Opinião: “eSports, modalidade esportiva e suas controvérsias”, por Leandro Massoni

Leandro Massoni | 08/07/2019 12:11
Os jogos eletrônicos sempre encantaram a garotada mais nova desde gerações antigas. Nos primórdios dessa tecnologia voltada para o entrenimento, era comum chamar os amigos para tirar aquele “contra” no futebol ou em lutas (vide Street Fighter, Mortal Kombat, The King of Fighters, entre outros). Bons tempos eram aqueles regados a horas a fio de puro prazer em chegar em casa depois da escola, ir para a sala, ligar aquele game e sair pulando de fases, matando inimigos virtuais para salvar o mundo.

Caminhando com a mudança do mundo, os videogames mudaram não somente suas plataformas como também a percepção de muitos usuários acerca do que esse mercado conseguiu de abrangência nos últimos anos. Atualmente é possível dizer que os jogos eletrônicos vão mais além do campo do entretenimento. Isso porque o segmento passou a ser considerado como modalidade esportiva com a categoria eSports.
Crédito:Divulgação/Riot Games

Também conhecidos como ciberesportes, os eSports são alguns dos termos usados para as competições organizadas de jogos eletrônicos, especialmente entre os profissionais. Os gêneros de jogos mais comuns associados com esportes eletrônicos são os de RTS, luta, FPS e MOBA.

Na última terça-feira, 2 de julho, o Senado Federal aprovou uma lei que busca regulamentar os eSports no Brasil. O projeto tem como uma das principais medidas tratar os jogadores de games eletrônicos como atletas.

Após o texto ser aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), resta agora saber se a proposta será encaminhada à Câmara dos Deputados, caso não haja qualquer recurso para análise em Plenário.

Mesmo havendo uma regulamentação dos eSports que é considerada pelos parlamentares desde março de 2016, a nova modalidade tem despertado ares tendenciosos e muitas dúvidas referentes à sua prática. Os mais desavisados podem achar que agora com essa autorização, o fato de jogar o videogame convencional o torna um atleta apto para participar de eventos do segmento. Porém, existe a profissionalização, embora haja ressalvas quanto à prática deste esporte.

Para muitos jornalistas esportivos – talvez os mais antigos, considerados “dinossauros” da redação” – jogar videogame não se encaixa nem um pouco com praticar esportes, mesmo porque é uma atividade que não requer tamanhos esforços físicos, apenas um ótimo raciocínio e habilidades com o controle/joystick, além de conhecimento prévio do jogo e suas funcionalidades.

Pensamento esse refletido em alguns ex-atletas. A ex-jogadora de vôlei e senadora Leila Barros (PSB-DF) se posicionou contra o reconhecimento dos eSports como modalidade esportiva, inclusive votando a favor da exclusão de jogos violentos e sendo restritiva em relação ao competitivo de jogos eletrônicos. “Desculpa, isso não é esporte”, afirmou.

Ao defender que o eSports não deve ser considerado uma modalidade esportiva, Leila argumentou que o esporte “cessa qualquer tipo de conflito” e, para praticá-lo, é necessária “preparação” e a abdicação de “muito de sua vida”. Fatores esses vistos por ela como ausentes no setor de games e seus jogadores.

Fora do Brasil, um caso emblemático envolvendo um profissional contra a adesão dos jogos eletrônicos no universo esportivo aconteceu na ESPN nos Estados Unidos. Em 2015, Colin Cowherd, apresentador de canais esportivos de rádio e TV da emissora, ao ficar sabendo que um dos canais cobriu um campeonato de “Heroes of the Storm” por duas horas, isso enquanto os playoffs da NBA também aconteciam, porém na cobertura de outro canal, disparou:

“Se alguma vez eu for forçado a cobrir caras jogando videogame, eu vou me aposentar e me mudar para uma vila rural de pescadores e vender iscas. Vocês me querem fora? Demandem torneios de games na ESPN, porque isso é que apareceu na ESPN 2 ontem”.

Acreditando ser um legítimo representante do esporte, Colin reforçou aos ouvintes da rádio que o eSports trata-se apenas de “jogos” eletrônicos, e caso quisessem saber de esportes de verdade, teriam que ver Cuba e Estados Unidos “competindo dentro de uma quadra e cessando todo tipo de conflito”.

“Desculpa, isso (eSports) não é esporte, porque esporte tem uma preparação também. Tem que ouvir a comunidade esportiva também. O alto rendimento é isso, é uma entrega. Quem é do esporte abdica muito da sua vida, inclusive pessoal, para representar um país”, acrescentou.

Mais além de sua prática, o setor tem gerado a entrada de empresas do ramo esportivo que passaram a investir pesado em publicidade e marketing a fim de potencializar as marcas de equipes e jogadores no mundo.

Por exemplo, a Simplicity Esports, empresa que deseja expandir sua atuação nos eSports, observa com bons olhos uma parceria com a equipe ciberesportiva do Flamengo. Conforme apurado pelo ESPN eSports Brasil, o rubro-negro estaria com os documentos em mãos para avaliar uma proposta de licenciamento de marca com valores beirando os 11 milhões de reais.

Com a concretização desta proposta, a agremiação carioca passaria a ser a marca principal da Simplicity no ramo dos esportes eletrônicos, levando a camisa do clube para as mais diversas competições internacionais da categoria.

Enfim, discussões e análises sobre o eSports ainda continuarão a ser pauta nos principais meios de comunicação. Resta saber se aqui no Brasil, em um futuro próximo, as competições eletrônicas serão mais visadas do que as “modalidades de tração física” e o próprio futebol, que aliás, vive dias melancólicos com a falta de técnica e criatividades de seus times e atletas. Todavia, apesar de tudo que se opõe aos novos implementos tecnológicos, é de se admirar este mundo novo.

Crédito:Arquivo pessoal

Sobre o autor: Leandro Massoni é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Radioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Jornalista em Campo. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão, e lançou em 2019 o livro "Nacional: nos trilhos do futebol brasileiro".



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