Opinião: “Transmissão de jogos em estúdio sacrifica a emoção – e o jornalismo”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 26/08/2019 10:55
Crédito:Álvaro Jr./Divulgação LBF
Disputa entre Campinas x Sampaio pelas finais da LBF


O telespectador brasileiro apaixonado por esporte, qualquer que seja a modalidade, está sendo castigado pelas transmissões feitas do estúdio das emissoras, e não mais in loco. Por economia, ou por aposta que a disponibilidade de câmeras em todos os cantos e novas tecnologias informacionais dispensam a presença física, raramente são enviadas equipes completas para os locais de disputa. No máximo, um repórter ou uma repórter, além dos profissionais que cuidam da captação de imagens e áudio.

Narradores e comentaristas se veem forçados a relatar fatos que ocorrem à distância. Assistem a tudo por uma tela e contam a torcedores que estão diante de outra. Por mais que se esforcem, narradores e comentaristas não conseguem traduzir a emoção do campo, simplesmente porque não estão a experimentá-la, a vivenciá-la. São apenas observadores.

O que o esporte mais tem de espetacular – a emoção propriamente dita – se perde no ar. É sacrificada também, e principalmente, a informação.

Porque, quando está em sua poltrona, diante da televisão, o que o telespectador mais anseia é saber de tudo o que se passa na arena de disputas. Quem está aquecendo para entrar, o que o técnico está apontando, o comportamento da torcida, uma movimentação diferente da equipe – detalhes que narradores e comentaristas só conseguiriam perceber e compartilhar se estivessem presentes. Do estúdio, veem recortes, não o todo. Palavras, gestos, acontecimentos únicos, que escapam ao enquadramento do vídeo, mas que narradores e comentaristas poderiam flagrar. Qual nada. Enclausurados em seus estúdios, ficam tão vendidos quanto o torcedor em casa.

Exemplos há aos montes. Narrador gritando o gol, enquanto o bandeirinha levanta o instrumento, assinalando impedimento. Inversão do “cinco-um” no vôlei passando batida pela equipe de transmissão, mas já percebida pelo telespectador. As exclamações da plateia nas apresentações de ginástica, de patinação, que poderiam ser combustível para a transmissão, ficam de fora. A transição rápida defesa-ataque no basquete, incendiando a torcida, chega fria à televisão.

Perde-se ou não se perde qualidade de informação?

Um exemplo: estão em andamento as finais da Liga de Basquete Feminino, a LBF. Cinco atletas que conquistaram pela seleção o ouro nos Jogos Pan-Americanos, depois de 28 anos, estão em quadra, pelas equipes finalistas – Campinas e Sampaio Basquete. O pódio internacional reacendeu o interesse, dos aficionados em esporte, pelo basquete feminino. O ginásio na cidade paulista, que recebeu as duas primeiras partidas da série melhor de cinco, estava abarrotado. Porém, a transmissão pelo canal que tem os direitos, a ESPN, bem modorrenta.

Não por culpa da repórter de campo, ou do narrador e da comentarista (a ex-jogadora Helen Luz, que entende do riscado), que estavam no estúdio. Pelo contrário, esforçavam-se para passar os detalhes. De um estúdio, todavia, como dito. Não estavam impregnados, envolvidos, na efervescência do acontecimento.

Se é por economia (não gastar em diárias, hospedagem, transporte, horas extras) é uma economia tiro no pé. Porque as transmissões perdem em graça e, consequentemente, em audiência. Perdendo em audiência, difícil captar anunciantes – recursos, pois. Tem-se um círculo vicioso.

Uma pena. Castigam-se profissionais, castigam-se torcedores, castiga-se o esporte. Castiga-se o jornalismo esportivo.

Crédito:Arquivo pessoal
*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.

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