Opinião: “Massacre em Suzano: ‘atenção, imagens fortes!’”, por Luiz Claudio Ferreira

Luiz Claudio Ferreira | 19/03/2019 11:28
Crédito:Pixabay
O aviso na página de notícias surge como um convite: “atenção, imagens fortes”. Na sala de aula de jornalismo, os alunos perguntam: “E agora pode divulgar imagens de um massacre?”. Uma pergunta retórica, oras. Um convite ao óbvio “claro que não”. Nenhum professor de comunicação estimularia o rompimento com normas basilares, inclusive sob o ponto de vista da ética jornalística, que é condenável a exposição de corpos e da violência. Papo de faculdade? Não deveria ser. As tais das “imagens fortes” povoaram a cobertura do massacre na escola pública em Suzano (com a morte de 10 pessoas). Nos principais portais, a fronteira ética ainda foi rompida com a exposição dos corpos dos acusados de serem os atiradores com poças de sangue ao lado da cabeça. Um deles era adolescente. Nome inteiro e imagem dele foram trazidas ao público com uma naturalidade inacreditável.

A era do “tudo por um clique” guarda semelhanças evidentes com tantos outros momentos em que veículos optaram por espirrar sangue na cara do público para tentar garantir audiência à TV, à rádio e jornal impresso. O falecido “Notícias Populares” que o diga. A construção do sensacionalismo tem pilares mapeados em obras interessantes da comunicação, como “Espreme que sai sangue”, de Danilo Angrimani, ou de “Showrnalismo”, de José Arbex Junior. Os veículos por assinatura com 24 horas de notícia mantiveram a tentativa de deixar o “assinante” no meio do horror. Os tradicionais também. O Jornal Nacional, por exemplo, programa jornalístico ainda de maior audiência, destacou na escalada e na sua principal reportagem as imagens das câmeras da escola. Na TV Bandeirantes, viralizou a perseguição de um repórter à mãe do atirador adolescente.

É verdade que o jornalismo vive sob ataques e uma crise de credibilidade com a multiplicação de fake news. Em contrapeso, em mais essa desgraça de 2019, os jornalistas optam por tentar documentar e trazer provas: as imagens. Lógico que não é a primeira vez neste ano. As imagens do fogo no Ninho do Urubu, CT do Flamengo, nos davam a sensação de que a qualquer momento sairia um corpo carbonizado lá de dentro. 

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (1987) prega que a atividade tem o dever de “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”. Além disso, é bem claro quando recomenda que o jornalista não deve divulgar imagens e informações “de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”.

No Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069 de 1990), no seu artigo 17, que o menor de idade deve ter respeitado à “inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral (...) abrangendo a preservação da imagem, da identidade...”. A lei prevê respeito integral à criança e ao adolescente, sejam eles vítimas ou acusados de atos infracionais. Afora isso, a exposição da mãe do adolescente em TV aberta, da forma que ocorreu, colocou a família inteira sob risco daqueles que, em nossa era de ódio, podem buscar alguma vingança. Não bastasse a tragédia que já caiu naquela casa com o assassinato do tio do adolescente pouco antes de ele seguir com um colega de 25 anos para a escola Raul Brasil.
 
Esse tipo de jornalismo, claro, não colabora com a civilização que precisamos cultivar. Mas, por outro lado, nem tudo é derrota em momentos assim. Veículos também buscaram discutir mais questões fundamentais de nossa atualidade, como a flexibilização do uso de armas (para posse e porte) e também a respeito da depressão, doença que ganhou mais visibilidade no século 21. Assuntos que não podem ser tratados de forma simplória ou superficial. Outro motivo de esperança é que acadêmicos de jornalismo lamentaram a parcela irresponsável de cobertura. Terão chance de provar, agora e ao longo da carreira, que estudaram, que refletir é próprio de uma atividade de nível superior e que respeito ao outro não é “papo de faculdade”.

Crédito:Arquivo pessoal
*Luiz Claudio Ferreira - Professor de jornalismo do UniCEUB, em Brasília, há 14 anos. Mestre em Comunicação e doutorando em Literatura. Tem passagens por redações de jornais, TV, revista e agência de notícias. Atualmente trabalha também na Empresa Brasil de Comunicação.

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