Opinião: “Ghost Writer: o não fantasma”, por Daniela Barbará

Daniela Barbará | 30/07/2019 11:26
A ficção me apresentou José Costa. Ele surgiu da cabeça de Chico Buarque e se tornou na minha vida o primeiro ghost writer que “conheci” nas páginas do romance Budapeste, lançado em 2003.

Como jornalista que sou, me despertou a curiosidade para saber mais sobre esse profissional tão silencioso com uma carreira tão respeitada. Por isso, resolvi entrevistar um escritor fantasma que atua também em várias frentes da comunicação.
Crédito:Pixabay

Como é buscar referências e o tom certo para cada texto?

Várias condições precisam ocorrer para tanto. Para buscar referências, é preciso conhecer os dados, as posições e os pontos de vista da pessoa, entidade ou empresa para quem você formula os textos. Em relação a essas informações, é necessário adquirir conhecimento e estar constantemente atualizado.

O tom mais adequado para cada texto surge deste embasamento anterior, do diálogo permanente com seu contratante, e o feedback que você vai obtendo, ou seja, as reações dos públicos-alvo ao que se comunica.

Todo cuidado é pouco. Certa vez, em um artigo de opinião para determinada entidade, critiquei medidas contraditórias do governo, qualificando-as de esquizofrênicas. O artigo levou um pito público de uma associação que reúne familiares e portadores de esquizofrenia.

Às vezes você é pressionado para utilizar contundência, fazer críticas ácidas e até ofensivas em seus textos. Mas o efeito poderá acabar sendo prejudicial à pessoa, entidade ou empresa que o pressiona para tanto. Nestes casos, o tom certo é aquele que não deixa de dizer o que deve ser dito, porém de forma civilizada.

Qual o seu processo para escrever tanto longos textos quanto pequenas declarações?

O processo é o mesmo descrito acima. Claro que em textos longos será necessário se aprofundar nos temas. O importante em ambos os casos é ser objetivo, conciso e didático, não “encher linguiça” nem cansar o leitor.

Como é a sensação de apontar o que os outros estão “falando”?

A função do “ghost”, vista de fora, pode parecer estranha. Lembro que há muitos anos, uma sobrinha, ao inteirar-se de que eu redigia artigos de opinião para terceiros, horrorizou-se. Como eu me sujeitava a escrever opiniões que não são necessariamente as minhas?!

A questão é importante. O “ghost” é um profissional que maneja ideias, conceitos, palavras e textos, com a facilidade que não necessariamente tem quem o contrata – e para tanto, o contrata. Mas ele deve refletir quando lhe pedem algo que considere contrário a seus princípios.

Algumas vezes, poucas é verdade, me deparei com situações em que me pediam para escrever não só opiniões diferentes, mas antagonicamente opostas às minhas. Na maioria destas vezes tive a satisfação de conseguir argumentar com quem me contratava e essas opiniões acabavam não sendo expostas ou sofriam modificações.

Mas também houve uma ocasião em que eu trabalhava como pauteiro para um programa de entrevistas na TV. Este programa foi extinto, e em seu lugar colocaram um programa de variedades. O apresentador deste novo programa, pessoa com opiniões que jamais seriam as minhas, pediu-me para escrever um editorial que ele leria sempre no início. Tema livre, disse. Escrevi, e fui demitido no dia seguinte.

Você considera esse trabalho solitário?

O momento da redação é solitário, mas isso não significa que o trabalho o seja. É importante você estar permanentemente em contato com quem te contrata, buscar informações em outras fontes, e estar atento aos feedbacks. 

Qual a parte mais difícil ou complicada do trabalho?

É quando você se depara com um tema sobre o qual tem escasso ou nenhum conhecimento. É sempre muito importante que você compreenda bem o que seu contratante quer dizer, e não raro ele também não dispõe de informações completas ou até mesmo suficientes para que o trabalho seja desenvolvido.

Pesquisar é fundamental, e também conhecer pontos de vista diferentes ou contrários às posições de seu contratante. Mais uma vez, conhecer os temas e manter-se atualizado é essencial para o bom desempenho da função.

Qual a sua satisfação pessoal com essa incumbência?

A maior satisfação é quando os textos obtêm reconhecimento tanto do contratante como dos públicos-alvo. Você sentir que está realizando algo que traz benefícios não só para quem quer se expressar por meio de suas palavras, mas para tornar o país um pouquinho melhor para todos.

Alguma curiosidade que gostaria de comentar?

Durante quatro anos, trabalhei para um contratante extremamente rígido, produzindo textos semanais que ele sempre me devolvia com observações ou um seco “publique-se”. Em uma única vez, ele me devolveu um texto com um “Bom!”. Guardo ele até hoje.

Crédito:Arquivo pessoal
Sobre a autora: Minha base profissional veio do jornalismo econômico impresso e online. Depois entrei no setor de comunicação corporativa e nunca mais parei. Parte do meu trabalho nos últimos anos foi encontrar oportunidades de levar a comunicação dos meus clientes aos seus públicos-alvos da melhor forma possível, sempre com o alinhamento de comunicação e de expectativas. Durante três anos intensos da minha vida trabalhei com aviação civil e aprendi na prática a arte do gerenciamento de crise e de viajar à trabalho. Acredito que a boa comunicação é capaz de mudar o mundo, as empresas e as relações entre pessoas. Há mais de vinte anos trabalho com comunicação das mais diversas formas. Participo há alguns anos do Comitê de Capital Humano na Câmara Sueca. Atuo há mais de quatro anos voluntariamente como coordenadora do Grupo de Trabalho de Recursos Humanos da Abracom. Ministro palestras, aulas e workshops sobre Gerenciamento de Crise e Assessoria de Imprensa para interessados no tema e alunos de graduação e pós-graduação. Dúvidas? Me escreve: danielabarbara2012@gmail.com

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