vemos as coisas como elas são, as vemos como somos. Desta forma, nossas percepções vêm de dentro para fora tanto quanto, ou mais, do que de fora para dentro. Em vez de ser um registro passivo de uma realidade objetiva externa, a percepção surge como um processo de construção ativa. Um tipo de alucinação controlada. De tempos em tempos surgem questões que movimentam multidões. Anos atrás surgiu uma fotografia mal exposta de um vestido que parece azul e preto para algumas pessoas, e branco e dourado para outras. Ou a ilusão mais antiga da bailarina, onde alguns afirmam que veem a figura rodar no sentido dos ponteiros do relógio, e outros no sentido contrário. O que podemos falar para aqueles que veem diferente de nós? O que chamamos de alucinação, então, é apenas uma forma de percepção descontrolada, assim como a percepção considerada normal é uma forma controlada de alucinação.

As diferenças de opinião começam pequenas, e são reforçadas à medida em que coletamos conhecimentos de maneira diferente, selecionando informações que estão mais alinhadas com nossos modelos individuais e nossos julgamentos de mundo. Atualizamos diariamente nossos modelos e nossas convicções com base em dados tendenciosos. Afinal, todos nós estamos familiarizados com esse processo nas câmaras de eco das mídias sociais, nos jornais, nas revistas, que escolhermos ler, e nos noticiários do rádio e da TV que escolhemos ouvir e assistir.

Se o modelo social foi complexo até esse momento, pior será com a aplicação de experiências modernas que a tecnologia irá nos proporcionar. A tecnologia 5G será tecnicamente alucinatória. Em um campo de aplicação, chamado de “realidade aumentada”, teremos experiências interativas de um mundo real, onde objetos que residem neste mundo são “acentuados” por informações perceptivas criadas por computadores, incluindo interferências visuais, auditivas, somatossensoriais e olfatórias. A realidade aumentada altera o contexto e a imagem real do usuário, da mesma forma que as mídias fizeram com nossa sociedade até aqui. Se encontramos dificuldade em convencer as pessoas influenciadas por informações falsas e mentirosas atualmente, imagine como será quando as convicções forem criadas e reforçadas com percepções muito mais interativas. 

Nesse novo mundo que construímos todos os dias, nosso atual desafio não será a busca pela verdade, mas a procura pelas melhores perguntas. Realizamos experimentos porque ignoramos algo e queremos aprender mais, mesmo sabendo que algumas vezes esses experimentos fracassam. Faz parte do processo evolutivo. Mas o que aprendemos com nossa ignorância e fracasso abre novas questões e novas incertezas. São perguntas melhores que levam a novos experimentos. Desta forma, devemos refletir sobre quais informações estamos selecionando e enviando ao cérebro. Sempre existirá pontas soltas e pequenos becos sem saída. Todas as vezes que pensamos que algo está esclarecido, haverá algo novo e inesperado a ser pesquisado. Em um tempo onde a grande maioria das pessoas está cada vez mais convicta e cheia de certezas, defendo o valor na dúvida. O ceticismo é uma excelente oportunidade. A verdade e a realidade nunca serão únicas, pois cada um tem a sua.

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Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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