Como a ‘fake news’ vai salvar o jornalismo

INNOVATION Media Consultancy | 22/05/2019 17:00

Como Donald Trump nos EUA, o presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores usam o termo ´fake news´ para reportagens que não gostam. E, segundo pesquisa do Instituto Reuters de Jornalismo da Universidade de Oxford, os brasileiros estão entre os que mais se preocupam com a disseminação de notícias falsas nas plataformas digitais. Apesar de ser um fenômeno que merece preocupação, ele também pode ser uma das melhores coisas que poderia ter acontecido para o jornalismo sério.

Crédito:Arte / INNOVATION Media Consultancy


Fake news chama a atenção tanto para os riscos causados pelo uso de fontes de informação sem credibilidade quanto para a necessidade de se ter um jornalismo financeiramente capaz de exercer os papéis de checagem de informações e de vigia dos meios de comunicação. É por isso que as empresas de comunicação devem aproveitar o momento para se estabelecerem como os provedores de informações com credibilidade, como alternativa à desinformação e, ao mesmo tempo, como fator de crescimento.


O termo ‘fake news’ em si já é controvertido. Muitos analistas e especialistas dentro e fora do setor se recusam a usar o termo, preferindo ´notícias falsas´ ou desinformação. Vale lembrar que, preocupantemente, o termo é usado por pessoas no poder, como o Presidente Donald Trump, para definir notícias que não gostam, por serem sensacionalistas ou por politicamente discordarem delas.


Na falta de uma alternativa melhor, para este artigo usaremos ‘fake news’ como o uso deliberado de desinformação como notícia, para ganhos políticos e/ou financeiros.


Perigo


O fenômeno de fake news é visto como particularmente perigoso durante eleições e o impacto que pode ter no processo democrático. Um exemplo típico é a falsa notícia “Papa apoia Trump” que circulou pouco antes das eleições de 2016 nos EUA. A notícia, originalmente publicada num site de notícias falsas criado há apenas duas semanas e com o objetivo de atrair anúncios, foi adotada por sites que apoiavam a candidatura Trump como um argumento político, atraindo mais de um milhão de engajamentos quando postada nas páginas do Facebook de uma organização de direita. É um típico caso de uma matéria que pode influenciar eleitores que seguem as perspectivas do Papa.


Muitos acreditam que ‘notícias’ criadas deliberadamente para enganar serão ainda mais perigosas à medida que sistemas de manipulação de vídeo e áudio fiquem mais sofisticados. Já é possível produzir vídeos em que palavras podem ser, literalmente, colocadas nas bocas das pessoas para parecer que alguém tenha dito algo que nunca disse. Isso pode ser mais convincente para o público do que ler uma notícia.


Oportunidade


O impacto da fake news na imagem das empresas de tecnologia, especialmente Facebook, é considerável e ainda não se sabe até onde irá. Para Charlie Beckett, professor de mídia e comunicação da London School of Economics e diretor da Polis, fake news é o “canário na mina digital”: um indicador precoce de uma crise muito maior em relação à informação pública.


A disseminação de fake news pôs sob o microscópio o grau de influência exercido pelas empresas de redes sociais tanto sobre as redações quanto os consumidores de conteúdo; Google, Facebook e outras empresas do setor têm sido duramente criticadas pelo setor, pelos responsáveis por políticas públicas e a sociedade civil em geral pelo papel exercido por elas na disseminação de informação falsa ou incorreta, ao mesmo tempo em que contribuem para a crise financeira enfrentada pelas empresas de comunicação dado o domínio que exercem sobre o mercado publicitário digital.


A maior atenção dada ao tema aumenta a possibilidade de que os gigantes do setor sejam regulamentados, mesmo em mercados tradicionalmente liberais. No Reino Unido, por exemplo, uma comissão parlamentar está investigando o impacto da fake news na sociedade. Nos EUA, comissões do Congresso interrogaram representantes do Facebook, Google e Twitter em novembro de 2017 como parte da investigação sobre o suposto envolvimento da Rússia nas eleições; e o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, foi chamado para depor em abril de 2018 depois das revelações sobre a Cambridge Analytica. Uma consulta pública organizada pela Comissão Europeia sobre fake news e desinformação online recebeu cerca de 3 mil contribuições entre o fim de 2017 e o começo de 2018.


O público também está ficando cada vez mais cético: em 2017, a pesquisa para o Reuters Institute Digital News Report, da Universidade de Oxford, indicou que apenas 24 por cento dos consultados achavam que a mídia social era eficaz na separação entre o que é fato e ficção.


Reação


Facebook e Google responderam com várias iniciativas para lidar com as principais reclamações sobre como eles apresentam o conteúdo, seja por temerem regulamentação ou por quererem assumir maior responsabilidade pelo papel que cada vez mais desempenham na sociedade.


Facebook divulgou explicações sobre como identificar fake news e começou a mostrar ‘artigos relacionados’ para tentar encorajar usuários a lerem conteúdo de fontes que não seguem e para saírem da ‘bolha’. O responsável no Facebook por engajamento cívico promoveu o debate com a pergunta “qual o impacto da mídia social na democracia?” e explicou como o material pago no Facebook está ficando mais transparente e checável.


Google criou um tag para checagem de fatos no Google News para identificar ‘artigos que incluem informações checadas pelos editores e organizações especialistas em checagem de fatos’. O gigante do setor também tentou reduzir o número de entradas enganadoras ou abusivas que aparecem em suas buscas através de melhorias de seus ‘métodos de avaliação’ e a realização de ‘atualizações de algoritmos para que conteúdo mais respeitado venha à tona’. Google também começou a permitir que usuários reportem conteúdo inapropriado.


Ao mesmo tempo, essas empresas também começaram a patrocinar iniciativas de checagem de informação. 


Modelo de negócio


A atenção dada a fake news também ajudou a expor os problemas com o modelo publicitário programático digital, no qual anúncios são vendidos através de uma rede ou plataforma de publicidade com base no número de visitações ou cliques recebidos de um determinado segmento da população. Este tipo de publicidade é visto como um fator para a disseminação de fake news; o modelo também significa que tanto o anunciante quanto o dono da plataforma sabem quais anúncios vão aparecer e onde, aumentando a possibilidade de que anúncios surjam juntos a notícias falsas sem que o anunciante saiba.


Grandes empresas que utilizam altos volumes de publicidade digital começaram a reagir. A gigante de telefonia britânica Vodafone anunciou novas normas para evitar que publicidade apareça onde grupos criam ou partilham notícias falsas ou conteúdo que incita o ódio através de uma ‘lista branca’ criada por meio de controles de conteúdo implementados na rede global da Vodafone (liderada pela WPP), Google e Facebook. Os maiores anunciantes do mundo – como a Unilever e a Procter & Gamble – ameaçaram parar de anunciar em plataformas como Facebook e Google se elas não se esforçarem mais para coibir conteúdo que incite ódio e conteúdos perigosos como desinformação.


Com um grau de confiança reduzido no mercado de anúncios digitais, o incentivo é ainda maior para que editoras se concentrem mais num modelo de receita por assinantes, o que, consequentemente, valoriza ainda mais o jornalismo de qualidade.


Várias empresas jornalísticas nos EUA registraram um aumento em assinantes desde a eleição de Donald Trump e os problemas com a disseminação de fake news: de acordo com o Reuters Digital News Report de 2017, a porcentagem das pessoas pagando por notícias via canais digitais já passou dos 16%, contra 9% no ano anterior; doações para organizações noticiosas triplicaram no mesmo período. Se incluir as assinaturas para suas palavras cruzadas e conteúdo culinário, o The New York Times, por exemplo, já tem 2,5 milhões de assinantes puramente digitais que, no segundo trimestre de 2017 e pela primeira vez, já geravam mais receita do que a gerada pelos anúncios na edição impressa.  Tanto o Wall Street Journal quanto o Washington Post também têm registrado um crescimento considerável de assinantes digitais desde 2016.


Confiança


De acordo com o World Press Trends de 2017 da WAN-IFRA, “é claro que, para nossa indústria, a demanda por fontes confiáveis de notícias representa uma oportunidade de negócios”. O Barômetro de Confiabilidade da gigante de RP Edelman registrou um aumento de confiança no jornalismo em 2018, subindo para 59%, enquanto a confiança nas plataformas caía (para 51%).


A pesquisa do Reuters Digital News Report indicou que cerca de 40% dos entrevistados acham que a mídia ajuda a separar fato da ficção. Apesar de baixo, está acima dos que acreditam em mídias sociais. Confiança no jornalismo continua baixa em muitos países ao redor do mundo e as empresas de comunicação devem se dedicar ao desafio de recuperar a fé em suas marcas e em seu jornalismo.


Checagem


A checagem de fatos de forma transparente e desmentidos de fake news são importantes no esforço das redações de reconquistar e manter a confiança do usuário. Várias iniciativas já foram lançadas nos últimos anos em todo o mundo por empresas jornalísticas e de tecnologia, além de organizações independentes. Algumas delas foram criadas com o objetivo específico de lidar com eleições, enquanto outras têm uma atuação mais abrangente.


Exemplos de iniciativas criadas por organizações ou empresas jornalísticas incluem:


BuzzFeed embarcou numa iniciativa de peso para identificar e desmentir fake news e desinformação, além de buscar chamar atenção para o tamanho do problema. A cobertura inclui reportagens sobre sites que permitem a criação de notícias falsas e campanhas de desinformação durante as eleições no Reino Unido.


Les Décodeurs, do jornal francês Le Monde, busca desenvolver ferramentas para automatizar a detecção de notícias falsas. Segundo um artigo no Digiday, “o plano é desenvolver um banco de dados para expor boatos que também incorpore informações sobre quais são os sites de fake news e quais são confiáveis, acessados através de extensões para navegadores como Google Chrome e Firefox”.


• A Reuters criou o News Tracer, que usa algoritmos para detectar quais histórias na mídia social são críveis o suficiente para iniciar o processo de verificação a ser completado por um jornalista.


• O Reality Check da BBC diz que “se dedica à checagem dos fatos e declarações por trás da notícia para verificar sua veracidade”. O site pede aos leitores que enviem sugestões de tópicos a serem investigados, podendo ser notícias suspeitas que tenham visto, ou algo que sempre quiseram que fosse checado.


Há também uma série de parcerias entre empresas de comunicação tradicionais e startups ou instituições acadêmicas:


Faktisk é uma colaboração na Noruega entre as publicações rivais VG e Dagbladet, junto com a rádio e tv pública NRK, visando a checagem da mídia e de políticos. Como participantes do projeto disseram à Poynter, a colaboração reflete o comprometimento das empresas jornalísticas contra o problema de notícias falsas.


• Na França, o First Draft Crosscheck foi um projeto colaborativo, custeado pelo Gooogle News Lab, que teve como objetivo ajudar os eleitores a discernir o que era confiável ou não na internet durante a campanha para as eleições presidenciais de 2017.


Factmata, que começou como um projeto da University College London e University of Sheffield, busca usar inteligência artificial para avaliar a credibilidade de conteúdo na internet. Os fundadores prometem “um sistema de checagem de informações de ponta (...) para dados estatísticos feitos via conteúdos digitais como notícias e declarações políticas”.


• O News Integrity Initiative, custeado pelo Facebook e sediado na City University de Nova Iorque, é uma rede de parceiros colaborando para melhor alfabetização midiática e para lidar com “desinformação e buscar novas oportunidades que a internet propicia para informar o debate público”, como explica o diretor de novas parcerias do Facebook, Campbell Brown.


Projetos independentes também estão surgindo, como o WikiTribune, a nova iniciativa de Jimmy Wales criada para usar os mesmos princípios de curadoria pública do Wikipedia para o mundo do jornalismo para que notícias sejam “facilmente checadas e aprimoradas”.


O custo destas iniciativas tem sido coberto pelas próprias empresas de comunicação, de organizações filantrópicas e das gigantes digitais como Facebook e Google. Nem todos têm os recursos para desenvolver ferramentas tecnicamente complexas, mas sempre é possível aumentar o esforço para a checagem de fatos e desmentir o que é falso na rotina das redações, ou formar parcerias para tornar o processo mais fácil e mais eficiente.


Além da checagem dos fatos


A checagem dos fatos é um serviço vital, mas não é a única coisa que empresas de comunicação podem fazer para manterem a credibilidade com o público e, assim, continuar com seu apoio. Uma das edições do Reuters Digital News Report constatou que o maior motivo da desconfiança do público em relação à capacidade dos jornalistas de distinguir entre fato e ficção é a impressão de que jornalismo é feito de forma tendenciosa. Como questionou o curador do projeto, Nic Newman, será que iniciativas de checagem de dados e alfabetização mediática serão suficientes para convencer aqueles que acreditam que a mídia seja tendenciosa?


Primeiramente, maior transparência é crucial para ganhar e manter a confiança do leitor. Isso pode incluir, por exemplo, a publicação na íntegra de entrevistas, como fez o New York Times quando entrevistou o Presidente Donald Trump. Em seu programa sobre a postura do Presidente Vladimir Putin em relação aos EUA, a série jornalística Frontline, da rede de tv pública norte-americana, buscou demonstrar imparcialidade na ilha de edição ao disponibilizar no site todas as 70 horas de entrevistas conduzidas pela reportagem. E uma série do jornalista Steven Brill, publicada no Huffington Post, incluiu todos os documentos utilizados, como e-mails e transcrições de entrevistas, para ajudar o leitor a avaliar se foram usados corretamente na reportagem.


Uma diversidade maior e uma representação mais fidedigna da audiência tanto no quadro da redação quanto nas notícias que cobrem são vitais para que não sejam vistos como uma elite desconectada da realidade. Isso é especialmente relevante quando se quer ampliar a base de assinantes, quando é preciso focar na diversidade da audiência, no lugar de tratar o público como um grupo homogêneo. O projeto Inequality and Opportunity de 2017 do britânico The Guardian é um bom exemplo de uma tentativa de ampliar a diversidade da reportagem ao incluir textos de escritores de áreas rurais dos Estados Unidos numa parceria com redações locais. 


A presença forte da marca também é importante. No Barômetro de Confiabilidade 2018 da Edelman, 59% dos participantes acham que está ficando cada vez mais difícil saber se uma notícia foi produzida ou não por uma empresa jornalística respeitada. Empresas jornalísticas devem encontrar formas para que os usuários possam facilmente identificar seu conteúdo mesmo que não esteja presente em seus sites.


Oportunidade


O problema das notícias falsas abre uma oportunidade para que o jornalismo de qualidade se destaque e para que empresas jornalísticas reforcem e ampliem a confiabilidade em suas marcas.


No lugar de só se juntarem ao coro de pânico sobre o impacto negativo das notícias falsas na sociedade, editores devem focar na produção de jornalismo de alta qualidade como diferenciador de seus produtos em relação à desinformação abundante na internet.


A desconfiança cada vez maior das mídias sociais só cria mais espaço para que editores ganhem e mantenham uma audiência mais leal. Afinal, apesar das críticas constantes do Presidente Trump aos jornalistas nos EUA com quem discorda, o público não deixou de comprar seus jornais ou assistir seus noticiários prediletos.


*Este artigo foi publicado originalmente na INNOVATION IN NEWS MEDIA WORLD REPORT 18-19 EDITION. INNOVATION Media Consultancy é a principal consultoria no mundo especializada em mídia e jornalismo - www.innovation.media.


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