Opinião: "O 'shownalismo' contemporâneo na Amazônia", por Enderson Oliveira

Enderson Oliveira | 21/08/2019 14:55
Crédito:Arte - PV Dias/ @palovitu


O dia 23 de julho de 2019 pode ter sido bom, ruim, inesquecível, marcante ou mesmo indiferente para você, caro leitor. Para o Jornalismo na Amazônia, no entanto, acredito que tenha sido histórico. Foi nesta data, às 17h45 (horário do Amazonas) que estreou na TV A Crítica o apresentador Sikera Jr.

Com trejeitos caricatos, propositalmente exagerados e intercalando em suas performances diálogos e ações dignos de “comédias pastelão” e discursos de ódio contra criminosos – ou ainda suspeitos –, o apresentador pernambucano chegou como “pop star” à emissora amazonense.

Este texto, no entanto, não é sobre (o efeito) Sikera Jr., mas sim sobre o que sua persona e sua contratação por uma TV da região Norte indica (tal qual o sentido da semiótica peirceana mesmo) a respeito dos rumos do jornalismo mais popular(esco), contemporâneo, ou ainda, para regozijo dos mais apocalípticos, sensacionalista.

A chegada de Sikera parece ser a “cereja no bolo” que faltava na produção jornalística amazônica, por vezes constrangedora e violenta ou ainda apressada e exagerada. Você gosta de cereja?


Pois bem, caro leitor, sigamos e lembremos que o “sensacionalismo” não é uma prática condenada diretamente nem pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Há, contudo, a normatização quanto à produção e divulgação dos conteúdos, que deveriam ocorrer do modo mais direto e claro – segundo o código. 

O artigo 2° afirma, por exemplo, que “a divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de divulgação pública, independente da natureza de sua propriedade”, enquanto o 3° aponta para o fato de que “a informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo”. Cabe ainda destacar o artigo 13, o principal nestas discussões, que prevê que “o jornalista deve evitar a divulgação dos fatos com interesse de favorecimento pessoal ou vantagens econômicas; e de caráter mórbido e contrários aos valores humanos”. Ora, não é raro ver em programas de TV, páginas na web ou cadernos policiais tal conteúdo mórbido e mesmo contrário aos valores humanos. A morte, quanto mais violenta e insólita, mais atraente será e mais será em convertida em audiência.

Para começarmos a refletir um pouco mais sobre isto, vale também lembrar o interessante alerta de Márcia Franz Amaral, ao afirmar no artigo “Sensacionalismo, um conceito errante”, que “que o sensacionalismo é historicamente recorrente e manifesta-se em vários graus e de diversas maneiras, por isso não devemos tratar do fenômeno in totum. Rotular um jornal de sensacionalista é enfatizar, de uma maneira geral, que ele se dedica a provocar sensações, prática hoje generalizada”.

Indo além, cabe lembrar que desde a origem do “jornalismo” (ou prática semelhante) mais popular, ele sempre esteve envolto em exageros ou mesmo adaptações estéticas para atrair mais (o) público, com os pasquins e gazetas nos séculos XVII e XVIII. De algum modo, parece que sempre houve a famosa lógica do “aumento, mas não invento” que pode ser questionável, é claro, mas, na prática de mercado, sem os pudores dignos de um foca de 1º semestre, não é algo completamente condenável.

Mais que isso: ainda se atentarmos ao trecho de Amaral, vemos que o jornalismo contemporâneo, na plataforma que for, busca de fato provocar sensações nos espectadores e leitores. Uma sensação, como se sabe, provoca uma reação e ela pode vir como um sorriso leve ao ver algo que beira o ridículo na TV ou ainda com clicks em links de matérias, gerando receita para o autor e/ou aquele veículo.

Na Amazônia, vemos que não faltam exemplos disto. Comecemos pela série Bandidos na TV, da Netflix. Ela mostra a história de Wallace Souza, um ex-policial militar, que se tornou um dos principais apresentadores de TV em Manaus nos anos 1990. À frente do Canal Livre, ajudou a fortalecer um formato de programa com notícias policiais recheado também de cenas bizarras e humorísticas, como a briga memeficada entre um possível vendedor de esfirras e um fantoche (e quem o conduzia, é claro). 

Com tanto sucesso, Wallace se tornou candidato e foi eleito por duas vezes deputado estadual, sempre com número expressivo de votos. Ele só deixou a Assembleia Legislativa do Estado após ser cassado, em 2009, acusado de envolvimento em parte dos assassinatos que mostrava em seu programa de TV. Impressionante, não? 


Manaus, outrora uma das capitais da Amazônia na Belle Époque tupiniquim ao lado de Belém, despontava então como cenário ideal para o surgimento de apresentadores-herois que, se não cometem crimes, ao menos os comemoram, afinal a execução de um suspeito ou condenado não deixa de ser um assassinato, por exemplo. O público, carente de heróis na terra sem lei, rei e rumo na pós-modernidade, aplaude, os levanta à condição de ídolos e reproduz os discursos em uma catarse midiática que deve ser melhor observada de forma diacrônica.

Isto não ocorre somente lá, obviamente. No Pará, por exemplo, chama a atenção a relação entre humor e relatos sobre casos de violência, como se o primeiro ajudasse a suavizar o segundo – ou mesmo ambos se tornassem um só. Neste sentido, um caso é digno de nota: a célebre entrevista do então repórter e hoje apresentador Luiz Eduardo Anaice com o suspeito de cometer crimes conhecido como “Come grilo”, que já fortalecia o tom de humor e ironia às investigações delituosas (vale também assistir ou rever outras coberturas, como as prisões de “Alanzinho Maniçoba” e da youtuber “Leona, a assassina vingativa”). Neste momento, se atentarmos bem, os casos em si parecem ser diminuídos, praticamente suspensos, abrindo caminho para o show (de horrores, não raramente) que é criado sobre aquela investigação. É engraçado, catártico, consumível com prazer em geral na hora do almoço (que sabor!).


Assim, nestes programas, que se repetem em outros estados do Norte e mesmo do país, há uma lógica curiosa que você já deve ter notado: a violência e os discursos de segurança e de ódio caminham lado a lado com intervenções de personagens populares e caricatos ou ainda pessoas pouco conhecidas que não desenvolvem alguma ação muito talentosa no programa, mas provocam risadas – lembra do Sikera Jr.?

Nos portais de notícias, a lógica não é diferente. Pelo contrário. Talvez seja até mesmo intensificada devido seu caráter hiper e multimidiático. Na cruzada pela conquista da atenção do leitor por alguns segundos ou minutos e caça aos likes tão necessários para a manutenção de toda a cadeia de comunicação e de negócios do Jornalismo, não raramente se apela para títulos chamativos que atraem a atenção pelo exagero ou mesmo ambiguidade em termos e expressões.

O que pode “revoltar” alguns leitores em um primeiro momento, ao mesmo tempo dá margem para a compreensão de dois pontos: o primeiro é a caracterização/ compreensão natural de que aquele portal de notícias é “exagerado” (para alguns, de forma mais apressada e rasteira, sensacionalista), o que pode gerar uma reação mais tensa e agressiva, como também mais bem-humorada por parte de quem o consome. Segundo: ainda que se reconheça isto, é possível seguir clicando nas matérias para acessá-las e, assim, de fato ler e entender do que trata aquele conteúdo que em um primeiro momento (propositalmente) não ficou tão claro.

Esta prática, pensando no mercado do jornalismo contemporâneo, não surge ao acaso. Lembremos que o jornalismo na web possui as zonas jornalística e publicitária, discutidas por Francisco Belda, em artigo publicado no livro “Jornalismo e Convergência”, de Marcelo Engel Bronosky e Juliano Maurício de Carvalho.

Tais áreas agregam não somente espaços destinados a cada um dos conteúdos, mas também instigam novas práticas para a captação de leitores/ consumidores, por vezes baseadas em modificações estéticas que chamem sua atenção. Por vezes, no entanto, essa cadeia termina rompendo a margem do aceitável (como a utilização de títulos ambíguos ou mesmo “exagerados”, por exemplo, que não passam de uma escolha estética e que se aproveita da polissemia da língua portuguesa) e ultrapassa até mesmo imites éticos, jornalísticos e humanos, como quando um portal de notícias de Manaus publicou um vídeo, sem tarja ou adaptação alguma, de uma pessoa tendo o coração arrancado por membros de uma facção rival, segundo a notícia.


Também podem ser inseridos neste contexto a comemoração de “CPFs” cancelados e as recentes chacinas em presídios, como em Manaus em 2017 e em Altamira, interior do Pará, em julho deste ano, que tiveram coberturas “assustadoras”, com a divulgação de imagens macabras – até mesmo em portais nacionais, é verdade, como a Folha de S. Paulo


Em uma região marcada por altos índices de violência urbana e no campo, por vezes tudo isto, no entanto, já nem choca mais. Não é tão raro ver fotos ou vídeos de pessoas mortas, por vezes até agonizando ou mesmo sendo assassinadas. Faz parte do cotidiano e do “shownalismo” da região. É desumano, erado, condenável, porém chama a atenção do público, compõe o conteúdo hipermidiático e “rende” audiência, acessos e tempo de permanência em páginas na web.

Tal modelo não é adotado somente em portais do Amazonas ou Pará. Alcança os outros Estados da região, obviamente, ainda que por vezes se desconheça tanto a Amazônia e sua produção jornalística, ampla e diversificada, atenta a tendências do mercado (dentro do que é possível acompanhar), inclusive com os conteúdos aqui discutidos neste texto.

Ainda assim, a Amazônia segue “misteriosa” para os brasileiros e seu jornalismo até mesmo para nós, amazônidas, embora não seja difícil notar que a velha visão de que a região é um “El Dorado” parece seguir presente. Agora, no entanto, não pela idealização por sua área verde cada vez mais destruída ou pelos minérios em profusão, mas como uma terra a ser (mais) explorada (ainda) por possuir um potencial gigantesco de investimento e retorno em forma de mais audiência e acessos.

Crédito:Ruan Cardoso

*Enderson Oliveira - Professor, jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutorando em Sociologia e Antropologia. Belém do Pará, Amazônia. Site: http://endersonoliveira.com | Instagram e Twitter: @o_enderson_

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