Opinião: "Saudade de ter saudade? #TBT, sociedade e representação nas redes sociais", por Enderson Oliveira

Enderson Oliveira | 21/03/2019 12:56

Crédito:Arte PV Dias (@palovitu)
Você tem saudade de quê? Talvez de um familiar querido, algo vivido na infância ou adolescência, situações que foram marcantes de algum modo e que talvez não se repitam nunca mais.

Sei, caro leitor, que o "nunca mais" e a pergunta que abre este texto talvez provoquem certo incômodo, uma lembrança nostálgica que por vezes paralisa, provoca lágrimas ou mesmo sorrisos sutis ao se passear pela memória. A saudade parece ser algo "sagrado", que deve ser preservada, acessada com respeito e carinho por motivos diversos. Mesmo com a singularidade presente neste sentimento e/ou sensação, é possível que, talvez semanalmente, você a provoque ou a sinta de forma mais “pragmática”, para em seguida representá-la nas redes sociais.


Falo aqui de uma hashtag que possivelmente você conhece, utiliza ou mesmo já observou: a hashtag TBT (#TBT), abreviação de "Throwback Thursday", que em tradução livre pode ser entendida como "lembrança de quinta-feira", "reminiscência de quinta-feira". A saudade em questão, na verdade, pode ser de uma situação ou fato ocorrido em qualquer outro dia, mas que é lembrado exatamente no quinto dia da semana.


Mais que isso: o que parece apenas uma forma de "etiquetar" (lembremos que as hashtags servem para isto) e organizar o conteúdo disponibilizado na web pode ter, no entanto, uma compreensão bem mais ampla e complexa se a notarmos com atenção. Neste texto reúno provocações para que se compreenda que algumas práticas ligadas a saudade, como o TBT e sua representação são bem mais amplas e complexas do que se percebe em uma primeira mirada.


Neste caleidoscópio contemporâneo, em que o tempo e espaço parecem ser comprimidos, algo discutido por alguns autores, como David Harvey em A Condição Pós-Moderna, o (hábito de publicar) TBT possibilita a expressão de lembranças muitas vezes pessoais e seu maior alcance, já que as imagens ficam disponíveis aos seguidores em alguma rede social - em especial o Instagram.

Crédito:Arte PV Dias (@palovitu)


Em uma cadeia folksonômica, seu uso permite organizar tais conteúdos, catalogar as lembranças, disponibilizá-las nas prateleiras da memória e do imaginário e, é claro, nas telas de computadores, tablets e, principalmente, smartphones. A representação da saudade pode também se tornar um conteúdo viral. Tudo isto, é claro, em poucos clicks.


Levando em conta tudo isto, em meio a tanta representação da saudade, como fica a “saudade-em-si”? Talvez ela tenha se tornado mais "fluida", quiçá até mesmo menos importante que sua representação. “Estive”, “fui”, “conheci”, “vivi” parecem ser as conjugações verbais predominantes em detrimento de um simples “senti” ou “sinto”. Então, há saudade em se “ter” saudade? A interpretação é sua, mas há uma certeza: não é raro encontrar pessoas que, semanalmente, se veem com a “obrigação” de publicar algum conteúdo de “TBT”.


A(s) saudade(s), então, parece(m) precisar de atualização, o que é possibilitado ou mesmo instigado pela chamada "modernidade líquida" de Zygmunt Bauman, que nos dá algumas pistas para as provocações que apresento aqui. Ora, notemos que para o sociólogo polonês a dita “modernidade sólida” analisada também por Sigmund Freud foi suplantada pela “líquida”. Como uma das mudanças, podemos perceber a supremacia da liberdade individual em relação à segurança, que terminaria provocando mal-estar em uma estrutura mais “rígida”.


Em poucas palavras, mais livres (ou ao menos possuindo esta “sensação”), fugazes e despreocupados com algumas formas de interpretação e compreensão, os sujeitos – na verdade, nós – nos sentimos mais livres para expor nosso hábitos, sentimentos e saudades. A exposição, que poderia indicar insegurança, agora é encorajada e praticada.

Crédito:Arte PV Dias (@palovitu)


É isto que também possibilita, portanto, o passado ser colocado em um “altar” de pixels e louvado por quem professar sua fé e lembrança ou mesmo, silenciosamente, observar aquele ato de contrição – e exposição. É, caro leitor, TBT é bem mais complexo que imaginou, não é mesmo?!


Prosseguindo, se somos mais livres para fazer tais publicações, somos mais livres também para repeti-las. Refiro-me aqui àquelas pessoas que, com certa constância, retornam a um mesmo fato para publicá-lo: a “felicidade” por se estar em um relacionamento, uma viagem, uma conquista, algo que destaque e eleve aquele sujeito perante seus seguidores ou qualquer outra pessoa que acesse seu conteúdo. O que se apaga com o tempo, seja na memória, em documentos ou em grupos de pessoas que compartilharam tais experiências permanece cintilante nas publicações.


Este processo de eterna retomada ou constante “atualização da saudade” parece proporcionar um alívio, certo prazer por se ter o que demonstrar/exibir nas redes e também seguir uma lógica de publicações. Talvez haja certa "tirania do prazer", não somente sexual e suas nuances como o discutido por Jean-Claude Guillebaud, mas de exibição, que parece impelir (ou possibilitar) que estas pessoas publiquem o mesmo conteúdo ou semelhante com certa constância. Isto também pode indicar tanto um repertório de lembranças pouco diversificado como apontar para uma síndrome que é cada vez mais recorrente no período contemporâneo, o que possibilita – acredito – “novas perspectivas” para se pensar a saudade.


Saudade em tempos de representação


Apesar deste texto possuir um tom possivelmente muito apocalíptico, admito, é necessário observar que a “saudade-em-si” de fato não é apagada em detrimento de sua representação, obviamente. Fluida, permite que observemos outros “fenômenos”, talvez "variações do mesmo tema".


O primeiro deles já foi discutido de forma indireta ao longo do texto: a necessidade da representação, que pode sugerir uma perigosa aproximação da “síndrome” de “Fear of Missing Out” (FoMO), que pode ser traduzido como “medo de estar perdendo algo”. A expressão aponta para uma lógica que parece natural: "todo mundo posta, preciso postar também". O medo de perder algo (por não acessar) ou mesmo de não ser visto termina gerando impaciência, ansiedade e frustração que por vezes evolui para a depressão. Talvez você mesmo, caro leitor, já tenha se aproximado disto ou conheça alguém assim.


Não obstante, você pode também lembrar ou já deve ter visto alguém comentar algo – em especial durante uma viagem – como "agora tenho foto para o ano todo", "agora o TBT do resto do ano está garantido" (sic). Tais frases, por vezes citadas de forma bem humorada ou mesmo irônica, carregam em si um significado mais amplo que se aproxima da necessidade de se ficar visível, fazer parte de tudo aquilo, muito provavelmente porque outras pessoas também estão fazendo.


Mais que isso: a saudade passa a ser esperada, programada, outra perspectiva que acredito que mereça mais atenção. Aquele conteúdo que é registrado ficará disponível para ser recordado de forma positiva, é claro, mas principalmente para ser divulgado. Tecnologia, sensações e experiências se unem em uma cadeia complexa e curiosa que segue a nosso alcance em poucos clicks, em que as saudades são escolhidas cuidadosamente para dizer algo sobre (o melhor de) nós.


O resultado da necessidade de se escolher uma saudade (lembram do início do texto?), transformá-la em publicação, com a definição de outras hashtags e legendas parece então colaborar para esvaziar o sentido da mesma, o que pouco importa diante de uma progressão geométrica de likes ou compartilhamentos que podem surgir a partir de uma "postagem".


Neste panorama, merece ainda destaque outra prática curiosa, realizada principalmente por “páginas de saudade” que existem no Facebook, Instagram e, em menor escala, no Twitter. Nestes perfis, imagens de cidades, locais ou mesmo pessoas em períodos passados são “reapresentados”, não raramente com curadoria questionável ou ainda com objetivos pouco claros.



Vemos então aí a emergência de certo spleen, definido por Walter Benjamin em suas Passagens como “um sentimento que corresponde à catástrofe em permanência” ou mesmo como “saudade do desconhecido”, de um período que não se viveu, mas se carrega uma “memória” ou ideal de inserção/ retomada.


Ao entrar em contato com um “TBT” de décadas passadas ou secular, a saudade se torna mais idealizada, nostálgica e pode potencializar – até mesmo nas redes sociais ou outros meios de comunicação – outras práticas de representação.


Isto lembra-me Moacyr Scliar, que escreveu em Saturno nos Trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil que na saudade existe uma idealização das imagens do passado capaz de gerar entusiasmo em nome de uma causa. É exatamente isto que notamos neste amplo panorama atual de disseminação de saudades, em especial na utilização da hashtag aqui discutida.


Parece haver certo entusiasmo ao “recuperar” uma lembrança, muitas das vezes boa, é claro, e compartilhá-la. É necessário para não se compreender alguém como uma pessoa “off”, demonstra um passado interessante – ainda que possa ter sido de dias atrás – e incentiva e instiga outras pessoas a fazerem o mesmo. Certa ou errada, normal ou exagerada, acredito que seja importante notarmos tal prática e as provocações que ela possibilita já que estão em nosso cotidiano e, curiosamente, também podem ser alvos de saudade ou lembrança no futuro, afinal, quase tudo passa e tudo pode ser transformado em “tebetê”, inclusive ele próprio.


À minha mãe, minha saudade diária, minha lembrança constante e meu eterno motivo para “TBT”.


Crédito:Ruan Cardoso
*Enderson Oliveira - Professor, jornalista, mestre em Ciências Sociais, doutorando em Sociologia e Antropologia. Belém do Pará, Amazônia. Site: http://endersonoliveira.com | Instagram e Twitter: @o_enderson_

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