Opinião: "Apontamentos sobre mentira, verdade e jornalismo", por Rafiza Varão

Rafiza Varão | 18/03/2019 08:29

Primeiro, pós-verdade se tornou palavra do ano no dicionário Oxford, em 2016. Ainda não se tratava, contudo, de um ataque ao jornalismo. A expressão abarcava a tendência crescente em ambientes informacionais (em especial nas mídias digitais) de reforçarmos nossas crenças e evitarmos aquilo que delas destoa, ou aquilo que pode destruí-las. Foi apenas no ano seguinte que a prática jornalística se viu confrontada de maneira mais forte pelo rótulo fake news e passou a ter um de seus fundamentos questionado todos os dias: a de que seus produtos apresentam conteúdo verdadeiro.


Essa não é acusação nova. Desde a industrialização, pelo menos, os jornais vêm sendo tachados de mentirosos e manipuladores. Entretanto, é incontestável que, entre 2017 e 2019, essa queixa tenha se tornado uma constante não só quando a imprensa erra, mas também quando ela apresenta fatos checados a partir de uma rigorosa apuração. Esse fenômeno, que se relaciona também com a categoria de pós-verdade, se tornou mais intenso a partir da estratégia do presidente estadunidense Donald Trump de aplicar o rótulo fake news aos veículos jornalísticos que não fizeram as vezes de orgãos oficiais de seu governo. De modo deliberado, discriminadamente, a intenção é abalar a credibilidade do jornalismo profissional, ao passo em que se propaga a ideia entre seu eleitorado de que o governo Trump é portador oficial da verdade (tática que vem ganhando adeptos em outros governos nacionais). A audiência, os seguidores, os usuários, quaisquer nome que tiverem, têm sido levados a agir da mesma maneira.

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Postagem publicada no Twitter acusando o jornal O Estado de São Paulo de inventar notícias


Mas o que se deixa de vislumbrar com esses ataques, que muitos chamam de guerra à imprensa e cujo sentido é plenamente político, é que, na maioria das vezes, aquilo que esses mesmos usuários acabam chamando de fake news é rótulo que recai erroneamente sobre material jornalístico correto, pautado na precisa apuração dos fatos, mas que coloca em jogo o universo cultural no qual esses usuários comungam e do qual não abrem mão.


Dizer isso não significa afirmar que a imprensa não mente. Para citar um caso recente, um dos mais importantes jornais alemães, Der Spiegel, enfrentou a fraude jornalística em suas coxias, quando foi descoberto que o repórter Claas Relotius inventava as histórias que publicava no periódico. Do mesmo modo, não significa dizer que a imprensa não tenha sua parcela de culpa na má reputação evocada agora para lhe difamar. Os desvios da ética profissional deixam arranhões muito mais visíveis que os acertos. Mas o que deveria ser exceção a essa altura da profissionalização do jornalismo passou a ser visto como a regra pelo público. Mais que isso, o conteúdo não jornalístico passa a ter o mesmo peso de uma informação noticiosa. A propaganda política, por exemplo, desde o final do século XIX entendida como elemento de manipulação das massas, perde seu caráter negativo e circula, triunfante, como a verdade que a mídia esconde. Mensagens de WhatsApp circulam como hard news. Todavia, há que se lembrar que uma coisa é

errar, algo inevitável nas rotinas que são preenchidas pela novidade. Outra é mentir, ação carregada de intenções, própria do uso de informações por interesses escusos.


Para reconstruir, em parte, esse cenário, algumas saídas têm aparecido, mas talvez precisemos de outras portas abertas. O mais comum é que se direcione a busca pela credibilidade no jornalismo aos atos de verificação de conteúdos após publicação. Essa não é uma alternativa ruim e as agências de checagem, que emergiram sobretudo nessa segunda metade de década, realizam trabalho importante no discernimento do que são fatos e do que é pura lorota. O foco no que é  mentira, então, é o que se sobressai.


Mas e a verdade? Que tipo de fundamento ela representa para a prática jornalística? Talvez seja chegada a hora de, cada vez mais, se reforçar esse estatuto do jornalismo, em especial no quesito ético e na formação dos estudantes da área. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, no artigo 4º, afirma: “O  compromisso  fundamental  do  jornalista  é  com  a  verdade  no  relato  dos  fatos,  razão  pela  qual  ele  deve  pautar  seu  trabalho  pela  precisa  apuração  e  pela  sua  correta  divulgação”. Ora, sendo assim, é dever do próprio jornalista defender o papel social do seu trabalho, sem o qual as sociedades contemporâneas não podem facilmente sobreviver, sobretudo em regimes democráticos, nos quais o direito à informação é assegurado.


Não se trata, aqui, de instituir uma verdade soberana, desvinculada de recortes e interpretações - toda verdade é atravessada por tais componentes. Mas deve-se evitar cair na armadilha do senso comum, que diz que cada um tem a “sua verdade”, como se o individual pudesse sempre se sobrepor ao social. Fatos são observáveis e são passíveis de narração. A água ferve a 100ºC. O ferro é um elemento químico de número atômico 26. A Xuxa é a Xuxa. O ano em que estamos no Brasil é 2019. O jornalista deve acirrar sua batalha por essa verdade: a dos fatos, da apuração, gerando credibilidade pela qualidade. E o público precisa perceber que onde não há imprensa livre, com profissionais que se pautem por esses princípios, o império da mentira será erguido, mas não pela mão dos jornalistas.   


Obs.: Há vários conceitos e contextos para o uso do termo fake news. Neste texto, estamos falando apenas dos casos em que o jornalismo recebe o rótulo.


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*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.


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