Opinião: "Assustador o poder também da 'meia mentira'", por Fernanda Iarossi

Mais que espalhar um boato, a tática é espalhá-lo e corrigi-lo pela metade

Fernanda Iarossi | 26/03/2019 12:05

Crédito:Pixabay


Partidos políticos, empresas, candidatos a cargos públicos… Atores importantes na dinâmica social cada vez mais são desmascarados (ou questionados) por espalhar informações errôneas. A expressão fake news está na boca do povo, mas o esforço de tentar diferenciar o que é notícia falsa (aliás uma contradição no sentido extremo: se é notícia, não deveria ser falsa), por mais que veículos de comunicação, grupos de jornalistas e iniciativas independentes tentem, parece cada mais complicado. Saber separar, verificar o que é realmente o bom jornalismo, a boa apuração do que são tweets, posts, vídeos bombásticos (que têm até usado da estética, forma jornalística) que até "parecem verdade" dá trabalho, pode levar tempo... Isso já me incomoda há tempos, ainda mais quando se ouve jovens dizendo, mesmo que em tom de brincadeira, que é “o maior barato espalhar fake news” por aí.

Além do espalhamento fácil, rápido destas informações falsas, já que basta um clique, outra “tática” engrossa esta proliferação nociva, especialmente a partir de formadores de opinião: ao acompanhar o caso que envolveu um partido espanhol e a imprensa também repercutiu, mais um sinal de alerta - mais que espalhar um boato, a tática de espalhá-lo e corrigi-lo pela metade.


É devastador já que o “original” já impactou, atingiu, até pautou não só as discussões entre as pessoas como até contaminou a agenda midiática (se observar como aconteceu no exemplo acima).


Imaginar que pessoas gastam tempo (e recebam por isso!) faz desacreditar na humanidade. Porém, ignorar não adianta e faz repensarmos o papel dos meios de comunicação (sérios, comprometidos com o bom jornalismo) e o papel de lideranças, dos formadores de opinião, que têm ainda papel determinante nas sociedades.


Ensinar nas escolas, nas universidades, espalhar iniciativas como a seguir, de agências de checagem (descobrem e investigam informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsa) ou projetos temporários (como em período eleitoral), ajudam a mobilizar – infelizmente não na velocidade dos boatos e mentiras ou dos ”meio boatos” ou “meia mentiras”. Mas temos que tentar!


Conheça estes projetos: Aos Fatos / Lupa / Fake ou News / A Pública / Projeto Comprova / Boatos.org / E-farsas / Fato ou Fake / Estadão Verifica.


Crédito:Arquivo pessoal
*Fernanda Iarossi é jornalista, Mestre em Comunicação Midiática pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Neto. Professora nos cursos de Comunicação da UAM – Universidade Anhembi Morumbi e Fapcom – Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e em São Paulo. Coordenada o Grupo de Pesquisa Discursos Midiáticos na Fapcom.

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