“Nesse cenário de desinformação, a crise resgatou o papel de investigar”, afirma a jornalista Kassia Nobre

Gisele Sotto, em colaboração | 20/03/2019 11:32

Resultado da tese de doutorado que a jornalista Kassia Nobre dos Santos defendeu pela PUC-SP, o livro "Em busca da credibilidade perdida: a rede de investigação jornalística na era das fake news" evidencia essa crise e mostra que há um campo de experimentação a ser explorado pelo jornalista para atuar no novo cenário da profissão e retomar a credibilidade perdida.


A obra analisa os processos de produção da revista piauí e da agência Lupa, para discutir o jornalismo investigativo e os procedimentos de apuração e checagem. “A proposta da publicação é fazer uma reflexão crítica sobre o jornalismo a partir de uma abordagem diferenciada: seus modos de produção”, destaca a professora Cecília Almeida Salles, responsável pela orientação da tese.


Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Kassia comenta as motivações para sua pesquisa de doutorado e as lições que aprendeu durante suas análises e entrevistas com jornalistas.

Crédito:Diogo Cronemberger


O que te motivou a analisar o papel da reportagem e da checagem no combate à desinformação? E as razões de fazer esta análise com base na revista piauí e Agência Lupa?

Em 2015, eu iniciei minha pesquisa de doutorado na PUC-SP e a revista piauí já era o meu objeto de estudo. O meu interesse era analisar o processo de criação das reportagens da revista. Porém, foi neste mesmo ano que surgiu a agência Lupa, que estava hospedada no site da piauí. Fiquei curiosa com o trabalho e decidi acompanhá-lo. Comecei também a acompanhar as notícias sobre a pós-verdade, que foi escolhida pelo Dicionário Oxford como a palavra no ano seguinte, 2016. A partir daí o meu objeto de estudo foi ampliado. Além de estudar sobre a reportagem, incluí a checagem. Queria entender como era o processo de produção dessas atividades. Então, entrevistei jornalistas da revista piauí e a criadora da agência Lupa, Cristina Tardáguila.


Em 2017, o país e a imprensa passaram a falar bastante sobre as notícias falsas. Principalmente, depois da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL). Neste momento, já estava imersa nas bibliografias sobre o tema, principalmente as americanas. Eu entendia que a reportagem e a checagem eram ferramentas importantes e necessárias para que o jornalismo combatesse a desinformação que está presente nas redes e, consequentemente, no nosso cotidiano. 


Após a análise, quais são os principais caminhos no combate à desinformação? E que brechas você identifica na produção jornalística atual?

Apesar do cenário de desinformação, a minha tese é que o jornalismo, mesmo com a crise de credibilidade, conseguiu resgatar pilares fundamentais da profissão – a apuração aprofundada e a checagem, a partir da criação de novos modelos de trabalho. No Brasil, o jornalismo vê surgir novos formatos, especialmente em 2015, ano de criação das agências de checagem Lupa e Aos Fatos. Além da criação do jornal Nexo, o Intercept Brasil e a Agência Pública. Todas essas iniciativas são as brechas que você citou porque têm a investigação jornalística como motriz fundamental. Ou seja, a crise resgatou o jornalismo investigativo em diferentes plataformas e reafirmou o verdadeiro papel do jornalista em um cenário em que qualquer pessoa pode informar. A crise resgatou o papel de investigar.


Nos veículos, que fatores vem contribuindo para a falta de apuração aprofundada e a checagem? E quais são as lições que você destaca da análise do trabalho desenvolvido na revista piauí e na Agência Lupa?


No meu trabalho, eu construí a rede de investigação da reportagem e da checagem. Isso só foi possível devido ao depoimento dos jornalistas da revista piauí e da criadora da agência Lupa. Assim, os principais nós (pontos) da reportagem são: o tempo de criação; a narratividade e a especialidade do repórter. Ou seja, a piauí consegue produzir reportagens significativas porque os repórteres têm tempo para apurar, geralmente dois meses. Eles podem checar as declarações das suas fontes, indo além do jornalismo declaratório. Além disso, suas reportagens são influenciadas pelas narrativas do cinema e da literatura. A consequência disso é que eles produzem narrativas atrativas que conseguem “prender” a atenção do leitor. Mesmo que o texto seja extenso, como, geralmente, é.


Outro fator importante é a especialidade do repórter. Ou seja, todos eles são especialistas no que escrevem, como o repórter Bernardo Esteves que escreve sobre Ciência e Meio Ambiente e tem doutorado em Histórias das Ciências pela UFRJ.  Ou então, como a repórter Malu Gaspar que escreve sobre política e já trabalhou nos principais veículos do país, como a Veja e a Folha de S. Paulo.


Crédito:Reprodução / Grupo Editorial Letramento
Já na agência Lupa, eu destaquei os nós da transparência e correção do erro. A Lupa faz parte do The International Fact-Checking Network (IFCN), com sede nos Estados Unidos. Assim como o Aos Fatos. A partir disso, os checadores costumam seguir princípios éticos de comportamento. São eles: a transparência plena da sua metodologia, ou seja, detalhar para o público a forma como a checagem é realizada; a transparência plena do seu financiamento; apartidarismo; comprometimento com a correção, caso haja um erro na checagem; e transparência na informação das fontes. A minha tese é que todos estes nós são fundamentais para que o jornalismo possa, de fato, combater a desinformação. 


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