“É fundamental conversarmos sobre a violência e o assédio fora da nossa zona de conforto”, afirma Débora Madeira

Redação Portal IMPRENSA | 24/05/2019 11:37

Crédito:Arquivo pessoal

Ao escolher falar sobre o assédio na cidade de Mariana, a intenção de Débora Madeira dos Santos “foi propor uma reflexão e questionar as práticas de assédio contra mulheres na cidade”. Apesar de seu projeto inicial - uma intervenção urbana com lambe-lambes - ter sido vetado, ela seguiu firme com seu propósito.


Débora se formou em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto – Campus Mariana e, em entrevista ao Portal IMPRENSA, compartilha sua História de TCC.


Sobre o trabalho


Ao escolher falar sobre o assédio na cidade de Mariana minha intenção foi propor uma reflexão e questionar as práticas de assédio contra mulheres na cidade. Inicialmente, foi planejada uma  intervenção  urbana  com  lambe-lambes e, diante da impossibilidade de colagem do material no centro municipal, agreguei ao projeto uma discussão sobre o uso do espaço público e de suas possibilidades (ou não) de liberdade de expressão.


Para a estruturação do tema, trouxe discussões sobre a violência contra a mulher, considerando como ela se configura culturalmente no Brasil, em diálogo com autoras como Heleieth I. B. Saffioti (1994), Miriam Pillar Grossi (1994) e Maria da Conceição dos Santos (2015), que tratam da violência de gênero elencando os diferentes tipos de opressões.


A partir de uma discussão sobre a cultura patriarcal, o trabalho também se baseia na análise de Tânia Maria de Almeida (2004), a partir da qual a sociedade se ancora e justifica essas violências contra as mulheres.


Apesar de não poder executar a intervenção com os lambes em Mariana, discorro sobre o processo de produção dos lambe-lambes, definidos por Silva e Veneroso (2016) como cartazes de rua que ocupam o mesmo lugar do grafite, que são por si sós subversivos e, por isso, intrínsecos aos manifestos sociais e políticos. Considerando que esses veículos comunicacionais permitem levar uma mensagem complexa e cheia de nuances a um grande número de locais, ele foi escolhido com o intuito de  instaurar  discussões  e  gerar diálogos sobre o cotidiano nas ruas de Mariana e como se configuram as práticas de assédio na cidade.


Também faço uma crítica aberta a um poder público que silencia a mulher e as violências que sofremos cotidianamente. Constatei que a cidade de Mariana preserva não apenas seu patrimônio histórico arquitetônico, mas suas opressões históricas contra as mulheres de forma arraigada ao poder público. Afinal, silenciar essas tentativas de exposição de um problema coletivo da cidade é ser conivente com ele.


Principais desafios ao longo da produção


Um grande desafio foi receber o não da Prefeitura de Mariana quando solicitei a aprovação para intervenção na cidade. Além de um processo burocrático longo, o descaso do homem responsável pela aprovação do pedido, que disse para eu arrumar outra coisa para fazer de TCC que “colar cartaz”.

 

Eu já lidei com muitos “nãos” na vida, o problema não foi recebê-lo, mas a falta de importância com que o projeto foi tratado. Eu não iria “colar cartazes na rua”, junto com outras mulheres iríamos denunciar as práticas abusivas que sofremos cotidianamente nas ruas de Mariana e mostrar às pessoas que ocupam aqueles espaços que isso não deve ser naturalizado! É uma prática desrespeitosa, ofensiva e que desencadeia outras violências contra a mulher. Como podemos propor uma reflexão, e uma possível mudança, e tentarmos construir uma sociedade melhor, suscitar o debate, trazer o tema para as rodas de conversa, se o próprio governo municipal acha que isso é sujar as ruas?

 

Na minha pesquisa, trago dados sobre o índice de violência contra a mulher na Região dos Inconfidentes, também forneço relatos sobre mulheres que sofreram violência de seus parceiros, reportagens que retratam casos de mulheres que foram mortas, estupradas e desrespeitadas. E em uma cidade na qual cotidianamente as mulheres são atacadas, o poder público se preocupa em deixar as ruas “limpas” para os visitantes.


Os aprendizados


Crédito:Joyce Fonseca

Realizar a pesquisa-intervenção me proporcionou vivenciar muitos momentos que me testaram, me aborreceram e me emocionaram. Mas, sobretudo, me fortaleceram quanto ao significado e à potência da luta da mulher por espaço, por voz e por direitos.


Ir a fundo para entender como são estabelecidas, agenciadas e configuradas as relações de violência contra a mulher dentro da sociedade me fizeram perceber e também vivenciar a complexidade e os desafios em combatê-las. Isso me fez ter um olhar mais sensível por todas nós, mulheres, que inevitavelmente somos controladas pelo poder patriarcal, e entender que não é fácil se desvincular do que nos foi ensinado desde que nascemos. Me ensinou muito sobre ser paciente com a trajetória de cada mulher, descobrir e vivenciar o feminismo.


Cada mulher entrevistada compartilhou comigo suas vivências, como também seus afetos, seus medos, seus posicionamentos que, embora divergentes em alguns aspectos, mostraram que todas anseiam por respeito e liberdade de andarem como quiserem, de serem aquilo que elas quiserem e, sobretudo, de serem felizes da forma que são, sem o julgamento masculino.


Significado dessa experiência


Representou para mim, como mulher, que é fundamental conversarmos sobre a violência e o assédio fora da nossa zona de conforto. Debater e pesquisar sobre a mulher fora dos muros da universidade e conversar sobre o assédio com mulheres marianenses, que vivem esse assédio há anos e de uma forma diferente que nós, estudantes, que vivenciamos essa prática nos quatro anos que vivemos na cidade.

 

Como estudante foi fundamental para ter aquela certeza que precisamos, em alguns momentos de nossa jornada pela graduação, nos certificar que estamos no caminho certo. E fazer este trabalho definitivamente me deu mais certeza que o jornalismo é o caminho que eu tenho que trilhar, e que me possibilita conhecer pessoas, lugares e principalmente resistir.


Contribuições que o trabalho trouxe


Mudou meu jeito de enxergar o mundo e me relacionar com ele, de perceber as pessoas e interagir com elas com mais afeto. Também participei de um Seminário sobre Gênero e Diversidade realizado pela UFMG e a UFOP que foi maravilhoso. Conheci pessoas incríveis que contribuíram muito com a minha pesquisa, me incentivaram a continuar e, assim como eu, acreditam que esse tema deve ser debatido fora do meio acadêmico também. Por isso, futuramente quero realizar oficinas com mulheres de regiões periféricas e nas escolas, oficinas de lambe-lambe para que possamos produzir e também debater sobre o assédio, a violência contra mulher, a desigualdade e colorir a cidade com nossas vozes.


Conselhos para quem está fazendo o TCC


Aconselho a ver na adversidade, na mudança dos planos, um novo desafio e a abraçá-lo. Nem sempre a pesquisa apresenta aquilo que esperamos ver e essa é a parte mais significativa disso. Não busque as respostas que você quer ouvir, ouça o que de fato está sendo dito. E a partir disso inspire-se, questione-se e seja empático, pois o mundo e as pessoas que habitam nele não pensam e agem como você, e isso é maravilhoso. Aprenda com isso.


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