Opinião: "Vinte livros que vão aumentar o seu amor pelo jornalismo", por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 26/04/2019 20:06

Esses dias uma aluna querida que acabou de se formar me perguntou: professora, quais são mesmo aqueles livros que você dizia que todo jornalista deveria ler? Ela se lembrou de algumas obras que eu citava com frequência nas aulas da disciplina Grandes Reportagens e, como boa formanda, estava preocupada em devorá-las o mais rápido possível. Durante a faculdade nem sempre os alunos conseguem ler todos os livros que recomendamos, por conta dos diversos trabalhos exigidos pelas disciplinas do curso. Depois de terminada a graduação, é o momento de poderem fazer isso com calma e prazer.


Conhecer livros-reportagem que tiveram grande repercussão no mundo e no Brasil, além de aumentar o amor pelo jornalismo, é importante para quem deseja ser um bom repórter. Não que um bom jornalista seja formado apenas por leituras grandiosas, mas beber em boas referências de escrita, abordagem e apuração contribui para que possamos aprimorar nosso fazer jornalístico e a qualidade do nosso texto.


Aproveito o questionamento da minha pupila e o espaço dessa coluna para destacar 20 livros-reportagem que considero essenciais. Segue a lista (pensei inicialmente em indicar apenas dez livros, mas não consegui rs):

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


1 – DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Publicado em 1919 e escrito pelo jornalista norte-americano John Reed, o livro aborda um dos principais acontecimentos do século XX, a Revolução Russa de 1917. Com a credibilidade de quem foi a Petrogrado, conviveu com os líderes do movimento (como Lênin) e testemunhou seus atos e suas diferentes tendências, Reed, que já era um ativista de esquerda nos EUA antes de fazer essa grande reportagem, revela o passo a passo da revolução, fazendo o leitor voltar ao passado e conhecer aqueles dias que ajudaram a mudar os rumos da história. A leitura nem sempre flui facilmente, pois são muitas informações citadas em cada página e, para quem é preciosista como eu (que gosta de parar para fazer pesquisas na internet sobre nomes e partidos citados), pode ser cansativo. No entanto, trata-se de uma obra importante do ponto vista histórico, e por mostrar como a ida a campo, no processo de apuração jornalística, é essencial.


2 - HIROSHIMA


Considerado um dos livros-reportagens mais importantes do século XX, Hiroshima nasceu inicialmente como uma grande reportagem que ocupou a edição inteira da prestigiada revista americana The New Yorker, em 31 de agosto de 1946. O jornalista norte-americano John Hersey reconstitui os dramáticos acontecimentos posteriores ao lançamento da bomba atômica na cidade japonesa de Hiroshima em 6 de agosto de 1945. A reconstituição é feita por intermédio da narrativa de seis personagens: um pastor Metodista; uma viúva, mãe de três crianças; um médico proprietário de um hospital privado; um padre; um pastor jesuíta, um médico da Cruz Vermelha e uma funcionária administrativa da East Asia Tin Works. O texto, repleto de detalhes e cenas chocantes, é construído de forma precisa, contando onde cada personagem estava e o que fazia no momento do bombardeio, e como o caos foi instalado entre os sobreviventes, já que boa parte da equipe de saúde que poderia atender os feridos estava morta. Essa grande reportagem teve enorme repercussão, chegando a ser lida por algumas emissoras de rádio, na época em que foi publicada. Ajudou a alertar o mundo para as terríveis consequências do uso de uma bomba atômica.


3 - A SANGUE FRIO


Mais um livro clássico, com um texto que é uma verdadeira obra de arte. Escrito por Truman Capote, um dos principais nomes do new journalism (corrente surgida nos EUA por volta dos anos 60 que, subvertendo a pirâmide invertida, empregava recursos literários nos textos jornalísticos), a obra revela, em detalhes, como se deu o brutal assassinato de uma família na pacata e pequena cidade de Holcomb, no interior do estado do Kansas, nos EUA. É um belo exemplo de que uma grande reportagem pode nascer de uma notícia, que estaria fadada a ser esquecida em alguns dias. Basta o faro, o talento, o esforço e a persistência do repórter. Também é um excelente exemplo de “romance de não ficção” (como Capote classificou essa obra). O jornalista decidiu escrever sobre o assassinato em Holcomb após ler uma notícia a respeito, em 1959, no jornal. Em 1965, quase seis anos depois, conseguiu publicar a história em quatro partes na revista The New Yorker e transformou-a no livro. Além de reconstituir o crime, a obra resgata a trajetória da dupla de assassinos da família Clutter.

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


4- FAMA E ANONIMATO


Trata-se de uma antologia com reportagens sensacionais de Gay Talese, outro grande nome do new journalism. Os textos falam sobre pessoas anônimas e famosas de Nova York, e foram veiculados inicialmente em revistas como Esquire e The New Yorker. Publicado no Brasil em 1973 com o título de “Aos olhos da multidão”, o livro se tornou referência entre jornalistas e escritores. Traz um dos perfis mais famosos da história do jornalismo “Frank Sinatra has a cold” (Frank Sinatra está resfriado), construído com primor, mesmo sem que Talese tenha conseguido entrevistar Sinatra. Entre os longos perfis de anônimos traçados estão os dos trabalhadores que, entre os anos de 1961 e 1964, ajudaram a construir a ponte Verrazano-Narrows, que liga os distritos de Brooklyn e State Island, em Nova York. Textos extremamente bem escritos e envolventes, repletos de descrições detalhadas dos personagens, ambientações e narrações de cenas. Vale muito a pena!


5 - TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


Em linguagem envolvente e dinâmica, os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward contam, nesta obra, o passo a passo da série de reportagens que eles fizeram para o The Washington Post, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974. A apuração, iniciada em 1972 e que ficou conhecida como “Caso Watergate”, é considerada uma das precursoras do jornalismo investigativo no mundo. Todo jornalista tem que conhecer muito bem esse caso, que inspirou milhares de pessoas em diferentes locais do planeta a se tornarem repórteres. Como dizia o mestre Geneton Moraes Neto, falecido em 2016, todo repórter, no fundo, ambiciona derrubar alguém, e Bernstein e Woodward derrubaram simplesmente o homem mais poderoso do mundo, mostrando que ele usou dinheiro de caixa dois de campanha para espionar o partido Democrata (Nixon era republicano).  O livro foi lançado pouco antes de Nixon renunciar. Dois anos depois foi adaptado para o cinema. O filme, dirigido por Alan J. Pakula, também vale muito a pena!


6 - OS SERTÕES


Em 1897, o escritor, jornalista e militar Euclides da Cunha foi enviado ao norte da Bahia, pelo jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura de um conflito no arraial de Canudos. Em poucos dias no local, percebeu que aquele que era tido pela elite política e pela imprensa como um movimento antirrepublicano, estrategicamente planejado para derrubar o regime recém- instalado no país, configurava-se muito mais como uma manifestação de cunho messiânico, liderada por Antônio Conselheiro, uma espécie de profeta do local. Milhares de homens pobres e explorados por fazendeiros da região seguiam Conselheiro, inflamados por seu discurso muitas vezes esquizofrênico, que prometia o paraíso, misturando críticas à República com trechos bíblicos. A comunidade de Canudos foi brutalmente dizimada pelas forças do exército republicano. Praticamente todos os homens adultos da localidade foram assassinados, restando mulheres, idosos e crianças. O resultado do trabalho de apuração de Euclides da Cunha (diversas reportagens foram publicadas em série no Estadão) foi transformado no livro “Os Sertões”, publicado em 1902, considerado um dos grandes clássicos da nossa literatura e do jornalismo. Esse foi o segundo livro que li na faculdade. Comemorei o término de sua leitura sentindo-me muito orgulhosa. A obra é interessante não só por mostrar a importância de o repórter ir a campo, derrubando pressupostos que estão na pauta, como para entender a natureza do sertão e a essência e os sofrimentos do sertanejo. Todo brasileiro deveria ler esse livro.

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


7 - TEMPO DE CONTAR


Uma verdadeira joia, escrita por um dos pais do jornalismo literário brasileiro, o repórter Joel Silveira, chamado por Assis Chateaubriand de “a víbora”, depois que escreveu a reportagem “Grã-finos em São Paulo”, em que fez uma descrição ácida dos costumes do high society paulistano. O livro reúne grandes reportagens de Joel, além de suas memórias. O leitor se encanta com um texto magnífico, que literalmente o “sequestra”. Dentre as reportagens oferecidas na obra estão a tentativa de entrevista com o ex-presidente Getúlio Vargas para a Revista da Semana (sensacional!) e as coberturas que Joel fez da Segunda Grande Guerra e do “Bogotazo”,  série de protestos e desordens que surgiram após o assassinato do líder liberal e candidato a presidente Jorge Eliécer Gaitán em 9 de abril de 1948 no centro de Bogotá (Colômbia), durante o governo do presidente Mariano Ospina Pérez. Não tem como não chorar lendo esse texto sobre o Bogotazo. Na minha opinião, o mais lindo do jornalismo brasileiro. LEIA!


8 - O GOSTO DA GUERRA


Neste livro, José Hamilton Ribeiro, considerado “o repórter do século XX” por ter feito reportagens emblemáticas que lhe renderam muitos prêmios Esso (reconhecida premiação jornalística), conta tudo o que viveu e sentiu na cobertura que fez da Guerra do Vietnã para a revista Realidade, em 1968. O jornalista perdeu a perna esquerda durante a explosão de uma mina e mesmo assim escreveu o texto, persistindo na carreira de repórter. Aliás, até hoje, com mais de 80 anos, segue fazendo belíssimas reportagens. Ele relata o drama do acidente e o dia a dia da guerra, com grande riqueza de detalhes. Ainda oferece ao leitor, com um texto muito bem construído, um relato emocionado sobre a sua volta ao Vietnã 30 anos depois. Sensacional!


9 – TEMPO DE REPORTAGEM – HISTÓRIAS QUE MARCARAM ÉPOCA NO JORNALISMO BRASILEIRO


Nesta obra, o mestre Audálio Dantas, o homem que descobriu Carolina Maria de Jesus (uma das principais escritoras do nosso país), dando-lhe seu devido valor, e que ajudou a revolucionar a linguagem do nosso jornalismo, com um estilo criativo e autoral, oferece ao leitor verdadeiras joias: as íntegras de suas históricas matérias feitas para a Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo) e para a Cruzeiro e a Realidade, duas revistas que marcaram o gênero grande reportagem no Brasil. Antes de cada texto, o leitor é agraciado por um comentário de Audálio, com curiosidades e bastidores do processo de produção da matéria. Além da célebre reportagem com os diários de Carolina Maria de Jesus (“O Drama da Favela escrito por uma Favelada”, publicada na Folha da Manhã, em 1958), que teve tanta repercussão que acabou proporcionando à Carolina o lançamento do livro “Quarto de Despejo”, traduzido para 13 idiomas, “Tempo de Reportagem” traz a matéria “Povo Caranguejo”. Publicado na Realidade em 1970, o texto é até hoje um case estudado nas salas de aula de jornalismo, pela maneira criativa como foi construído. Audálio escreveu a matéria sob duas óticas: a dos caçadores de caranguejo do povoado Nossa Senhora do Livramento (PB) e a da caça (os caranguejos fugindo dos caçadores, no mangue). Vale ainda destacar a reportagem “Circo do Desespero”, que reflete  a grande sensibilidade de Audálio ao mostrar o lado trágico de um conhecido concurso carnavalesco de dança dos anos 60, onde pobres brasileiros, esquecidos por diversas instâncias do Estado e pela sociedade, dançavam literalmente quase até morrer, para conseguirem ganhar um prêmio, que tornaria possível a realização de sonhos bastante importantes, como o de fazer a cirurgia de um filho. Obrigatório, porque simplesmente não dá pra ser jornalista sem conhecer bem o trabalho de Audálio Dantas.

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


10 – INSTINTO DE REPÓRTER


Nesta obra a experiente repórter investigativa Elvira Lobato traz suas principais reportagens, contando ao leitor os bastidores de produção dos textos. Elvira que foi repórter especial da Folha de S.Paulo por muitos anos, especializada no nicho das Telecomunicações, revela algumas técnicas interessantes utilizadas para obter informações para algumas de suas matérias, por exemplo quando se tornou acionista da Petrobras e da Oi para investigar mais a fundo essas empresas. O ramo do jornalismo investigativo é um dos mais instigantes e difíceis para quem atua na profissão, e demanda estratégias e tecnologias especiais, como a técnica da infiltragem ou a câmera escondida. É muito interessante conhecer as estratégias que Elvira utilizou para fazer suas reportagens, e observar como a curiosidade e a coragem são elementos essenciais para quem deseja atuar nessa área.


11 – NARRATIVAS DE UM CORRESPONDENTE DE RUA


Mauri König é um dos mais premiados jornalistas brasileiros e um dos meus repórteres investigativos prediletos. Nada escapa ao seu faro. Suas reportagens são voltadas a apontar chagas sociais brasileiras. Em um de seus primeiros trabalhos de destaque, como repórter do jornal O Estado do Paraná, sofreu graves agressões ao denunciar o caso de adolescentes brasileiros recrutados para o serviço militar paraguaio. Teve que fingir que já estava morto, ficando imóvel no chão, para parar de ser agredido e evitar a morte real. No livro “Narrativas de um correspondente de rua”, König traz esta e outras 14 reportagens premiadas que fez para a Gazeta do Povo (quando era repórter especial do jornal), também oferecendo comentários sobre os bastidores de produção dos textos. Como muito bem descreve o texto da editora Pós Escrito, o livro, finalista do Prêmio Jabuti de 2009, denuncia “a dura realidade de pessoas que pertencem ao Brasil que não deu certo. São crianças, adultos e idosos que sobrevivem e trabalham em condições desumanas, explorados de maneira inescrupulosa por aqueles que detêm o poder econômico. Em cada reportagem, é possível vislumbrar o compromisso de Mauri com um jornalismo que luta por uma sociedade melhor, para que não sejam desperdiçadas mais vidas.”


12 - O OLHO DA RUA - UMA REPÓRTER EM BUSCA DA LITERATURA DA VIDA REAL


MA-RA-VI-LHO-SO! Esse é um livro que eu praticamente obrigo todos os meus alunos a ler. Uma verdadeira obra-prima do jornalismo literário brasileiro e um exemplo de como ser um repórter de fato, ou seja, um jornalista que gosta de gente, que se preocupa verdadeiramente com o outro, contando com extrema sensibilidade lindas histórias, ainda que tristes e sofridas. Escrito pela diva-musa-suprema Eliane Brum (sim, eu amo essa mulher), a obra conta a trajetória de brasileiros de diversos cantos do país, como dona Ailce, que teve seus últimos 115 dias de vida retratados por Eliane Brum (ela tinha um câncer terminal). Também aborda realidades duras, como a das mães do tráfico (há uma história de uma mãe que perdeu dois filhos na guerra do tráfico e, por isso, já pagava o caixão do terceiro que estava vivo, sabendo que ele era o próximo a morrer), o conflito entre arrozeiros, ONGs, políticos e índios em Raposa Terra do Sol, em Roraima, o cotidiano dos que vivem em um asilo, além da rotina das mulheres que atuam como parteiras na floresta amazônica. Não bastasse tudo isso, após cada reportagem, Eliane oferece um making of, contando os bastidores de produção da matéria, com seus erros e acertos. Uma obra que te faz sorrir e chorar.

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


13 – SÉRIE MESTRES DA REPORTAGEM


Não é porque foi produzida por mim e pelos meus alunos, mas esta série é IMPRESCINDÍVEL a todos que desejam ser bons repórteres. Como disse José Hamilton Ribeiro, que fez o prefácio do volume I da série (em um e-mail que enviou para mim logo após o lançamento, em 2012), trata-se de “uma das coisas mais importantes já feitas sobre jornalismo/reportagem entre nós”. Um verdadeiro registro histórico da reportagem contemporânea no Brasil. Os três volumes de Mestres da Reportagem trazem entrevistas pingue-pongue com renomados repórteres brasileiros. Além de José Hamilton Ribeiro, foram entrevistados nas obras jornalistas como Ricardo Kotscho, Audálio Dantas, Clóvis Rossi, Elvira Lobato, Carlos Wagner, Marcelo Rezende, Percival de Souza, Sônia Bridi, Luiz Carlos Azenha, Agostinho Teixeira, Adriana Carranca, Bruno Garcez, Mauri König, Valmir Salaro, Tatiana Merlino, Sérgio Dávila, Rubens Valente, Roberto Cabrini, Leandro Fortes, Cid Martins, Eliane Brum, Goulart de Andrade, Giovani Grisotti, César Tralli, Geneton Moraes Neto, Regiani Ritter, Marcelo Canellas, José Arbex Jr., Ernesto Paglia, Sílvia Bessa, Gérson de Souza, Daniela Arbex, Leonardo Sakamoto, Fernando Rodrigues, Rubens Valente, Mário Magalhães e Lourival Sant’Anna. Afora discutir a importância da reportagem e as principais técnicas para a produção desse gênero jornalístico, o livro resgata a trajetória profissional dos jornalistas entrevistados e revela os bastidores das principais matérias que eles fizeram.


14 -ROTA 66 – A HISTÓRIA DA POLÍCIA QUE MATA


Um trabalho do repórter Caco Barcellos que é referência no jornalismo investigativo brasileiro, até hoje inspirando diversas reportagens. Após cinco anos de apuração, com dados inquestionáveis, Caco comprovou a existência de um “esquadrão da morte oficial” na polícia de São Paulo. Denunciou milhares de assassinatos de jovens cometidos pela polícia, detalhando como essas mortes foram maquiadas, como se tivessem ocorrido após tiroteiros provocados pelos “supostos bandidos”.   A obra ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Reportagem em 1993.


15 - ABUSADO – O DONO DO MORRO DONA MARTA


Outra obra obrigatória do mestre Caco Barcellos, fruto de um trabalho de anos de reportagem, que mostra como funciona o tráfico de drogas nos morros do Rio, a partir da história de vida do traficante Marcinho VP, na época “dono” do morro Dona Marta, no Botafogo. No livro, Marcinho, que se diferencia dos demais traficantes por seus gostos literários e por ter contato com intelectuais cariocas, é chamado de “Juliano”. A obra mostra como Marcinho e seus amigos ingressaram no tráfico e como funcionam as principais organizações criminosas, especialmente o Comando Vermelho. Mostra que a entrada no tráfico geralmente acontece pela mais absoluta falta de opção. O livro conta tudo isso numa linguagem cinematográfica, daquelas que faz o leitor não desgrudar da obra, enquanto não chega na última página. Esse livro é tão bom que, mesmo passando das 500 páginas, finalizei a leitura em três dias. Não conseguia largá-lo!

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


16 - REALIDADE REVISTA


Obra dos mestres José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão que traz as principais reportagens publicadas pela emblemática revista Realidade, considerada o veículo que melhor trabalhou a grande reportagem no Brasil, e que inovou por seu ousado projeto gráfico e suas impactantes e polêmicas reportagens. A obra é interessante, pois, além das matérias históricas, exemplos de jornalismo literário, há os comentários de Zé Hamilton e Marão sobre os bastidores de produção dos textos. Muito bom!


17 – A PRÁTICA DA REPORTAGEM


Neste pequeno e valioso livro, um dos maiores repórteres brasileiros, o mestre Ricardo Kotscho, fala sobre os bastidores de suas principais reportagens, como a emblemática série "Assim vivem os nossos superfuncionários", que abalou a ditadura militar, ao ser publicada em 1976 no jornal O Estado de S.Paulo. As matérias da série denunciavam as mordomias dos altos funcionários do regime, que usavam o dinheiro público de forma irresponsável e descarada. Por conta da repercussão das reportagens e das consequentes ameaças sofridas, Kotscho acabou tendo que aceitar um convite para ser correspondente na Alemanha. O repórter, ao longa desta obra, oferece conselhos valiosos a todos que desejam trilhar o jornalismo. O principal deles: lugar de repórter é na rua! (seu mantra).


18 – DEZ REPORTAGENS QUE ABALARAM A DITADURA


Organizado pelo jornalista Fernando Molica, esse livro tem um caráter histórico importante. Ele reúne reportagens que, mesmo com toda dificuldade, perseguição e censura imposta pelo período do regime militar brasileiro, foram produzidas com maestria e muita coragem. Dentre elas destacam-se a série sobre as mordomias dos altos funcionários da ditadura, de Ricardo Kotscho (citada anteriormente), e as importantes reportagens de Antonio Carlos Fon sobre as torturas praticadas pelo regime. Uma obra essencial nesses tempos em que a violência praticada pelos militares é justificada e o golpe é chamado de “revolução”.

Crédito:Montagem com imagens das capas / Reprodução


19 – ANJO PORNOGRÁFICO


Escrito pelo mestre Ruy Castro, o livro conta a vida de outro jornalista bastante polêmico, mas, sem dúvida, genial: o pernambucano Nelson Rodrigues, autor de belíssimas peças, crônicas e frases sensacionais, que ainda hoje são reverenciadas, como “toda unanimidade é burra”. Tenho uma relação de amor e ódio pelo Nelson Rodrigues. Ao mesmo tempo em que admiro sua inteligência e inovação, por exemplo em suas peças teatrais (muitas revolucionárias, como “Vestido de Noiva”), tenho ojeriza ao seu lado reacionário. É uma figura controvertida, mas que certamente contribuiu muito com nosso jornalismo e nosso teatro e, por isso, merece ser respeitada. O pai de Nelson e seus irmãos também eram jornalistas e passaram por veículos consagrados da nossa imprensa no século XX. Seu pai foi fundador do jornal “A Manhã”, onde Nelson começou sua carreira jornalística, aos 13 anos. Em 1929, depois de perder “A Manhã” para seu sócio, o pai de Nelson lançou o jornal “Crítica”, que acabou sendo palco da primeira das várias tragédias da vida do jornalista, o assassinato de seu irmão Roberto pela personagem de uma das matérias que foi manchete do veículo. Ler o livro de Ruy Castro é também conhecer os bastidores da nossa imprensa nas primeiras décadas do século XX, que era descaradamente parcial, muitas vezes sensacionalista e alinhada sem pudor a grupos políticos.


20 – CHATÔ, O REI DO BRASIL


Biografia de um dos pais da comunicação no Brasil, o paraibano Assis Chateaubriand. Apesar de polêmico, muitas vezes antiético e implacável com seus inimigos, Chatô, inegavelmente, foi um visionário. Trouxe a televisão para o Brasil e criou o império “Diários Associados”, formado por quase 100 jornais, revistas, estações de rádio e televisão. Foi o fundador do Masp (Museu de Arte de São Paulo), atuando ainda no campo político. Excelente biógrafo, Fernando Morais conta a história de Chateaubriand de maneira bastante envolvente, repleta de construções de cenas e detalhes.


BOA LEITURA!


Crédito:Arquivo pessoal
*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade São Judas Tadeu. É organizadora do livro "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e da série de livros "Mestres da Reportagem". Também é responsável pelo blog Formando Focas.

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