Opinião: “Jornal impresso: eu acredito”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 20/06/2019 11:41
Estreei aqui no Portal IMPRENSA, em dezembro último, com um artigo em que botava fé na sobrevivência do jornal impresso. Apontei alguns caminhos, que já vinham sendo adotados por publicações do tipo, e outros, que considerava como a razão de ser dos diários e semanários em papel. Seis meses depois, porém, sou surpreendido como uma sequência de notícias arrasadoras, mesmo para os mais otimistas.

Por exemplo, esta de Anderson Scardoelli, no Comunique-se: "a crise do impresso chega a jornais gratuitos". Informa ele que o Metrô News, que eu via ser bem aceito pela manhã nas ruas centrais de São Paulo, estava encerrando sua versão impressa. Pior ainda: outro tabloide, o Metro, mantido no Brasil pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, acabou com as edições de Campinas, Brasília e Rio de Janeiro.
Crédito:Wagner de Alcântara Aragão

Em Curitiba, a equipe do Brasil de Fato (edição Paraná) lançou uma campanha de financiamento coletivo para continuar circulando – e, mais que isso, funcionando de maneira profissional. De Santos, porém, veio uma má nova: o Expresso Popular, tabloide do Grupo A Tribuna, também foi finalizado, depois de mais de 15 anos de existência.

Que tristeza. Que desastre, para nós, profissionais de Comunicação, e para a sociedade que vê diminuir ou enfraquecer o cardápio de fontes de informação.

Esse choque de realidade abalou. No entanto, passado o susto inicial, e com serenidade para fazer uma análise mais racional, o otimismo reacendeu. Não, não é o fim do jornal impresso.

Continuo apostando: o jornal impresso não só não acaba, como há demanda de leitores por publicações que lhes cheguem às mãos. É necessário que sejam publicações de conteúdo relevante, útil, com linguagem leve, prezando pela densidade do conteúdo. Jornais populares, jornais de bairro, jornais temáticos (esportes, cultura, saúde, educação), enfim publicações que encontrem seu nicho de interlocutores têm espaço para se estabelecerem.

Repito o que escrevi em dezembro: "Por fim, o aspecto mais importante: a qualidade do jornal impresso. Por qualidade me refiro à abordagem de assuntos de interesse coletivo, sob o ponto de vista do interesse público. À pluralidade de vozes. Ao respeito aos direitos humanos. Ao abolir de sensacionalismos, denuncismos oportunistas e partidários. Ao trazer histórias. Ao mostrar pessoas". E acrescento agora: por qualidade me refiro ao jornal impresso enquanto jornalismo raiz.

Com razão, alguns poderão questionar: uai, mas se há tanta oportunidade assim, por que não param de fechar jornais?

Tenho duas hipóteses, e uma não anula a outra, podem ocorrer de forma combinada: 1) o jornalismo que vem sendo praticado, em regra, está longe desse jornalismo que enxergo como caminho; 2) há um problema de gestão de negócios, de adaptação das empresas de comunicação - em termos de porte, estrutura, práticas - aos tempos de novas tecnologias informacionais; gestão problemática essa duramente impactada pela crise política e econômica que assola o país faz cinco anos.

Passada essa turbulência - ela deve demorar a ser superada, mas vai passar - é possível vislumbrar um cenário promissor. Desde que a busca por novos caminhos comece desde já.

Crédito:Arquivo pessoal
*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.

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