Opinião: “A hora de o jornalismo mostrar para que e a quem serve”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 31/07/2019 11:19
Diariamente, e várias vezes ao dia, estamos sendo bombardeados por uma série de absurdos proferidos pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, e seus ministros. Falas que alimentam a tsunami de desinformação reinante e a onda de ódio instalada na sociedade.

Podemos listar algumas: ofensas a mortos e desaparecidos durante a ditadura, negação da existência do próprio regime ditatorial, insinuações contra jornalistas, militantes, pessoas que pensam diferente dos atuais donos do poder; recusa a assumir desmatamento da Amazônia; desqualificação das universidades públicas; demonização de indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais sem terra... A enciclopédia de aberrações tem verbetes de A a Z.
Crédito:Vitor Moriyama/Instituto Socioambiental
Indígenas do povo Wajãpi, que estão sendo perseguidos com a conivência do discurso oficial

A saída? Por vários caminhos, entre eles por meio de uma imprensa que assuma o compromisso de informar. De ser fiel à realidade factual. Uma imprensa que não se esconda na desculpa da isenção para se omitir em momento tão crucial para a nação brasileira. Não existe “isenção”, “parcialidade” quando o que está em jogo são valores humanos essenciais, quando o que está em jogo é a democracia, quando o que está em jogo é o processo civilizatório. Isentar-se, não tomar lado é, na prática, fortalecer o lado da brutalidade.

É a hora de o jornalismo mostrar para que serve. Mostrar que serve para informar. Para informar que sim, os fatos e os dados mostram que vivemos sob ditadura entre 1964 e 1985. Que no período houve sim tortura, desaparecidos e mortes por razões político-ideológicas. Para informar que já havia indígenas antes de o colonizador chegar aqui e fundar o que chamamos hoje de Brasil, e que um ataque a uma aldeia não é “conflito”, é ataque. Que este país foi construído sobre o trabalho forçado, escravo, dos negros. Que a usurpação da terra e a inexistência de uma reforma agrária mínima estão na raiz das nossas mazelas sociais.

É a hora de o jornalismo mostrar a quem serve. Aos fatos, aos dados, aos direitos humanos, às regras básicas de civilidade, ou a interesses outros os quais para se estabelecerem não medem consequências, passam por cima de valores elementares de humanidade. Ainda aposto no bom senso, na lucidez. Entre outras instituições e atores sociais, esperemos que a imprensa exerça seu papel. Do contrário, será cúmplice dos caos em que nos aprofundarmos.

Crédito:Arquivo pessoal

*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (
www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.

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