“Dizer a verdade ou agradar?”, por Maryanna Aguiar Abreu

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (abril 2019)

Maryanna Aguiar Abreu | 14/05/2019 17:09

Tema: Considerando os tipos de pressão profissional que um jornalista pode sofrer, quais são suas maiores preocupações, como futuro jornalista ou jornalista recém-formado, no exercício da profissão?

Autora: Maryanna Aguiar Abreu, estudante de jornalismo na Universidade Católica de Brasília

Crédito:Pixabay


Estou no 4º semestre, já aprendi sobre teorias da comunicação, gêneros, técnicas, fotografia dentro do jornalismo e toda a história dos meios de comunicação. Mas existe uma hora em que eu sento para assistir um jornal ou ler, sendo ele digital ou não, e me deparo com tudo que eu aprendo, mas ao contrário, é como se eles tivessem perdido o ETHOS jornalístico, eu terminaria aqui e diria que esta é minha maior preocupação.


Vivemos em um contexto político e social agitado e não dá para simplesmente simplificar e dizer que "o tempo de leitura é menor, escrevam textos menores", "informar o que as pessoas querem ler", "noticiar somente o que eu julgo como de interesse comum". Quando foi que um cidadão chegou em casa e pediu para assistir jornais sensacionalistas que são capazes de invadir o espaço do outro, só para simplesmente "levar a verdade"?


Não foram os telespectadores ou os leitores que mudaram, foram os noticiários, que sempre colocam a culpa em quem recebe o conteúdo e bem essa é uma questão que me faz pensar tanto no passado quanto no futuro dos jornais. Minha professora de teorias do jornalismo passou um vídeo sobre a privatização da Telebrás, onde o jornal simplesmente dedicou 10 minutos ao nascimento da filha de uma artista e 30 segundos aos manifestos, protestos de quem era contra a privatização.


Diante disso, eu como aluna de comunicação social - jornalismo penso em como posso ser uma jornalista que mantém dentro de si o respeito por quem recebe a notícia. Como conciliar tantos eventos ao que as empresas pedem hoje? E o público, ele realmente quer exposição de pessoas, atenção partidárias, e cadeiras da "providência"?


No livro “Do Golpe ao Planalto”, Ricardo Kotsho revela sua saga para a construção da reportagem que, digamos, seria a “chave de ouro" para ele. E ao final, tendo tudo preparado para a publicação, ele recebe um "vamos ter que falar com o chefe", pois afinal uma reportagem dessa impactaria na vida de muitas pessoas, e ainda bem que foi publicada. Hoje em dia algo com elo ao Planalto raramente será publicado pois os próprios jornalistas precisam de contatos para "coisas maiores". Essa é uma preocupação; como liberar a verdade nessas situações. Uso esse exemplo pois em geral 90% do que sai nos jornais é política e os outros 10% com certeza têm um pingo dela.


Dizer a verdade ou agradar? Essa na minha concepção é a maior ferida que existe dentro da profissão jornalista, e para finalizar Ehott escreve: “... (A) verdade era a única responsabilidade da profissão do jornalismo, um objetivo e uma confiança comparáveis à responsabilidade da profissão médica pela saúde ou a responsabilidade da profissão legal pela justiça”.


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