Opinião: "Fim de Mad deixa o mundo mais carola e mais careta", por Edson Aran

Edson Aran | 10/07/2019 13:53
Na primeira semana de julho, a DC Comics, que pertence ao conglomerado Warner Media, anunciou o fechamento da revista Mad depois de 67 anos. 

Mad foi criada em 1952 pelo editor Harvey Kurtzman na então EC Comics, de William Gaines. Mais do que uma publicação, ela foi um evento sociocultural, assim como a Playboy, fundada no ano seguinte. Ambas fazem parte do zeitgeist que produziu os beatniks, o movimento hippie, a contracultura, o amor livre e a irreverência como arma para enfrentar a carolice, a caretice e o conservadorismo. Hoje, esquerda e direita são igualmente reacionárias, mas em tempos mais civilizados, ser iconoclasta era um bônus, não um ônus. Bons tempos.
Crédito:Reprodução de capas da revista Mad

A influência cultural de Mad é gigantesca. No cinema, Mel Brooks, Jerry e David Zucker, Monty Python, Peter e Bob Farrelly. Na literatura, Kurt Vonnegut, Joseph Heller, Hunter Thompson. Nos cartuns não existe quem não tenha se inspirado em pelo menos um dos artistas da revista: Mort Drucker, Don Martin, Sergio Aragonés. Al Jaffee e Antonio Proíhas, para citar apenas alguns. 

Harvey Kurtzman, criador de Mad, foi um desenhista e roteirista muito bom, mas seu grande talento era editar. Definir claramente uma linha, juntar pessoas e conseguir que a expressão particular de cada uma forme um todo coerente não é tarefa das mais fáceis. A Mad original (1952-55) era um gibi que parodiava filmes, livros e histórias-em-quadrinhos. O texto era de Kurtzman e a arte ficava com Jack Davis, Wally Wood e principalmente Bill Elder, o mais anárquico deles, e parceiro predileto do editor. 

Em 1954, pressionada pela extrema-direita religiosa, a associação dos editores americanos criou o “Comics Code Authority”, que passou a tirar das bancas quadrinhos que não se enquadravam nas regras draconianas inventadas por eles. Para escapar dessa versão original do “politicamente correto”, Kurtzman planejou mudar o formato da Mad, já que as revistas “adultas” não precisavam de aprovação. A publicação virou uma sofisticada revista de humor, mas o dono, William Gaines, achou que era sofisticação demais. Depois de apenas quatro edições, ele trocou Harvey Kurtzman por Al Feldstein, que editava Panic, cópia da Mad publicada pela própria DC. Feldstein foi quem de fato moldou a revista. E fez isso muito bem, é fato, embora o caminho apontado pelo antecessor naquelas quatro edições fosse muito mais instigante. Kurtzman, no entanto, deixou como herança da nova fase o personagem Alfred E. Newman, que se transformou no símbolo da publicação.  

Fora da EC, Harvey Kurtzman foi criar a Trump (não confundir com o presidente), com Hugh Hefner. 

Inteligente e elegante, a revista acabou ficando cara demais. Playboy ainda enfrentava problemas financeiros e Hef desistiu da empreitada. Kurtzman então fez Humbug em 1957, onde produziu alguns de seus melhores trabalhos em parceria com Will Elder. 

Humbug durou três anos. Kurtzman e Elder foram contratados pela Playboy para criar a clássica HQ “Little Annie Fanny”, produzida regularmente por eles até os anos 80. Em 1960, porém, ele achou tempo para inventar “Help!”, que circulou até 1965 e é, depois de Mad, sua criação mais consistente. “Help!” misturava fotonovelas (com John Cleese e Woody Allen), textos, cartuns e reportagens em quadrinhos assinadas por Robert Crumb, Arnold Roth e Shel Silverstein.
   
Enquanto isso, Mad fazia cada vez mais sucesso sob o comando de Al Feldstein, que ficou lá até sua aposentadoria, em 1985. Depois disso, nada de muito memorável aconteceu na revista. Há quem defenda, no entanto, que a mudança da redação de Nova York para Los Angeles, em 2017, tenha sido o golpe fatal no título. O humor da revista, sob Kurtzman ou Feldstein, devia muito à sensibilidade novaiorquina, que é cosmopolita e iconoclasta. A Califórnia, por outro lado, tem sido a força intelectual por trás do “politicamente correto”, essa “nova forma de fascismo disfarçada de bons modos” (nas palavras do humorista George Carlin). Em 2017, Mad contratou um novo editor, Bill Morrison, que havia criado a Bongo Comics com Matt Groening, dos Simpsons. Morrison redesenhou o logotipo original dos anos 50 e começou a fazer barulho, como uma agressiva paródia de livro infantil que falava sobre mortes em escolas e controle de armas (dezembro de 2018). Infelizmente, a gestão dele acabou cedo demais com a decisão de descontinuar a revista. 
 
O mundo fica mais careta, carola e conservador sem a irreverência de Mad. A revista fez a parte dela, o mundo é que andou para trás. 
Crédito:Reprodução de capas da revista Mad

PS: para quem quiser se aprofundar no tema, fiz uma longa entrevista com o Ota, editor da Mad brasileira, para o site República dos Bananas. 

Crédito:Arquivo pessoal

*Edson Aran é redator-chefe da IstoéDINHEIRO. Jornalista, escritor e roteirista com grande experiência no mercado de revistas, Aran atuou não apenas como editor, mas também em planejamento estratégico, orientação em áreas de marketing/distribuição e controle de budget. É criador do República dos Bananas (www.republicadosbananas.com.br) e do Marcha da História, e autor de livros de ficção e não-ficção.

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