Opinião: “Deu no Twitter”, por Rafiza Varão

Cada vez mais comuns, notícias que repercutem falas nas mídias sociais se afastam de jornalismo de qualidade e se aproximam de antigas práticas

Rafiza Varão | 29/07/2019 13:52
Crédito:Pixabay


Uma busca rápida pela aba Notícias, do Google, não nos deixa mentir: boa parte do que se chama de notícia hoje passa por publicações no Twitter, em geral de indivíduos sem ligação com a prática profissonal do jornalismo, mas cientes de seu poder. “Disse no Twitter”; “Declarou no Twitter”; “Afirmou no Twitter”; “No Twitter, Fulano desmente”. Títulos noticiosos como esses, com a mídia do passarinho azul em destaque, têm se tornado cada vez mais comuns. A cotidianidade com que recebemos essas informações talvez obscureça, para muitos, o fato de que, ao noticiar o que se publica na plataforma, se produz menos jornalismo do que pretendido. Ganha mais (no sentido figurado ou nem tanto) o tuiteiro do que a imprensa.   

Lugar comum nas análises sobre a web e as mídias sociais, sabe-se que uma das mais fortes características da internet é a de se afastar do padrão dos meios de comunicação tradicionais. Como aprendemos, estes funcionavam em apenas uma via, com a mensagem sendo encaminhada por emissoras e editoras, sem a possibilidade de atuação dos receptores em suas operações. Uma vez receptor, sempre receptor. Com os meios digitais em rede, esse esquema foi alterado sob muitas formas, possibilitando, sobretudo a partir das mídias sociais, que o outrora receptor passasse a ser, ele mesmo, um emissor. Se antes o alcance da sua voz poderia chegar até dez pessoas de seu convívio mais próximo, nesse exato momento seu discurso ecoa, na pior das hipóteses, em pelo menos mais 40 feeds iniciais, de amigos e conhecidos. 

Nesse caso, falamos especialmente do indivíduo comum, que usa as redes de um jeito modesto. É pouco procurado, é pouco conhecido. Entretanto, Twitter, Instagram, Facebook e quetais são também frequentados por gente que sempre esteve próxima dos jornais, como pauta, observada à distância ou de maneira relativamente próxima por jornalistas: celebridades e políticos. Também esses dois espécimes do variado espectro humano encontraram nas mídias sociais um reduto para subverter a lógica dos meios de comunicação de massa tradicionais. Deixaram de ser fontes para a realização de uma pauta para se transformarem em contínuos agentes de si mesmos, ao alimentar suas páginas dia após dia. 

Celebridades, acostumadas ao metiér das entrevistas e da exposição, abraçaram mais um espaço para a promoção de suas personas, sem a necessidade de atravessadores, exercendo um controle maior sobre o modo como sua imagem se constrói ante seu público. Eventualmente, deslizam na vigilância constante e produzem para si pequenas crises, superadas quase sempre pela paixão que seus fãs alimentam naquele mesmo ambiente em que a tormenta se levantou. Para elas e seus devotos, o “disse no Twitter” é pequena marola, até a próxima variação climática. Para o jornalismo, é muitas vezes um momento de conseguir cliques que o notíciário mais pesado não consegue alcançar. Nada que a imprensa de celebridades não esteja acostumada. 

Por outro lado, políticos atuam na instância da sedução, persuasão e disseminação de um posicionamento ideológico que carregam sob seu nome e suas siglas. Aqui, não se trata de movimentar a paixão em torno de um ídolo (embora saibamos que o fenômeno também acontece), mas de arrematar corações em torno de uma visão de mundo, contida naquele indivíduo, como se este fosse um estandarte dos valores de um eleitorado que está do outro lado da tela. 

Quando se trata de celebridades, as consequências de tantas emoções podem ser bastante passageiras, mas não se pode dizer o mesmo quando falamos da vida política, tecido do social. Portanto, a dimensão do “disse no Twitter”, nessa situação, pode vir a assumir proporções nefastas, se o jornalismo se limita a dar visibilidade ao que foi dito, ao que foi tuitado. Ao republicar esse tipo de conteúdo, sem apuração, contrapontos, detalhamentos e dados, os veículos jornalísticos se passam por assessoria de imprensa do tuiteiro, muito mais do que assumem papel independente. Redobram o impacto do que se diz estrategicamente. É necessário discernimento e comprometimento por parte de quem reporta e de quem edita.

Na classificação numérica de fontes, em que zero é a de maior credibilidade e três a menos credível, a classe política sempre ocupou o último lugar, por motivos óbvios. Explica o Manual de Redação da Folha de S. Paulo: “Fonte tipo três - A de menor confiabilidade. É bem-informada, mas tem interesses (políticos, econômicos etc.) que tornam suas informações nitidamente menos confiáveis”. Por que, justo agora, se publica o que foi dito como se houvesse valor jornalístico contido no nome de quem fala? Essa é uma armadilha que o jornalismo de qualidade deveria evitar.    

Além disso, tomar o twitter pessoal de quem quer que seja como fonte fidedigna e se sentar a escrever um texto a partir dessa premissa, se aproxima de outra atitude não muito respeitada no jornalismo, ainda que antiga: a de cozinhar (reescrever) uma informação que foi apurada por outrem. Em alguns contextos, mais do que cozinhar, incorre-se na repercussão de uma notícia plantada. 

Tuítes não são veículos de comunicação profissional, não são meios jornalísticos. Tuiteiros não são necessariamente fonte confiável, a despeito de sua posição na hieraquia social. O Twitter é um lugar de falas, de vozes, de relações, de estratégias, de manipulações, verdades e mentiras;  e é, sim, lugar de acontecimentos. Mas assim como na pauta que emerge fora do ambiente virtual, o que se manifesta nos seus poucos caracteres requer apuração e cuidado. Não basta apenas dizer: deu no Twitter. 

Crédito:Reprodução Facebook
*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

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