Opinião: "Para além de clichês e repetições: sugestões e provocações para (novos) pesquisadores em Comunicação", por Enderson Oliveira

Enderson Oliveira | 26/04/2019 07:54

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Na pesquisa em Comunicação, não é difícil notar que algumas repetições em temas, objetos e tipos de análise, por vezes, se tornam lugares-comuns e acabam criando grupos – sejam institucionalizados ou não – nas Instituições de Ensino Superior (IES). Estes, por sua vez, se retroalimentam e mantém uma cadeia que não contribui na diversidade da produção acadêmica, muito menos em discussões metodológicas e epistemológicas.


Indo além, ainda é possível notar que, em geral, as faculdades, universidades e centros universitários, por uma série de fatores, muitas vezes instigam (ironia) os alunos a fazerem mais do mesmo. Para deixar isto mais evidente, basta você, caro leitor, atentar para três pontos:


a) as aulas e avaliações que em geral não incitam/ dão liberdade aos alunos a produzirem algo diferente, mais próximo às suas realidades, em detrimento de discussões por vezes abstratas e que se baseiam em perspectivas estadunidenses e europeias (não esqueçamos que os estudos decoloniais atualmente problematizam isto!);


b) aos grupos de pesquisa e mesmo “sobrenomes” que alguns professores carregam e que parecem não permitir a eles que se desvencilhem, ainda que esporadicamente, de seus recorrentes temas de pesquisa e, por fim,


c) os TCCs produzidos e apresentados. De um lado, não raramente mostram métodos e tipos de análise repetitivos (lembre dos inúmeros “estudos de casos” que você viu ou mesmo produziu nos últimos anos); de outro, ao serem apresentados e avaliados de forma positiva, talvez incitem outros estudantes a seguirem o mesmo insípido rumo, em alguns casos, é claro.


Levando em conta este amplo contexto, não é difícil perceber que a repetição parece ser “agendada”, chega a ser assustadora e reflexões e provocações (ainda que para mim ambos os termos sejam quase sinônimos – ora, academia é isto!) eram/são, em sua maioria, rasteiras ou inexistentes, não por incompetência dos autores – sejam alunos ou professores –, mas também pelas necessidades do mercado e pelas demandas quantitativas de instituições de financiamento e incentivo à pesquisa.


Coitadismo nosso? Certamente não, mas talvez um comodismo preocupante. (Trans)Formar alunos em profissionais de mercado - seja ele qual for - não pode ser uma tarefa feita a murros e rapidamente por obrigação ou para-encher-o-Lattes. É preciso entender estes alunos, suas realidades e de que modo a Comunicação se relaciona a tudo isto, em um processo complexo, diversificado e diacrônico.


Dito isto, neste texto elenco brevemente algumas possibilidades (há mais, obviamente) que podem ser melhor observadas (lembradas?) na produção acadêmica em Comunicação no Brasil, sem esquecer que, em algumas IES ou mesmo nichos de pesquisadores, algumas delas são sublinhadas.


Sugiro, então, que observemos com mais cuidado e atenção:


1. Diálogo com outras ciências e áreas do conhecimento


Apesar de possuir diversas possibilidades de criação e reflexão, os estudos de Comunicação muitas vezes se aproximam ou dialogam com outras áreas do conhecimento. Neste sentido, além das artes – em especial o Cinema e Audiovisual –, a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia e a Ciência Política parecem ser as mais lembradas ou referenciadas.


Isto pode ser fortalecido, pois ajuda a produzir pessoas com maior poder de percepção e mesmo amplitude de uma pesquisa, observando suas diversas nuances. O que parece estranho e mesmo distante em um primeiro momento se torna mais claro caso observemos que até mesmo alguns nomes “incensados” pelo cânone mundial da Comunicação na contemporaneidade nem ao menos são comunicólogos, como o geógrafo David Harvey; o crítico literário e teórico político Fredridc Jameson, os sociólogos Armand e Michèle Mattelart, Michel Maffesoli e Stuart Hall, e o antropólogo Néstor García Canclini.


2. Geomedia/ Geografias da Comunicação


Apesar de não ser uma área recente, a Geomedia ou mesmo os estudos sobre as Geografias da Comunicação ainda parecem – curiosamente no Brasil e, mais ainda, na Amazônia (que vai muito além da visão clichê de uma imensidão verde disseminada pela mídia e turismo) – algo desconhecido ou mesmo pouco utilizado.


Segundo o grupo de pesquisa “Geomedia”, da Karlstad University, na Suécia, que tem à frente André Jansson, referência mundial no assunto, “o termo capta o papel fundamental da mídia em organizar e dar significado a processos e atividades no espaço”. Mais que isso: observa ainda “os atributos geográficos da mídia como, por exemplo, fluxos de sinais digitais entre lugares específicos e as infraestruturas que transportam esses fluxos”.

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José Marques de Melo, no texto “Geografia da comunicação: itinerário brasileiro” (2014), esclarece ainda que os estudos da área já são feitos desde as primeiras décadas do século XX, tendo como marco Harold Innis, ao incluir a geografia no conjunto dos saberes fundamentais para a cognição dos mecanismos de interação simbólica.


Assim, pensar a comunicação aliada à geografia, seus locais, trânsitos e mesmo experiências, pode ser útil tanto para novas perspectivas e pesquisas, que vão além da produção de cartografias, como também para o mercado, ao observar e mesmo instigar algumas práticas de consumo mais localizadas.


3. Pós-verdade para além das fake news


As chamadas fake news – ou simplesmente notícias falsas – são uma realidade há décadas e, atualmente, acabaram se tornando lugares-comuns na hora de se pensar (pesquisa em) Comunicação, especialmente no Jornalismo. Embora seja possível perceber sua recorrência, há um panorama mais amplo que por vezes parece ser ignorado: o da pós-verdade.


Ora, não adianta olharmos a profusão de notícias “questionáveis” de nossa posição – possivelmente “privilegiada” – e acreditarmos que algum conselho rasteiro como “é preciso ter atenção”, “deve-se reconhecer notícia falsa”, entre outros, irão ensinar ou mesmo resolver algo levando em conta a “massa”.


É preciso reconhecer que, dentre tantos “pós” contemporâneos, o da pós-verdade seja o mais atual e duradouro: a expressão, eleita “a palavra do ano” em 2016 pelo Dicionário Oxford, aponta para as “circunstâncias pelas quais os fatos objetivos influenciam menos na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal”.


Na pós-verdade, você tem a “sua própria”, ainda que não consiga ou mesmo não objetive convencer outras pessoas de seu caráter científico ou mesmo real. Note: isso vai muito além de uma simples notícia falsa ou mesmo etapas para identificá-las. É preciso observar este amplo panorama e suas nuances, já que através da (Clifford Geertz) pós-verdade é possível então compreender o mundo contemporâneo, que envolve peculiaridades sociais, novos tipos de consumo e hábitos, muitas vezes ligados à chamada cibercultura. Isto amplia mais ainda a importância e responsabilidade não somente dos profissionais da área, mas também a nossa enquanto educadores.


4. Interações e trânsitos na web


Apesar de ainda hoje haver a possibilidade do uso de termos diversos como “Etnografia virtual”; “Netnografia”; “Etnografia digital”; “Webnografia” e até mesmo “Ciberantropologia”, a observação de fluxos e conteúdos nas redes sociais possui nuances mais específicas, que merecem ser melhor observadas.


Há, por exemplo, a Análise de Sentimentos, fundamental para avaliar, classificar e depurar as opiniões de seus utilizadores e a polaridade (positiva, negativa ou neutra) dos textos publicados nas redes sociais (ver mais sobre isto em “Thumbs up? Sentiment classification using machine learning techniques”, de Bo Pang, Lillian Lee e Shivakumar Vaithyanathan).

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Indo além, podemos notar também a Análise de Informação, que “pode contribuir para o Planejamento de Classificação, seja no Plano de polarização (Análise de Sentimento), no refinamento da listagem dos termos a serem incluídos, seja no Plano de Tagueamento, na definição do grupo de tags e subcategorias”, como explicam Dora Steimer e Ronaldo Araújo em “Análise da Informação”, disponível no livro “Monitoramento e pesquisa em mídias sociais: metodologias, aplicações e inovações” (2016), organizado por Tarcízio Silva e Max Stabile.


Prosseguindo, há também a interessante perspectiva de Customer Relationship Management (CRM) ou algo como Gestão do Relacionamento com o Cliente, que possibilita uma visão/ análise mais mercadológica e estratégica, é verdade, mas não menos importante.


Por fim (ainda que esteja ciente que há outras interessantes perspectivas não citadas aqui), há a Folksonomia, através da qual podemos não somente produzir tags e hashtags e reuni-las com conteúdos através de redes sociais (em especial Instagram e Twitter), como encontrar estas informações que são organizadas e disponibilizadas também na chamada Web 3.0, uma ampliação/ evolução da conhecida categoria da Web 2.0.


5. Dados são fundamentais


Atualmente, o contexto de Big Data provocado pela grande disponibilidade de dados impacta não somente a produção jornalística, incitando a criação do chamado Jornalismo de Dados (este por si só já se configura em outra grande possibilidade/ tendência), como também na análise de redes sociais.


Para isto, muitas vezes é fundamental que professores, alunos e demais pesquisadores conheçam e, se possível, estejam familiarizados com plataformas como Netvizz (talvez a mais conhecida e “comum”); InstagReader; NodeXL Pro; Netlytic; Facebook Graph API e Python, para citar apenas algumas.


Todos podem ser utilizados tanto para fins mais estratégicos e mercadológicos como possibilitar análises amplas de sujeitos e seus fluxos no chamado ciberespaço e contribuir para análises mais amplas, com metodologias ou possibilidades diversas, tais quais as citadas no tópico anterior.


6. Tendências de mercado e consumo


No período contemporâneo, há ainda uma série de informações e estudos sobre tendências que são disponibilizados de forma séria e podem ser aproveitados. Neste sentido, é oportuno citar o Kantar Ibope Media, que apresenta pesquisas e análises sobre consumo de mídia (em especial TV e redes sociais) no Brasil, América Latina e mundo.


Merece destaque ainda o Google Insights, constantemente atualizado, que apresenta estudos amplos e repletos de conteúdos multimídia sobre tendências de mercado, marketing, técnicas para utilização de algumas plataformas e outras discussões que perpassam por Comunicação, cultura e consumo.


É ainda do Google outra plataforma fundamental para se buscar, observar e mesmo analisar possíveis tendências não somente de consumo: o Google Trends. O portal permite observar o posicionamento e alcance de inúmeras marcas, empresas, pessoas físicas, entre outros, em diversos meios e diferentes períodos, possibilitando assim compreensões pretensamente mais exatas e passíveis de análise.


7. (Re)crie


Ainda hoje, no Brasil, empreender é um desafio praticamente quixotesco. Mesmo assim, é possível pensar e produzir aplicativos, sites, cursos, oficinas e startups que fujam de lugares comuns, que lidem com outros públicos e que não sirvam unicamente ao ego do seu criador, mas também como novas alternativas de negócio, soluções a diversos problemas e melhorias à sociedade.

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Tais criações podem incitar a observação de outros temas ou perspectivas, que vão desde a possibilidade de se discutir interação em tais plataformas, estratégias de Search Engine Optimization (SEO), análise do conteúdo produzido, sua disponibilização através da arquitetura da informação ou ainda de algo mais próximo a uma análise de mercado ou mesmo à chamada “Internet das Coisas”, que parece algo do futuro, mas está cada vez mais presente.


Acredito que estas possibilidades ou ainda sugestões podem ajudar a soprar um pouco da poeira de algumas perspectivas e nichos de pesquisadores, aos quais me referi no início do texto. Mais que isso: é justamente a inovação, competência e percepção às possibilidades contemporâneas que, em conjunto, irão diferenciar oportunistas de pessoas que analisam diversas perspectivas em Comunicação, sejam as mais “sérias”, sejam temas mais “curiosos” e inusitados (“malucos”, por que não?!) e nem por isso menos importantes.


É isto que fará nossa pesquisa sair de lugares comuns como análise do próprio empreendimento só pela proximidade e pressa, de páginas de jornais policiais e outros clichês. É isto que poderá fortalecer outras iniciativas, trabalhos e toda uma rede mais ampla no Brasil e na Amazônia, de onde escrevo. Sonhemos forte. Pensemos grande!


Crédito:Ruan Cardoso
*Enderson Oliveira - Professor, jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutorando em Sociologia e Antropologia. Belém do Pará, Amazônia. Site: http://endersonoliveira.com | Instagram e Twitter: @o_enderson_

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