Opinião: “Uniforme Bege”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 26/03/2019 18:40

Crédito:Edu Moraes
O presidente começou a se isolar quando anunciou uma série de projetos impopulares. Apostava na votação que teve na eleição presidencial. Devia muito pouco para os partidos políticos. Ele mesmo havia pulado de um partido para ou outro consciente que o povo não votava em legendas, mas em nome de pessoas com que se identificassem. E o seu estilo político era um ponto fora da curva. Não tinha papas na língua, atacava abertamente o establishment e o seu alvo predileto era varrer a corrupção para fora do governo e da vida nacional. Os partidos esperavam pelo seu quinhão através da velha política implantada ainda no período da República Velha, ou seja, o dando é que se recebe. Deputados e senadores estavam mais preocupados com a reeleição do que com a salvação das contas públicas que ameaçavam quebrar o país. O maior sintoma era o endividamento do governo que a cada ano aumentava. Como pedir votos aos eleitores apoiando um governo que insistia em dizer que todos tinham que dar uma conta de sacrifício para sanear as contas públicas?

A virada que deu na política externa brasileira motivou ataques da oposição e principalmente da mídia. Estava sob fogo cruzado da imprensa e dos jornalistas antes mesmo de completar os famosos Cem Dias de governo. Contudo dizia, que, assim como nos Estados Unidos, o responsável pela política externa é o presidente, o ministro do exterior é apenas um executor da vontade do chefe de governo. Aproximar ou não da China? Integrar ou não o bloco dos emergentes, ou terceiro mundo e desafiar as potências? Para o presidente era tudo claro como água, era seguir em frente com a caravana e deixar os cães ladrarem. Aos poucos perdeu popularidade e ficou isolado no Palácio do Planalto. Muitos dos que o apoiaram e pegaram carona na sua popularidade começaram a abandonar o governo. Como se chama mesmo aquele bichinho que é o primeiro a abandonar o navio?? Iniciou um desengorduramento da máquina federal, e gente influente perdeu emprego e a boquinha com a tal austeridade elogiada pelo Fundo Monetário Internacional.


A grande oposição de dentro do governo vinha do funcionalismo público fortemente afetado com as medidas governamentais. É verdade que o presidente se deixava fotografar sem gravata – uma falta de compostura com o ritual do cargo. Aprofundou o canal de comunicação para falar diretamente ao povo, com seu estilo inconfundível, e sem a intermediação da mídia. Esta o expunha ao ridículo com charges e reportagem sobre a proibição das corridas de cavalo, rinhas de brigas de galo, biquíni nas praias cariocas e até o uso de lança perfume no carnaval. Aí Rita Lee.... Só faltava exigir que os funcionários federais vestissem uniforme para serem identificados pelos que usavam os serviços públicos. Baixou um decreto no Diário Oficial que não só instituía o uniforme, como dava as diretrizes da moda: além dos moldes, cor bege e tecido nacional. A mídia apelidou o uniforme de pijânio. Jânio Quadros não percebeu que as bases de apoio popular sofriam séria erosão em tão poucos meses de governo. Os embates com o Congresso Nacional eram cada vez mais intensos. Os cortes nos subsídios no trigo e no petróleo elevaram drasticamente os preços do pãozinho e da gasolina. Quais as chances de um governo com este perfil sobreviver por muito tempo?


*Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.


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